Eu lembro de, deitado sobre a barriga de meu pai, assistir pela primeira vez à "Império do Sol". Lembro da sala, da luz amarela da lâmpada, lembro que era um sábado à noite, que o filme estava sendo exibido pela Globo e que o televisor que tínhamos era bem antigo, um Telefunken, marca da Alemanha Oriental que não existe mais. Televisor que seria mais ou menos surrupiado por um eletricista de má índole, ou fora abandonado nas mãos dele por falta de dinheiro na hora de pagar o conserto. Nunca logrei decifrar esse mistério de família. A quebra desse aparelho, aliás, fez com que eu e meu pai fossemos para o Paraguai em 1994, comprar uma tv de outra marca obscura, desta vez Eltec, que não fulgurara sob o julgo da foice ou do martelo e, talvez bem por isso, não se sabe nada sobre seu destino. Devia ser apenas uma estripulia asiática que emulava aparelhos de concorrentes de mais nome e apenas colocava no produto um nome qualquer que, nesse caso, calhou de ser Eltec.
Não era sobre o meu histórico com aparelhos televisores que queria escrever. Era, na verdade, sobre "Império do Sol". Esse filme marcou minha vida, é seguramente um dos registros mais antigos de cinema que eu tenho comigo, devo tê-lo assistido aos 6 ou 7 anos de idade. E guardei comigo profundas impressões de diversas cenas do filme, muito embora tenha demorado alguns anos para que pudesse, enfiar, altaneiro, dizer a todos que sim, entendia direitinho toda a história do longa de Spielberg.
No resumo, "Império do Sol" conta a vida de um garoto britânico que reside na China. Filho de aristocráticos ingleses, está acostumado à boa vida, a tudo ter, aos brinquedos caros e aos mimos que, ainda em 1939, soaram para este jovem Tertuliano como impressionantes.
O menino é Jamie, vivido por Christian Bale. Naquela época, o ator que hoje é muito conhecido por dar vida a Batman, já mostrava a veia para o drama, para a carga psicológica. O garoto vivia encantado, vejam vocês, pelos pilotos e aeronaves japonesas, frutos de um império, o japonês, que já naquela altura acenava com as intenções belicosas de conquistar para si todo o Pacífico. O objetivo causaria, como causou, enormes insatisfações a outro império, o britânico, do qual Jamie e seus pais faziam parte. A vibração da criança pelos aeronautas japoneses durante o filme é um toque sútil de ironia, e muito bem calculado: crianças não se preocupam com geopolítica, ao guri aprazia torcer pelos aviões japoneses porque os admirava. Não lhe passava pela cabeça que eventuais vitórias dos nipônicos poderiam significar até mesmo sua morte.
Com o passar do tempo, os japoneses lançam-se sobre a China, num episódio conhecido como guerra da Manchúria. Ao invadir a cidade, Jamie e sua família precisam fugir às pressas do ataque japonês e do risco de acabarem prisioneiros em um campo de concentração. Por diversos desencontros, os pais de Jamie fogem, ele não.
E é nesse momento que o filme, de fato, começa. Jamie, mimado e acostumado à boa vida, vê se num cenário de guerra onde é alvo, abandonado e sem perspectiva, precisa encarar a vida e a luta pela sobrevivência de frente. Com coragem e criatividade.
O diapasão do filme passa a se centrar nesse desenvolvimento. De certa maneira, "Império do Sol" é uma boa fábula para a perda da inocência. Jamie acaba deixando de ser criança quando precisa se virar para comer restos, quando precisa convencer pessoas a não o abandonarem. Quando acaba num campo de concentração e desenvolve um talento especial para esgueirar-se pelas difíceis e comprimidas instituições que florescem como podem dentro de uma sociedade confinada entre grades, arames, armas e inimigos.
"Império do Sol" é um belo filme de Spielberg. Há muita gente que torça o nariz por conta de suas produções, mas é preciso reconhecer onde o diretor acertou. O filme todo constroi uma sensação de absurdo tão sútil, que fica difícil ignorar.
Algumas cenas de "Império do Sol" me acompanharam por mais de 15 anos, até que dia desses eu revisse o filme: Jamie rastejando na sarjeta por uma aposta. A respiração boca a boca em um cadáver. A fuga do campo. A relação de amizade proibida e muda com um cadete da força aérea imperial. O interesse nas aeronaves e a cena do ataque ao campo no arco final da narrativa. Tudo isso, mestre Spielberg, imprimiu em algum recesso da minha mente. Conheço uma meia-dúzia de diretores melhores que Steven, mas, confesso, nenhum desses soube imprimir um filme no meu coração de menino.

0 comentários:
Postar um comentário