sábado, 18 de dezembro de 2010

Papillon

Está decidido, em caráter irrevogável, que o veleiro que nunca terei condições de comprar será um Nautor Swan 55, que pretendo batizá-lo não mais de Sputnik, como fora minha inclinação anterior, mas de Papillon.

Sputnik, em russo, muito antes de ser a esfera espetada de metal que subiu à extratosfera em 1957 para fazer bip-bip-bip e maravilhar o mundo, é satélite. Muita gente acredita que a tradução seja "amigo", mas não é.

Papillon vem do francês e significa borboleta, que é um bicho mais ou menos afeminado e que ficaria bastante desconfortável no barco de um marmanjo metido a marujo hipotético - e à luz de tanta incerteza, nessa vida é tudo hipótese, de modo que não dá para garantir se estampar Papillon na proa e popa, esmigalhar uma boa garrafa de champagne no casco para selar o batismo, afinal, fique afeminado demais. Acontece que Papillon vem a ser, também, o nome de um ótimo filme onde, mais uma vez, Papillon era o personagem principal, obcecado pela ideia de liberdade e que encerra sua atribulada carreira de fugas flutuando num pontão construído de barris.

O barco que nunca terei, as velas que nunca manejarei, enfim, sempre foram mais um mal-ajambrado grito de liberdade deste velho corpo carcomido, e nada mais justo, pois, que chame-se Papillon o instrumento que nunca vai me levar dos grilhões do cotidiano, das renúncias diárias, das explorações inexoráveis e das derrotas humilhantes.

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