Era um daqueles dias normais, comuns, pessoas esparramavam suas misérias e suas esperanças pelas ruas da cidade, iam pra lá, vinham para cá. Nada de novo no front. Nada nessa tempestade prometia o ensejo de algum acontecimento extraordinário, o que sem dúvida daria muito que fazer, e procurar, aos jornalistas, às fofoqueiras e aos aposentados das praças, que desesperados trocariam olhares de pasmo e diriam uns aos outros, em incrível demonstração de desespero e desalento: O que há?
Nada. E esse era o problema. Tudo normal, incrivelmente normal. Contudo, seja para comprometer o fio que tomava esta história, seja para atrapalhar o autor, eis que no momento inesperado, ruge dos céus um som perturbador, como quinhentos motores v8 a gorgolejarem em plena rotação, detonando os tímpanos presentes a um raio de três quilômetros da praça, faltou dizer que é uma praça que nos serve de cenário, de onde observamos toda a cidade, ensurdecendo esses pobres miseráveis sem que ao menos soubessem como e porquê.
O motivo do ruído era um disco. Não mais voador, porque acaba de rebentar-se contra o chão, esparramando muitos escombros e muita fumaça oriunda da poeira que levantou, caiu, sem, no entanto, explodir, como seria mais plausível, aceitável até numa catástrofe de semelhante dimensão. Mas se há algo que se vê como falho e extremamente maleável na história dos sucessos inauditos dessa nossa humanidade é o lógico. A lógica esqueceu-se, decididamente, de participar dos momentos ímpares da história humana, e isso desde os tempos imemoriais, que precisamente por serem imemoriais, fazemos uso da literatura preguiçosa, e escusamo-nos cá de referi-los.
Fez-se silêncio. Silêncio desolador, agravado pela multidão de surdos, da qual poucos deram pelo objeto, não mais voador, entretanto ainda pertencente à classe dos não-identificados (embora tenhamos já, em parágrafo anterior, a audácia de identificá-lo: disco voador). Dizíamos que o silêncio era aterrador, os surdos erravam pelas ruas às apalpadelas, em pleno desespero, como se em lugar de perder o dom de ouvir, tivessem perdido a faculdade de ver.
Começou-se a juntar gentes à roda do aparelho, desconfiamos de livre vontade que seja um, que admiravam o acontecido. Os aposentados, que dadas certas particularidades do modo humano de definhar, já não eram contados entre os maiores e mais capazes ouvintes do gênero, agora que eram surdos de vez, trocavam olhares de felicidade – que era o que lhes restava, os olhos – olhares de júbilo, extremamente eloqüentes, como se a falta da audição houvesse feito desses olhinhos diapasões que reverberavam: viste? Embora, agora, não pudessem mais contar tudo o que verão, surdos que são. Sim, eles têm consigo a ciência de falar, visto que não são surdos de nascimento, mas queremos crer que os locutores de semelhante sucesso só teriam prazer em relatá-lo se tivessem consigo a capacidade de ouvir-se. Diante disso, o máximo que esses basbaques fazem é olharem-se. Nada mais.
Apareceram seitas. Apareceram pessoas que queriam implodir o disco, outras que o queriam como um monumento. Houve quem sugerisse desmontá-lo para estudo e evolução de nosso exército, que é, evidentemente, a prioridade de qualquer sociedade contemporânea. Passaram dias, semanas. Ninguém arredou pé, o disco também manteve-se imóvel. A chusma só fazia crescer. A administração pública, cônscia dos seus sacro-santos deveres de proteção do populacho, considerava criar por lá uma sub-sede da prefeitura, e cônscia de outros deveres, não tão sacros, estudava sob que alegação lograriam cobrar impostos dos acampados da praça, nome pelo qual ficou conhecida aquela sociedade. O juiz daquela vara instalou, em lugar de um antiguíssimo boteco, um tribunal para mediar os pequenos conflitos que jamais faltam num aglomerado de gentes das mais distintas e distantes orientações. Decidia os conflitos em meio às mesas, cadeiras, mesas de bilhar, balcões e engradados. Muitas anedotas se fizeram a respeito, dizendo que o juiz queria mesmo era encher a cara e não pagar.
