Nas minhas primeiras experiências na Paulicéia Desvairada - de onde terá, aliás, vindo este termo? - lá em janeiro de 2008 basicamente tudo me chocava. Uma coisa em especial eram as pessoas a dormir apoiadas nas sacolejantes janelas do ônibus, cujos motores gritam gorgolejantes a 4, 5 mil giros, o que é muito pouco em termos de RPM e dada a capacidade de deslocamento das unidades, explica o nível elevado de ruído e a vibração que produzem.
E ainda assim as pessoas dormiam. Mais ou menos como a vida na Terra, que tinha tudo pra dar errado e que, a despeito das tentativas da Natureza, e do homem recentemente, prolifera-se qual praga por toda a crosta. Do mais humilde ao engravatado, do estudante ao aposentado, na manhã, ou tarde da noite, dormiam. Pensava no nível do cansaço necessário para tanto sono acumulado desaguar em lugar tão inusitado, tão contrário à paz de espírito necessária para, façamos uso de um chiste clichê, entregar a alma e o corpo aos cuidados de Morfeu. Pensava em tanto trabalho, tanto empenho e tantas horas gastas para trabalhar e tanto sono atrasado e me perguntava se um dia eu, todo desperto, comungaria do mesmo sono fora de hora, fora de lugar. O sono sem caso, que se agarra a qualquer minuto na escassez deles, em qualque lugar na cidade onde as pessoas vivem em trânsito, onde trabalham dentro do carro com o car-office.
Hoje voltava no ônibus. Menos de vinte minutos de viagem nas mal traçadas linhas paulistanas pelas mal planejadas ruas da cidade. Vinha cismando com bagatelas, recostei a cabeça no banco duro e desconfortável, nem de longe ergonômico para o sono, e me peguei tropeçando na lucidez, fazendo do simples ato de fechar os olhos, abrir as comportas que seguram as vagas inexoráveis do meu sono. Adormeci.
Questão de algumas esquinas e acordei. Solavanco. As ruas de São Paulo, evidentemente, não possuem um pavimento digno.
Preciso melhorar em muitas coisas na minha vida na metrópole. Preciso, por exemplo, xingar qualquer fila, achar que a buzina é uma maneira eficiente de orientar o trânsito e que nordestino vem pra cá roubar emprego. Além disso, preciso melhorar minhas capacidades de dormitador em trânsito, de dorminhoco de metrô.
Do contrário, vou precisar de sesta no trabalho.

1 comentários:
dormir no ônibus é uma arte meu caro. eu já me tornei magistrada, embalada pelos meus fones de ouvido, faço três trocas por dia ida e volta e as vezes chego até a sonhar.
:*
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