quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Clube da Luta é um filme bem menos bom do que você imagina

Eu nunca tinha assistido à Clube da Luta. Não por qualquer motivo outro que não fosse falta de tempo, de ocasião ou mesmo interesse. Mas remediei o lapso nesta madrugada e, enfim, vi o cultuado longa de David Fincher, lançado em 1999, estrondoso fracasso de bilheteria, mas um válido sucesso comercial na era do DVD em diante, quando acabou tornando-se um ítem cult para muita gente de minha geração.

De maneira alguma dá para dizer que Clube da Luta seja um filme ruim. Não é. Visualmente agressivo, é difícil encontrar uma composição fotográfica tão ácida ainda em filmes contemporâneos. Brad Pitt e Edward Norton constroem uma relação muito fluída em todo o filme e... é isso.

Não considero, como muitos, que Clube da Luta seja o filme de uma geração. Suas evocações filosóficas, tão cantadas em verso e prosa ao longo dos anos, são de conhecimento mineral. Pedregulhos com algum dissernimento a cada chutadela que levam pelas sarjetas são capazes de relacionar impulsos e niilismo em um mesmo axioma e presumir que grande parte do desastre a que se dá o nome de civilização está nas implicações do modo pela qual as sociedades se organizam.

Modo este que, no filme, se vê reduzido ao consumismo e o círculo de coisas ruins que o orbitam o modus operandi do ato de consumir, como a publicidade, o marketing, a economia, a falsidade da autoridade e a hipocrisia das ideias de posse, governo, de estabilishment. Não há, evidentemente, erro em criticar uma sociedade que se define a partir da data de lançamento do próximo iPhone ou de quais lojas abrirão pelas madrugadas prestando o inefável favor de conceder o mimo tecnológico, por módicos milhares de reais, aos madrugadores.

A questão não é a que se presta a crítica, a questão é o contorno e o discurso que, insisto, estavam bastante desgastados à época do filme. Críticas à sociedade do consumo conviveram em paralelo com o amadurecimento dessa sociedade de consumo a partir do momento que a primeiro pistão à vapor suspirou os estertores da Revolução Industrial. Neste sentido, Clube da Luta é um tremendo mais do mesmo que só encontra eco em mentes onde o repertório de indignação é muito vazio. Em cabeças assim, tem espaço vasto e fértil para se arraigar a ideia de símbolo que o filme acabou granjeando com o tempo.

Para tentar alcançar novidade, o filme exalta a ideia central do livro que lhe deu origem. Os tais clubes de luta que serviriam como válvula de escape e embriões para uma consciência libertária do mundo e do homem na sua relação com a sociedade. A ideia é saborosamente amadurecida no livro de Chuck Palahniuk, mas bem mal e porcamente tecida no filme. Em nenhum momento a relação entre causa e efeito do Clube da Luta dentro da realidade contra a qual o filme discursa fica evidente.

É sensível também a ausência na versão do cinema desta história da tensão sexual que existe entre o narrador sem nome e seu alter-ego. No livro, as duas personagens esgrimem em uma bem marcada dança de atração e fuga. O livro é exemplar (não por acaso Chuck Palahniuk jamais chegou perto de tamanho sucesso em um livro) e qualquer tentativa de transformá-lo em outra mídia teria, e terá sempre, dificuldades enormes.

Clube da Luta não é, portanto, nenhuma novidade em qualquer uma das suas matizes. Nem mesmo o arco final da história, que desfecha a narrativa num confronto final entre narrador e alter-ego revela qualquer ineditismo numa solução para lá de gasta na arte de contar histórias. A surpresa funciona, mas peca pela falta de ineditismo e soa como um tremendo e aborrecido "mais do mesmo".

Com isso tudo digo que Clube da Luta é um filme ruim? De maneira nenhuma. Mas é bem menos bom do que se presume que seja.

Ao meu gosto, se fosse para embandeirar um filme como relicário de minha geração, adotaria sem a menor sombra de dúvida outro título, da mesma época. O Grande Lebowski, dos irmãos Cohen. Não menciono V de Vingança, de 2005, que soa no mesmo diapasão de Clube da Luta por pura honestidade em torno do conceito de geração.

3 comentários:

Anônimo disse...

Não poderia concordar mais, mesmo que pareça babaquice.
Bibi.

Anônimo disse...

mesmo assim não escolheria nenhum para definir a geração...

Anônimo disse...

mesmo assim não escolheria nenhum para definir a geração...