O exército estava de prontidão. As tevês. Os hippies, os yuppies, os ermitãos que voltaram à casa, conhecedores de que, agora, meu caro, que há semelhante novidade na cidade, não há mais que se fazer no meio do nada, das cavernas e do campo, onde justamente alguns deles, há anos, esperavam pouso de disco voador. Vieram toda a sorte de formas e maneiras de se ver o mundo também, tomando ruas, casas, prédios. Houve enorme procura por janelas com vistas para o sinistro, o que tornou a especulação imobiliária algo de muito proveitoso e feliz naqueles dias no entorno daquela praça convertida em campo de pouso.
Embora a defesa civil desaconselhasse, as árvores do lugar passaram a abrigar grande população de curiosos arborícolas, dos quais já havia os mais engenhosos que, pregando aqui e ali fizeram um confortável poleiro. O ser humano, sempre solícito, dono de espírito extremamente inventivo, já começava a alugar os poleiros para os desafortunados a quem faltou espaço nas árvores, o que semeou muita discórdia, posto que os corretores de imóveis viram-se na infeliz contingência de terem uma concorrência ferrenha com um modelo de habitação mais prático, próximo e barato do foco de atenção. Sentiram-se ultrajados e, pelo que se soube, se não fosse a presença de forças repressoras e o grande número de pessoas aglomeradas no entorno da praça, teriam partido para as vias de fato e tomado para si o novo e promissor empreendimento imobiliário. Entendiam eles que os direitos de exploração sobre qualquer forma de locação de imóveis lhes era garantido pelo bom senso e por qualquer lei, que seguramente havia uma. Como se sabe, fazer justiça é sempre uma maneira de cometer uma injustiça em causa própria.
Entretanto, a longa vigília já fatigava, começavam uns a considerar levantar acampamento. E os militares, que haviam tomado para si as responsabilidades do local, ouviam os apelos para uma resolução mais prática, e sempre respondiam que: não é hora ainda, tenham calma. Sendo que o alto comando mandava para os diabos o desazo que teve essa merda de nave em cair justo no meio de uma cidade. Que caísse esta desgraça em um campo, o dos ermitões, por exemplo, seriam poucos pra silenciar e poderíamos fazer o que bem nos aprouvesse dessa joça. Os militares faziam ouvidos moucos à voz do povo, ainda que seja ela a voz de Deus. Aliás, talvez precisamente por ser ela de quem é, é que lhe eram indiferentes os fardados em verde oliva. Que não se olvide jamais que, de Deus ou não, a voz que botou o Cristo na cruz foi dele, do povo.
Os soldados se aborreciam visivelmente. Começava-se a temer que o populacho exaltado rompesse o cordão de isolamento, mandasse às favas as prevenções militares, bem como seus fuzis, e descobrisse, enfim, o que havia lá dentro daquele disco. Se é que nele havia algo.
Um conselho foi formado, democraticamente, claro está, com representantes de todas as comunidades envolvidas na observação para que decidissem o que se fazer. E decidiu-se.
Decidiu-se tentar comunicar-se com o disco. Poderia ter acontecido de morrerem na queda todos os tripulantes e, pior, poderia ter o disco esmagado alguns infelizes que estavam na praça. E, cabe que se reprove este povo, pois só foram dar pelo fato agora, dias e dias depois. Egoísta e falha é a alma humana. E que se louvem os misantropos, que nesse quesito, sempre estão um passo a frente, a saber: maldizer toda a vida e o que de humano há nela, o egoísmo, principalmente.
