Dizem, e se não dizem, não seja por isso, ao menos eu sempre disse comigo mesmo, que a descoberta do amor, depois que se acabam as ilusões e se desdizem as juras, é perigosa, falsa e, via de regra, dá em besteira.
Mas eis que de repente estava eu escrevendo qualquer coisa, quando me assalta a lembrança de um nome: Piazzolla. Ao que consta, seria algo que um diretor sugeriu como referência a um músico para a criação de uma trilha sonora de um filme. Fiquei com o nome na cabeça porque o tom da sugestão tinha elegido os talentos do tal Piazzolla às mais excelsas alturas.
E fui pesquisar quem seria, enfim, o Piazzolla. E aí descobre-se: argentino, Astor Piazzolla radicou-se em Nova Iorque e por lá criou um híbrido de jazz e tango, que marcou a segunda metade do contamos como século XX. Pode ter marcado a ferro e brasa o lombo curtido dos músicos da nobre arte do jazz, mas digo que não fora o suficiente para que eu, antes desses nem sempre tão bem vividos 28 anos de sangue, de sonho e de América do Sul, viesse a dar por sua existência. Ao fundir tango com jazz, Piazzolla criou todo um novo ritmo, o tango nuevo. Que seria violentamente esculhambado por Adorno, se ainda vivesse, ele que odiava com todas as forças o jazz. Todas as forças e retóricas, mas que no fim das contas, errado estava ele, que jazz é música de melhor qualidade, o problema sempre tem sido encontrar o timbre no manancial inesgotável de tons e formas pelas quais o jazz se manifesta.
Eu, por exemplo, não vejo a menor graça em Miles Davis. Mas gosto bastante de Herbie Hancock, coisa que os entendidos execrariam como fariam os sommelies que admirassem, pasmos, o sujeito que, desavisado, engole o melhor dos borgonhas numa única e virulenta tragada.
Piazzolla, muito mais que Hancock, é meu número em se tratando de jazz. E de tango. Estimo muito que, do alto de todo esse castelo de cinismo no qual me embastilho, desafiando filosofias, paixões e realidades, tenha eu, bem depois de velho, me encontrado com o amor na forma de música.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Rádio: Astor Piazzolla - Invierno Porteño
às 19:16 Marcadores: Cultura, Rádio blogue

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