sábado, 23 de setembro de 2017

Foi em 1814

Acordei num susto. Sonhara que tinha escrito um romance, enfim, e que ele se passava na Viena de 1814. Foi naquela cidade que tentou-se, pela primeira vez, ajeitar um mundo nascido de guerra para as formas que tinha antes dos canhões falarem. Foi naquela data em que o mundo europeu se reuniu, que dignatários, princípes, golpistas, bandidos, monarcas e prostitutas (todas classes de idiotas e ignóbeis muito semelhantes) se encaminharam em romaria rumo à capital dos Habsburgos para que um encontro de cúpula, o primeiro do tipo, buscasse, na mais diplomática forma então possível, por no lugar a Europa que Napoleão, derrotado anos antes, tinha desarranjado nas escaramuças que travara ao longo de duas décadas.

O livro, antes de se debater no aspecto histórico do evento, que nem foi tão interessante assim e se prolongou por meses, segundo eu me recordo, versava sobre a depravação de uma classe de pessoas completamente alheia ao mundo real, toda desesperada pela manutenção dos privilégios e de, muito antes do que consertar a europa de forma justa, se preocupava em criar mecanismos que impedissem o surgimento de uma revolução que fosse dar em outro Napoleão. E não porque Napoleão fora inerentemente ruim: do que esse povo não gostava era da guilhotina que, gulosa, não poupou as cabeças douradas de Luís XVI e Maria Antonieta, além de outros potentados menos votados da chamada aristocracia francesa. Porque o Bonaparte, em que pese a insaciável sede conquistadora, de resto, de citoyen tinha muito pouco: virou imperador autoproclamado, foi morar em palácio, criou sua corte e ainda encontrou tempo de casar-se com princesa, e dizem que morrera de amores por, curiosamente ela austríaca, nascida desses mesmos Habsburgos que foram anfitriões do banquete em que se almoçou a vida e obra do baixinho francês que, a essa altura, se contentava em imperar sozinho nos confins da diminuta e quase inabitada Ilha de Elba.

O livro narrava a vida de prostitutas e golpistas. Diziam os críticos que era rico em contrastes e tons cômicos, e que a prosa não era de todo ruim.

Contam as memórias e registros desse tempo que não houve puta pobre na Áustria por meses. Que não faltou escândalo, extravagância e frivolidade, trio certeiro que eu deveria converter imediatamente em minhas temáticas preferidas para escrita porque escrever a sério pode ser muito nobre, engrandecedor e honrado, mas não leva a lugar nenhum.

O que guarda certa semelhança com aquela passagem do "O Lobo da Estepe" que, hoje, 12 anos depois, eu ainda sei recitar direitinho: o homem não foi feito para pensar, assim como não foi feito para nadar. O homem foi feito para viver e para andar na terra. Pensando, o homem pode chegar muito longe, mas um dia estará trocando a terra pela água e nela morrerá afogado.

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