Eu não tenho uma relação tão especial de testemunha da história com o 11 de setembro como algumas pessoas têm. Na verdade, não me diz muito respeito a data, e se, de fato, ela repaginou nossa história enquanto civilização, eis aí um fenômeno que só poderá ser atestado com o distanciamento histórico (tem acento nisso?). Embora somem já 8 anos não me sinto em distância suficiente para falar do 11 de setembro como história. Pra mim foi ontem.
Não se trata também de relativizar o evento, embarcando nas prolixas, imaginativas e divertidas teorias conspiratórias que atestam tudo como um engodo. Não se pode duvidar da capacidade daquela gente, os republicanos dos EUA, de baixarias. Mas é um pouco demais imaginar que foram eles o dedo que deflagrou a hecatombe, que deitaram as torres abaixo e ainda econtraram tempo para derrubar outra aeronave no Pentágono, o centro nevrálgico - sempre quis usar esse termo, demais! - da estratégia de defesa dos rednecks.
Provavelmente o 11 de setembro tem toda a importância que não vejo para quem viveu a coisa de maneira mais direta. Os norte-americanos têm todo o direito de proclamarem a data como marco histórico deles. Pra mim, na verdade, o 11 de setembro e todo aquele período marcou um momento estranho na minha vida. Eu tinha 16 pra 17 anos. E não sabia nada da vida.
Naquele ano, 2001, eu encerrava o ensino médio. Não digo que fazia o "terceirão". Era uma escola pública sem a menor preocupação de uma preparação decente ao vestibular e, portanto, era apenas o terceiro ano, cumprido por mim e meus bons colegas que não vejo há mais de 4 anos, com toda a fleuma, relapsidão e pachorra de alunos pouco obcecados que éramos. No fim do ano acabei prestando vestibular para Engenharia Elétrica na Federal do Paraná - não sei onde estava com a cabeça.
Eu era um porra-loca no ensino médio. Eu aprontava pra cacete. Acho que no fundo eu sabia que a vida não seria mais a mesma depois da inconsequência daqueles anos de adolescente desobrigado, depois do fim da escola. Minha responsabilidade era frequentar as aulas - ou se não as frequentasse, ao menos não reprovar por faltas, capacidade que levei às raias da perfeição anos mais tarde, na universidade - e somar pontos que me dessem o diploma de ensino médio. O resto, bem, era resto. E era divertido.
Em 2001 também eu comecei a trabalhar, impulsionado por meu pai, que era, indisputávelmente, o homem mais sábio de sua geração e provavelmente um dos mais sábios que um dia caminharam por essa terra de misérias. Na verdade não era propriamente um trabalho. Era um estágio administrativo/burocrático que realizava no setor de almoxerifado da Unicentro. Instituição estadual, abria espaço para estudantes do ensino médio realizarem estágio remunerado - muito mal remunerado, é bom que se diga - no período em que não estivessem em aula. Era esse meu caso.
Meu pai lecionava na Universidade. Íamos juntos, voltávamos juntos do expediente. Sempre tinha sido próximo a meu pai. A diferença é que aqueles meses do ano letivo de 2001 nos fizeram algo mais que pai e filho. Não nos fizeram colegas de trabalho. Aqueles meses nos tornaram amigos. Quando voltávamos tarde da noite, conversávamos pelo caminho. Dividíamos, já em casa, o café antes de dormir. Pois é, acostumados desde cedo, ambos, o café já não nos prejudicava o sono. Bebíamos café, assistíamos o Jornal da Globo e, quem sabe, o Jô. Tudo isso regado a comentários, ponderações, amizade, conversas. A pena, e sempre há uma em tudo, eis aí a mais verdadeira das minhas filosofias, é que não versávamos muito em confidências. Fosse esse o caso, talvez, meu pai pudesse ter me ajudado em outra questão marcante daqueles tempos. Paixão, por exemplo.
