Foi então que eu percebi, e da pior forma, que eu era parte de um passado que ela queria esquecer. Que mais que isso, eu fui um episódio. E um episódio superado. Um capítulo lido num livro que voltou para a estante. Percebi que, enfim, eu tinha fim. Tudo que supostamente era pra sempre, tinha fim. Que nada do que havia sido dito, vivido e dividido importava mais. Pertencia a um passado, a um tempo que não volta. E que eu estava sobrando, que eu devia sair dali, porque estava deslocado. Tudo porque eu sempre faço a coisa errada. Aliás, independente do que eu faça, acaba sendo o errado.
Nunca tinha sentido a dor de perder algo que nunca tive realmente. O que aprendi no momento não foi muito bonito. A virulência das emoções que experimentei naquele instante não foram, de maneira alguma, agradáveis. Mas, no fim das contas, que bom que as vivi. Que bom que aprendi, ainda que da pior maneira, os limites dos sentimentos humanos.
Aprendi também que eu não posso mudar as coisas. Que eu não volto, o tempo não volta. O destino não se conserta a si mesmo. Não há compensação para a lágrima derramada. Só as lições e o aprendizado que a gente conquista das situações extremas. As felizes e as nem tanto.
Diante disso, o que digo, é que quero paz. Que eu não sou sobre-humano. Que tenho defeitos. Que eu não sou o coração impassível que aceita frio um jogo de cena que não é o meu. Eu não nasci pro mise-en-scène dessas relações descartáveis de hoje. E, acredite, pago caro por isso. Nas amizades, nas inamizades, até na família.
De resto, sigo aqui com minhas cismas. Coagulo minhas penas em versos ruins, mas bastante verdadeiros, que jamais cristalizarei noutro livro. Passou a vontade. Passou, sobretudo, a coragem, a fé de que tudo que é feito bem e pelo bem, compensa. De que há, em qualquer lugar no meio disso tudo, algo de bom a ser conquistado, buscado, atingido, ainda que o preço seja caro, seja medido em lágrimas, suspiros e uma saudade que não morre, de um sentimento que não se nega, que não se destroi. De um sentimento que não está vivo, nem morto. De um sentimento que não está. Um sentimento que simplesmente é. Como o ar é, a vida e a morte também. Um sentimento que não existe nele mesmo, mas em todas as coisas. Todas. Todas. Mil vezes todas.
E, como eu dizia, se tive que aprender a perder algo que nunca tive de verdade, que agora eu possa, enfim, aprender a conservar o pouco do nada que me restou. E isso só saberei fazer na paz do meu sossego, no anonimato do esquecimento, na calma certa do tempo que passa, e qual as vagas pacientes e silenciosas do oceano que tudo moldam, acaba por levar de mim toda a memória de tudo que tive e que precisei abrir mão. Espero que entendam isso da maneira que eu tive de entender: resignadamente, ainda que sob protestos, e em paz.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O dia em que cresci
às 00:23 Marcadores: O dia em que cresci

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