sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vida de clichê

Tudo que direi neste texto, provavelmente, será um clichê. E assim será interpretado. É o destino traçado desse texto ser lido assim. Mas nem por isso trata-se de algo verdadeiro. Clichês são coisas que um dia foram novas, verdadeiras. Acabaram desgastadas e artifícios da preguiça de pensar que ora ou outra manifestamos.

Dia desses eu fui ao mercado. Nada de novo. Na entrada havia uma mulher negra, sentada ao chão, de costas para a parede, perto da porta do mercado. A mulher carregava no colo uma criança de colo. Mais parecia um embrulhinho.

O que me chamou atenção à cena foi que quando eu contava uns dez passos da entrada e, portanto, do foco de atenção do parágrafo anterior, aproximou-se da mulher um sujeito que lhe deu maçãs. Pensei. "É pouco. Maça chega para aplacar a fome do momento, mas e a que vem depois?".

Não tinha no momento dinheiro miúdo comigo. Ao passar pela mulher, antes mesmo de ela ter chance de me pedir, disse que lhe daria algo ao sair. E fui às compras. Pouca coisa, bobagens e comida; nada de especial.

Na fila do caixa observei as pessoas que a ignoravam ao passar. E me dei conta do clichê dessa situação. Cidade grande, gente necessitada, gente sem coração, gente com coração, gente com pressa, com problemas. A vida, ela toda, é um grande e repetitivo clichê.

Na saída, com alguns trocados na mão, dei-os à mulher. E mesmo assim me senti mal. Eu me sinto mal ao dar esmola e ao não dar, tenho um problema não resolvido com algumas parábolas bíblicas e a da esmola é uma delas.. Eu tenho vergonha de que meus problemas sejam tão mesquinhos. Que ao fazer um frila eu arrume, provavelmente, mais dinheiro do que aquela mulher consegue em meses. Eu me sinto um canalha.

Um clichê canalha.

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