Há muito tempo que eu não vivia uma ressaca dessas, uma ressaca de criar bicho, uma ressaca de matar remorsos, uma ressaca de juras eternas no sentido de nunca, jamais, sob hipótese alguma, me entregar aos exageros do álcool mais uma vez.
Que delícia.
Ao longo do dia, dia em que mesmo me sentindo como um vestígio humano, me impus mais caminhadas, fui remontando os episódios ocorridos na noite anterior e foram se esboçando sorrisos poliglotas nessas minhas memórias perfumadas com o solene galanteio do mar que, logo ali, ondulava e cantarolava as cantigas de além, de saudade.
Na saída, um cão fugitivo da vila de pescadores veio me acompanhar. Já tinha notado o bicho noutro dia. De aspecto magro e sofrido, o cão mendigava atenção e restos de comida dos visitantes da pousada e, provavelmente preocupado com o silêncio da casa em hora avançada, se assomava sem cerimônias à porta da varanda que dá para o jardim. Me saudou com um olhar inquisitivo, provavelmente querendo saber da comida e do café, que por essa hora já deveria estar servido.
Não sei se cães comem maçãs, que era só o que tinha comigo, e por isso não dividi o lanche.
Mas essa falta não parece ter desinteressado o cão que, provavelmente sem outro recurso e nada mais interessante para fazer no momento, resolveu me acompanhar. Me embrenhei na mata e notei que o bicho tentava não apenas andar ao meu lado, se não adiante, e assim deixei, instigado por saber até onde ele iria.
Uns dois ou três quilômetros depois, me encontrei com o lugar que desejara para o descanso do dia e a contemplação descompromissada da natureza. Era preciso sair da trilha e entrar no mato e aí sim meu camarada canino hesitou.
Parou, ergueu a cabeça, e lançou um olhar inquisitivo, desses que impõe: “tem certeza, companheiro?”. E eu tinha, e eu tenho. Em geral, camarada, eu sempre tenho certeza.
Porque acontece que, no roteiro dessa nova alvorada, me impus uma nova rota, resolvi caminhar uma trilha sem compromisso e escolher um espaço qualquer que, do alto, me desse vista do mar, que ali montaria minha breve morada. Levei comigo frutas, música para ouvir e todos os meus pensamentos, que em luta fraterna e tardia, dilaceram a ditadura dos meus sonhos. Então, sim, eu tenho certeza.
Gostaria agora de dizer que, recostado naquela clareira, tive alguma nova epifania, que sedimentou-se no meu juízo uma nova catarse. Que alguma aparição me fez profeta, que fiquei mais sábio, que descobri ou aceitei algo novo, que a vida se descortinou envolta nas brumas que envolviam o céu cinzento que ensimesmava sem roubar nenhuma paz e beleza daquele mar sereno.
Nada disso aconteceu, talvez porque a ressaca não seja boa companhia para momentos transcendentais na vida, ou simplesmente porque talvez o momento dessas dramáticas viradas de página simplesmente já passou, ou talvez porque nada disso, no fundo, exista: o que há, mesmo, somos nós outros, todos de alguma forma perdidos no meio do caminho da vida, angustiados e ansiosos na expectativa de sermos capazes de extrair propósito, desígnio e sentido das nossas escolhas e das consequências delas e dos nossos atos esparsos. Quem é que sabe?
O que aconteceu foi que eu descansei, ouvi música, pensei na viagem de volta. Fiz notas mentais para comprar os licores que minha mãe encomendou. Para calibrar os pneus. Para pegar contatos dos gringos com quem enchi a cara. Pensei na faculdade, no trabalho, em mim, pensei na família. Nas coisas que me importam realmente. Pensei em 2018, pensei nesse desafio de transformar o ano que vem em algo ainda melhor do que esse que, estranho e com seus espinhos, é um dos melhores anos da minha vida. Pensei, pensei, pensei e pensei.
Atrás de mim, repousava o caminho que me conduzira até aquele ponto e eu podia ouvir por lá vozes animadas e gente que fazia também as suas trilhas. Intimamente, torci para que alguém viesse até onde eu estava, para que compartilhássemos a vista, eu contasse e ouvisse histórias, aí sorriríamos e trocaríamos impressões sobre a vida. Mas a verdade é que eu não posso me mexer daqui para dar esses passos para trás, não agora, não assim, não desse jeito. E a verdade é que quem vai lá por aquele caminho desconhece-me, quem sabe rejeita, ignora esse lugar maravilhoso e as preciosidades que vão comigo aqui, agora e nesse instante.
Aí aborreci-me.
Era hora de voltar, de levantar acampamento, juntar as coisas, coletar o lixo e deixar só as cascas das frutas. Andei pela curta extensão de mata no rumo da trilha, desci o barranco com cuidado e encontrei o caminho alguns metros abaixo de onde originalmente tinha me desviado horas atrás. Para a minha surpresa, aninhado entre as raízes generosas de uma árvore, estava embrulhado o cão guarda que me acompanhara.
Com a maior naturalidade do mundo, de um jeito que me tocou o coração, ele simplesmente levantou e se pôs a andar ao meu lado.
Na pousada, fui até a cozinha, expliquei-me à cozinheira e dela comprei um naco de carne, uns ossos e linguiças. Fiz-lhe o banquete em agradecimento e me enchi de alegria ao ver que, nos olhos daquele cachorro, ia genuína gratidão e amizade, que estava ali feito um laço indissolúvel de amizade, de companheirismo, de entrega.
Meu pai sempre dizia para que, onde quer que você vá, faça amigos.

0 comentários:
Postar um comentário