Eu tinha nessa época a semente daquilo que a gente, anos e anos mais tarde, entende ser o amadurecimento. Em que pese as badernas na escola pela manhã - rapaz, eu aprontei umas que não estão no gibi - havia à tarde e pela noite, que eram os períodos do meu expediente, tempo para ser responsável. Para pensar na vida com seriedade, para trabalhar pensando no amanhã, para encontrar o amor. Para se esconder dele com as mãos suando também.
O nome dela era Fernanda. Tínhamos muito em comum, Fernanda e eu. Ambos estagiários, mesma idade, filhos de professores da universidade. Eu conhecia a sua mãe, professora, de vista. Não sei de que curso, não saberia dizer o nome dela agora e nem há oito anos. Quanto a Fernanda, soube que era esse seu nome pelo crachá que ostentava, ítem de obrigação entre funcionários e estagiários.
Fernanda vinha sempre requisitar material de escritório para o setor onde estagiava comigo que, vale lembrar, ficava no almoxerifado. Vinha, pedia o que queria, mas sua voz tremia, ela ficava nervosa. Sorria, falava ora rápido demais, ora devagar demais. Fernanda, provavelmente, estava apaixonada por mim. O que era novidade. E eu acabei ficando por ela.
Eu a havia conhecido poucos meses antes, em 2000, quando fazia inglês no CCAA. Ela estava lá. Já tinha visto na rua uma vez. O problema é que um de nós, não lembro mais o qual, estava em um módulo mais avançado do curso, o que, portanto, excluía a possibilidade de uma providencial transferência de horários. Cheguei, já naquela época, mal tendo visto Fernanda, sem sequer saber qual era seu nome, a ponderar a possibilidade. Fernanda estava normalmente com uma calça preta de listras vermelhas, o que a classificava como aluna do outro grande colégio da cidade, o que também nos afastava.
Ali, naquele cubículo onde eu cumpria o expediente, nasceu uma paixão de adolescente. Nunca floresceu porque eu sempre fui tímido demais - e tendo 16 anos a gente não sabe como lidar com essas coisas. O mesmo vale para Fernanda, que vinha suar e derrubar coisas na minha presença. Não sei se me lamento, hoje, à luz de tantas outras coisas.
Eu nunca mais vi Fernanda. Em dado momento daquele ano tive que mudar meus horários. E isso cessou nossos encontros, que tornaram-se ainda mais raros. Isso tudo me volta à mente hoje porque, pensando no 11 de setembro, só sou capaz de lembrar das coisas que perdi naquela data.
Ninguém próximo morreu nos atentados. Mas, de certa forma, aquele período foi uma fase de perda de inocência, de descobertas amargas, de umas outras bastante felizes. Foi uma época em que eu me aproximei muito do bastante que já era próximo de meu pai. Eu não sabia, mas ele viria a morrer em pouco mais de um ano. Naquele tempo meu coração bateu acelerado, eu suei nas mãos, tremi a voz e não fiz nada.
Lembrei de Fernanda e nosso flerte casto e singelo quando conversava com uma amiga por MSN. Confessou-me que fora apaixonada por mim e eu ri, porque nunca imaginaria aquilo. Pensando depois, me ocorreu que ela foi cúpido em outro episódio. E até disse que não sabia de alguém que tivesse um dia se apaixonado por mim, que seria a primeira vez. Menti. Antes de todas, houve uma Fernanda.
Hoje, ao redigir esse post, ao pensar em tudo isso, revivi um pouco daquela época nas minhas lembranças. E senti um pouco de tristeza, ao lembrar que nunca mais vi as pessoas que então eu julgava importantes. É a vida. E ao lembrar de Fernanda gosto de pensar que ela suou as mãos e gaguejou por alguém nesses anos. E que, talvez, ainda lembre do seu 11 de setembro e de todo ano de 2001. E que lá no meio disso tudo, exista ainda algum espaço para um dos amantes mais canhestros de todos os tempos, de inconparável timidez e de topete arquitetônicamente desenhado em quilos de gel.
E, se querem saber, no dia 11 eu matei aula. Química. Cristo, como eu odeio química. Fui embora e cheguei no meio da manhã. Na TV, prédios queimando, gente morrendo, desespero. E o resto é história.

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