Embora a decisão fosse no sentido de se estabelecer contato com a nave, havia ainda que decidir qual seria a forma desse contato, o que deu muita, mas muita, dor de cabeça. Uns eram do parecer que se deviam dar uns canhoaços, afinal, o exército está aí para coisas desse tipo, atirar em naves alienígenas das quais ninguém conhece o poder de reação. A outros figurava imperiosa a necessidade de se tentar contato de maneiras mais cautelosas, só não eram capazes eles de dizerem quais. Um bêbado meteu-se na discussão, sim, porque não lembraram de representar a classe dos bêbados na conferência, e o sabe toda a gente, menos os digníssimos do conselho, que praça em centro de cidade é de propriedade deles, dos ébrios. Ao bêbado figurava que deviam era ir todos para casa, porque aquilo já lhe dava nos ovos, faltava-lhe onde amaldiçoar a vida nas noites frias, desalojado que estava da privacidade necessária para ocupação tão meritória. Aliás, ao dar com o meritíssimo, que obviamente era figura do conselho, lembrou-se que este lhe seqüestrara indefinidamente o boteco, e isso tornou-o, coitado, irascível.
Levaram o bêbado para recompor-se. Enquanto reencetavam as tergiversações, uma criança, que ninguém viu de onde veio, e cumpre que se faça justiça, ninguém viu pra onde foi, rompeu o cordão, o circo de discussões sem que dessem por ela, apropinqüou-se do malfadado disco, tomou na mão de um escombro, pedaço de calçada, provavelmente, fez mira, e tal como o moleque que despedaça uma vidraça, descarregou no disco.
Fez um enorme barulho. Barulho seco, de pedra grande batendo em lata, lata oca. Todos, tudo, aliás, silenciou, como na ensurdecedora aparição da nave. Até o bêbado que ainda discutia com alguém sobre a cor do céu, que lhe parecia vinho e não azul, calou. Correu como podia e abraçou-se a uma árvore, dizendo: ah, querida, enfim te reencontro. Com que, então, morro?
Da nave, lentamente, surgiu um pequeno ruído. Baixo, foi subindo o barulho lentamente. Quando ouviu-se o típico zunido dos filmes de ficção no momento em que a porta de um disco voador se abre. Entretanto, fosse coincidência, fosse para comprometer toda a arte cinematográfica, esse foi o primeiro disco voador que viu a humanidade, ou parte dela, em que ao abrir a porta não prometeu aos olhos de ninguém luz branca ofuscante.
Não. Havia por trás da abertura um breu. Breu pleno. Nessa abertura foi se assomando, lento e cambaleante, um pequeno ser. Seu andar titubeante e as apalpadelas, algo incerto como quem acorda, rendeu comentários do bêbado: rá, olha aí, ali também temos quem aprecie a vida. Riu-se tanto o bigorrilhas que errou da árvore que há pouco era a sua amada que tornava do mundo dos mortos, e num misto de choro e riso, antes de cair aniquilado pelo porre, ainda pôde dizer: marcianos ou não, esses são já dos meus...
A liliputiana criatura chegou enfim à porta. Era baixo, não diga, tinha duas pernas e braços. Não chegou até nós traços mais definitivos e esmiuçados de sua figura, e do muito que se disse até hoje, só se pôde verificar como constante a alusão à presença de duas pernas, tronco, cabeça e braços, e é quanto nos basta. Olhou e, já acostumado com a claridade, viu homens, mulheres, a criança que lhe havia incomodado o sono, os militares, os hippies, os góticos, os pobres, os ricos, as árvores, o bêbado, o general apavorado, os canhões voltados a si, assim como as câmeras e, instintivamente, não logrou descobrir de que deveria ter mais medo. Só pôde dizer:
- Opa.
3 comentários:
Toamra que seja amigo.Não sei porque mas sempre mostram o alienígena como violento e destruidor, como se fosse o alter ego dos terráqueos.
Olha o nosso trabalhinho da escola aí! E Abujamra é mais um dos bons compositores (título concedido por mim) que está no anonimato porque o mundo pertence aos incompetentes e/ou endinheirados.
Dos 3 esse é o q mais gostei. Bem interessante, a leitura prende, toques de humor, cenário bem construído, dá pra imaginar...Parabéns.
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