Eu tinha 9 para 10 anos e achava a catequese um tremendo disperdício de tempo. Perdia desenhos, treinos de Fórmula 1 e substanciais horas de sono, muito caras até hoje, e ainda lamentadas. Aliás, ainda acho catequese uma perda de tempo, a diferença é que naquele tempo pensar dessa maneira era um sacrilégio passível do fogo eterno, do fim das promessas de redenção eterna em algum paraíso onde não se precisasse acordar cedo e todos os desenhos estivessem disponíveis à quem aprouvesse assisti-los. Era no sábado. Provavelmente o cerne do desencanto da religião nas pessoas esteja, além dos rituais enfadonhos, no péssimo senso de tempo de padres, cardeais e congêneres, que escolheram para desempenhar seu ofício dias e horários para lá de ingratos. A catequese, enfim, consistia em lições nada inovadoras e bagatelas reducionistas para crianças. Ao que tudo indica, Deus só te recebe no paraíso dele caso você sacrifique uma porção de finais-de-semana durante a infância, acredite cegamente nas coisas que são ditas e nunca, sob hipótese alguma, questione.
O mês de setembro é ingrato na região sul do Paraná. Época de ventanias e de desarranjos de ordem metereológica dos quais não arrisco a menor noção, causam tempestades, chuvas fortes, granizo. Aconteceu naquele ano. Lembro que foi uma das grandes chuvas de granizo que presenciei - e tive a casa destelhada numa que veio quatro anos depois. Esta que resgato aqui, contudo, poupou nossa casa. Mesma sorte não tiveram alguns vizinhos, um posto de gasolina, onde o gelo pesou no amplo telhado de zinco e o fez vergar sob o peso. Lembro de danos menores à comunidade, como alguns carros danificados, um ou outro acontecido. Entre mortos e feridos, até onde iluminam os vagalumes da minha memória, sobreviveram todos.
Também foi vítima dos grãos de gelo a igreja onde eu frequentava os serviços, por pura imposição da catequista. Três faltas não justificadas à missa eram passíveis de reprovamento, e reprovar na catequese - feito que meu irmão conseguiu inadvertidamente - me parecia tristeza demais para uma vida só. Ia concenciosamente onde mandavam, confessava, ingeria o corpo de um deus morto há dois mil anos e não fazia perguntas.
Até que sucedeu a tempestade de granizo que escolheu a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro como vítima. E não foi só o gelo que avacalhou o templo, caíram raios que causaram alguns danos, embora o edifício fosse guarnecido com boa provisão de pára-raios.
O sinistro nos poupou da catequese até que reparos fossem feitos às expensas da comunidade. O que é um absurdo, considerando que igrejas não pagam qualquer imposto e sejam para lá de proverbiais os fundos de que dispõem as autoridades da Igreja. Nada disso me passou pela cabeça.
Contudo lembro de perguntar à catequista o por quê. Por que Deus tinha decidido avacalhar com sua morada? Não era, aliás, mais condizente com sua figura de defensor, pai, e em última análise, benfeitor de toda a humanidade que fizesse o cataclismo abater-se sobre alguém reconhecidamente mal? Ou talvez num descampado, onde os danos não fossem maiores que capim amassado? Talvez nos mares, onde a chuva de gelo não passaria de distração às populações de peixes, intrigadas com o fenômeno de pedregulhos que se desfazem em contato com a água? Ela respondeu com "são mistérios de Deus".
Não questionei à fundo, mas lembro que a resposta da catequista me deixou insatisfeito, porque quando eu desandava, meus pais exigiam explicações e eu precisava dar motivos. Assim como meu pai me explicava pacientemente porque não tínhamos carro e o quanto custava um, presumi que Deus deveria, dado o seu caráter paternal, obrigação semelhante na hipótese de desastres se abaterem sob aqueles que não podem muito para impedi-los. Considerei, portanto, absolutamente insatisfatórias as respostas da catequista e julguei que a falta de capacidade dela em sanar minhas dúvidas residia no fato de que fosse uma autoridade muito baixa em questões que alcançavam às excelsas altitudes do mistério da mente de Deus.
A conclusão de que precisava de alguém mais gabaritado no tema levou-me à presença do padre. Não lembro muito do cidadão, mas lembro da conversa. Perguntei a ele, em primeiro lugar, o que havia perguntado à catequista. A resposta veio mais ou menos nos mesmos termos, e não convenceu. Aí, ainda crente na sua capacidade de decifrar assuntos desse quilate, lhe perguntei: "Se a igreja é a casa de Deus, por que ela precisa de pára-raios? Qual é o medo?"
"A natureza", respondeu. "Mas Deus não é Deus da natureza também?", "Ele é Deus de tudo que existe!". Nada mais saiu dessa conversa, me despedi, e desde então, embora tenha continuado católico por inércia ao longo dos anos que vieram, nunca mais me senti realmente crente na religião e naquilo que pregava, dizia e recomendava. Como acontece com todo mundo, questionamentos e bom senso mataram a minha fé.
A catequista disse que são mistérios de Deus e que ninguém poderia perscrutar a mente dele. Não cheguei a questionar a ideia, que hoje, é evidente, parece absurda. O padre jogou com a minha curiosidade infantil, julgando que ela se calaria e se acomodaria com qualquer palavra atirada ao ar, porque encontraria o mérito não na resposta em si, mas na autoridade.
Se não somos capazes de compreendê-lo, a despeito dos nossos mais abnegados esforços, por que nos damos ao trabalho? E se somos incapazes de entendê-lo, porque veio Deus nos prover de um livro justamente dedicado, dizem, para compreender os desígnios e metas do altíssimo para a humanidade?


1 comentários:
Há uma música do Taiguara, chama-se "Rua dos Ingleses".
"Eu vinha andando pela rua dos ingleses, vi uma flor no limo verde, nos sorrimos e era deus".
Tb não tenho resposta pra essas crenças absurdas, q em verdade traz tanto mal. Me doem as diferenças. E não vejo solução...
Mas vamos sorrir, com algum motivo, é melhor.
Sorte p todos nós.
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