segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Pureza e gratidão

Hoje dirigia pelas ruas atrás das minhas responsabilidades quando avistei, ainda há poucas quadras de casa, um senhorzinho com severas dificudades de locomoção, esgrimindo o melhor que podia duas muletas com enorme sofrimento para descer uma ladeira. Parei o carro imediatamente, baixei o vidro e lhe perguntei aonde ia e ofereci carona. Não ia longe, ao menos nas minhas contas de moço forte e sadio, e ainda mais motorizado. Ia ao banco buscar dinheiro e dali iria à farmácia.

De um salto, ele me olhou incrédulo. Depois que refiz a oferta, de sorriso amistoso no rosto, percebi que ali se travava algum conflito. Talvez desconfiasse de mim. Lhe dei todo o tempo até que se decidiu e aceitou. Puxei o freio de mão, de motor ligado desci e o ajudei a embarcar no lado do passageiro. Levei-o ao banco e fiz questão de levá-lo também à farmácia. Deixei-o em sua residência e, aí sim, fui correr atrás da flecha do dia.

Eu poderia tecer panegíricos em serviço próprio no sentido da minha grandeza de espírito, da minha tamanha generosidade, do quanto me comovo, dessa percepção que tive, que tantos sequer notariam o senhorzinho. Poderia dizer que, além de tudo, resisti ao odor de quem não deve frequentar o chuveiro com muita assiduidade. Nada disso define esse episódio porque a cidade pequena convida a esses gestos: numa capital, eu não sei se perceberia o sujeito à beira do caminho e se, em percebendo, teria a preocupação que tive quando o avistei.

Mas tudo isso é irrelevante.

Porque o homem, ao me agradecer, sorriu e chorou. Me recomendou a todos os santos, me abençoou diversas vezes e, palavra, eu bem que queria comungar dessa fé para me sentir íntimo, se não mesmo digno, de toda essa gratidão. E a experiência extraordinária de um sentimento puro assim é, no fim, o que fica aqui comigo desse pequeno episódio.

Porque é nisso que eu queria chegar. A partir do momento em que você se pacifica com o que vai dentro de você, coisas simples e coisas grandes acontecem, porque você fica mais atento, você fica mais sensível, o universo se interlaça contigo. Quando você se encontra consigo mesmo, é fácil notar e descobrir as demonstrações absolutas dos sentimentos humanos: da raiva ao amor.

O que eu vi nos olhos daquele homem, vertendo lágrimas pela face judiada pela vida, foi uma gratidão definitiva, pura, em uma essência de dicionário, de verdade e grandeza que tocam fundo no coração da gente.

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