sábado, 10 de setembro de 2011

Canhão e couraça

A Batalha do Prata, travada no alvorescer de 13 de dezembro de 1939 foi o primeiro confronto naval relevante da Segunda Guerra Mundial, na embocadura do Rio da Prata, perto de Montevidéu, e opôs um encouraçado de bolso, o Admiral Graf Spee, a uma pequena força-tarefa inglesa, comandada pelo então comodoro Henry Harwood, que compunha-se de três cruzadores leves, o Achilles, o Ajax e o Exeter.

Foi a última batalha naval da história nos moldes clássicos deste quilate de confronto bélico: o embate entre o canhão e a couraça, sem mísseis e dispositivos eletrônicos, sem radares, sem submarinos, monitoramento via satélite, aviões espiões não tripulados.

Os britânicos venceram, sobretudo pela boa antecipação dos movimentos do inimigo de Harwood, pela vantagem de número, 3 vs 1, e pelo destino, que sempre significa a sorte de esquadrilhas, pelotões e naves de guerra. Os canhoaços do Graf Spee, de assombrosas 11 polegadas, castigaram o mais que puderam o Exeter, fortemente danificado no embate. As armas de menor calibre do navio germânico vergastavam como podiam o Ajax e o Achilles, conforme estes se moviam e, por seu lado, concentravam o fogo nos alemães.

O confronto arrebentou a valer o Graf Spee, que vitimado por uma rajada certeira vinda provavelmente do Exeter, teve à proa o casco perfurado metros acima da linha de flutuação. A avaria se sentia grave na medida que se acelerava a nave a alto mar: as grandes ondas que o esguio casco do navio precisava cortar acabavam entrando pelo buraco sem a menor cerimônia. Sem reparo no casco, o Graf Spee não poderia correr em mar alto, sob pena de acabar afundado. Este tiro selou o destino do encouraçado de bolso germânico que, ferido de morte, precisou negar fogo e refugiar-se no porto de Montevidéu.

Foram dadas 72 horas para o Graf Spee deixar seus 36 tripulantes mortos e 60 feridos em terra e fazer-se ao mar em virtude da neutralidade do Uruguai em relação ao conflito. Ciente de que a matilha lhe esperava a lamber os beiços a poucas milhas, o capitão do Graf Spee, Hans Langsdorff, com um navio manco, não teve outro recurso que abandonar o porto, levar o navio além das águas territoriais do Uruguai e o afundá-lo, suicidando-se dias depois, com a segurança de sua tripulação garantida em Buenos Aires.

Graf Spee era o nome do valente almirante imperial da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, campeão da batalha de Coronel - escaramuça travada ao largo da costa do Chile - em que sua esquadra desmantelara os rivais britânicos, em 1 de novembro de 1914, custando à sua majestade a perda de 1570 homens e dois cruzadores, Monmouth e Good Hope. Os alemães contaram em seus diversos vasos de guerra apenas três feridos.

Em 14 de dezembro de 1914, mais de um mês depois, a esquadra de Graf Spee encontrou-se com o destino e com o inimigo, mais uma vez, desta feita perto das ilhas Malvinas. A Batalha das Malvinas selou a derrota de Spee, que perecera no confronto em companhia dos dois filhos, que serivam como oficiais em navios da sua esquadra. É irônico, porque Coronel foi um dos primeiros confrontos navais da Primeira Guerra, vencida por Spee, que morreria no Atlântico Sul, perto das Malvinas, em 14 de dezembro de 1914. Em 1939, na véspera do aniversário de 25 anos destes sucessos, um Graf Spee, desta vez o navio que levava seu nome, sofreria o mesmo destino, também em uma das primeiras batalhas navais da guerra, em águas próximas do local onde o almirante Spee morrera.

Churchill precisava de uma vitória e fez um tremendo carnaval com o sucesso de seus cruzadores no Atlântico, ele que, àquela altura, ainda não assumira o gabinete e era então o Primeiro Lorde do Almirantado, função equivalente ao que seria o Ministro da Marinha na época em que o Brasil dispunha de ministérios separados e exclusivos a cada uma de suas forças bélicas. Sucesso que seria seguido pelo clamoroso desastre da campanha da Noruega, que abreviou o governo de Chamberlain, colocou Churchill no cargo de primeiro ministro, logo ele, responsável maior pelo malogro e pela aventura na costa norueguesa.

Na Alemanha, o desgosto pelo insucesso do Graf Spee reafirmou o velho conceito de que travar a guerra em mar alto com naves e táticas convencionais era atalho para um retumbante fracasso, conforme amargamente demonstrara a campanha naval da Marinha Imperial Alemã na Primeira Guerra Mundial. Em virtude disso, passaram boa parte da guerra estaleirados e ancorados em águas alemãs os grandes encouraçados e cruzadores que haviam sido armados com enorme criatividade no sentido de não derrubar as cláusulas do Tratado de Versalhes e que deviam ser os sequazes de Hitler na guerra do mar. Foram desencorajados projetos de superfície, como o porta-aviões Graf Zeppelin, que jamais foi concluído pelos nazistas e serviu, depois da guerra, como elemento de prática de tiro naval à marinha soviética.

Desencorajadas as ações de superfície e confinada a marinha nazista a seus portos, ganhou respaldo e incentivo o Almirante Doenitz, a quem agastava violentamente o investimento feito em navios de superfície, caros e de menor mobilidade, se comparados aos submarinos, que a Alemanha fabricou em ritmo assustador durante boa parte da guerra. A noção de mobilidade e agilidade destes meios navais aos quais os britânicos não estavam bem preparados para enfrentar, soberanos que eram na superfície dos mares nos últimos 300 anos, foi quase decisiva no resultado da guerra. Em certa altura, os u-boats alemães afundavam mais navios do que era capaz a Inglaterra de repor. Churchill admitiria, anos depois, que só temeu perder a guerra para as matilhas de submarinos germânicos que vergastavam as rotas navais e causavam prejuízos quase insustentáveis ao país e, especialmente, ao esforço de guerra.



Este texto caiu-me dia desses de um livro que coloquei na estante. Era um manuscrito muito semelhante, só fiz breves correções e pequenas adições de conteúdo. Fora uma dissertação que eu escrevera no tempo em que sonhava em entrar para o Colégio Naval e seguir carreira na Marinha do Brasil. O que só prova que a pré-adolescência é a mãe de todas as péssimas ideias.

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