domingo, 2 de setembro de 2007

Pan e Globobagens

O Pan do Rio passou e deixou seu rastro de obras super-faturadas, investimentos mal explicados (o orçamento estourou em 600% o previsto em 2002, quando o Rio foi escolhido como sede do evento) e um vazio inexplicável pela falta de vontade da grande mídia em explicá-lo. Porque fazê-lo seria admitir a própria tacanhice e falta de escrúpulos e honestidade para com o público. O Pan expôs ransos de falta de civilidade no povo brasileiro pelas suas medievais demonstrações de "torcer" ao vaiar com falta de educação e respeito delegações estrangeiras e criar uma idiota, inócua e ridícula rivalidade com Cuba e Canadá - como se tivéssemos nós algo de melhor que o evoluído, culto e tranqüilo Canadá.

E agora, mais de um mês após um evento de baixíssimo nível técnico que te venderam como Olimpíada, vamos ao balanço real das coisas feito pelo sempre excelente Juca Kfouri:


"Brasil potência

O basquete masculino brasileiro foi tricampeão pan-americano no Rio de Janeiro, em julho.

Houve, e não foram poucos, os que se esgoelaram com a medalha de ouro.

O atletismo brasileiro ganhou nove medalhas de ouro, cinco de prata e nove de bronze no Pan-2007.

Uma façanha, um feito admirável, olhe do que somos capazes, tantos se orgulharam.

O basquete masculino brasileiro não conseguiu vaga para Pequim no Pré-Olímpico das Américas, em Las Vegas, no primeiro dia de setembro.

E no Mundial de atletismo, no Japão, que acaba de acabar, o esporte nacional conseguiu apenas uma medalha, de prata, com Jadel Gregório.

Mas, não se esqueça: o Brasil é uma potência esportiva."


Mas não há porque desconfiar. A Globo diz que são nossos atletas. Nosso esporte. É Brasil-sil-sil, macacada! Ou ame-o ou deixe-o!!!

Um país que sequer consegue alimentar seu povo não pode arvorar-se de ser potência olímpica - salvo exceções como Cuba e algumas ex-repúblicas soviéticas herdeiras de política de incentivo de esportes e cultura suficientes para conseguir estes ou aqueles sucessos esportivos. O que não é nosso caso. Super-faturamos e construímos elefantes brancos modernosos sem o menor planejamento de manejo pós-evento, mas não discutimos um pouquinho que seja políticas de incentivo aos esportes.

Sobretudo no caso dos idiotas da seleção de basquete me dói o seguinte: no dia da final pan-americana, ao vencer a poderosíssima, a estonteante seleção de Porto Rico, ao final, às lágrimas vinham aos borbotões dar suas declarações para a Globo, a Globo que patrocina toda essa palhaçada sem transmitir uma partida de basquete o ano todo - incluindo o pré-olímpico em que a atual campeã panamericana de basquete, a seleção brasileira, fracassou espetacularmente. A Globo embalada pelo nefasto "Brasil-sil-sil", o ufanismo desmedido e idiota de Galvão Bueno, a truculência do Oscar falando em falta de apoio ao esporte, ao basquete, à desorganização, ao diabo à quatro.

Além de tudo muito bobos os jogadores de basquete. A Globo os vende, não os patrocina, está literalmente cagando e andando para o esporte. Sequer transmite uma partida por ano, e os trouxas, ao vencerem, fazem questão de demonstrar sua alienação e dizer "tô na Globo". O interesse da emissora no basquete somente surgirá se aparecer uma geração tão espetacular como a do vôlei masculino, o que parece não ser o caso por mais uns 4 anos, nas mais otimistas previsões. Enquanto isso ela ocupa a programação matinal do domingo com desafios internacionais, jogos mundiais de verão que sequer existem, são competições amistosas, de modalidades infantis e boçais apenas para vender a idéia de que "apoiamos o esporte".

Talvez a lavagem cerebral tenha tido um efeito especial em você. Neste caso, vamos aos números estatísticos:


Em suma, o Brasil é um estrondoso fracasso olímpico. Vai muito bem no Pan porque, a rigor, seus maiores adversários são Cuba, Canadá e delegações semi-profissionais dos Estados Unidos - o Comitê Olímpico deles só manda atletas profissionais em caso de haver disputa por vaga nas Olimpíadas, do contrário são enviados atletas de ligas estudantis. Em Olimpíadas o Brasil ganha medalhas de ouro em esportes pouco difundidos e que são praticados por meia dúzia de abonados como o iatismo e o hipismo.

Em lugar desse patriotismo imbecil e canalha que nos socaram goela abaixo, porque não se ocuparam de cobrar políticas públicas pelo esporte como ferramenta de equilíbrio social? Porque não começar a questionar a caixa preta do esporte brasileiro do COB à CBF?

É mais interessante enganar o público. Eu sinceramente acho que pega-se uma espécie de gosto mórbido pela coisa. Talvez Freud explique porquê. Depois que se conquista o poder de enganar a população e exercita-se essa capacidade a exaustão, suponho que fica difícil de abandonar o vício. Numa só tacada você ilude a população, "testa hipóteses" jogando na conta do governo 200 mortes da Tam e de lambuja ganha as lágrimas burras e comoventes dos jogadores da nossa incrível seleção de basquete. O poder é poda, diria o poeta.


Está virando um bordão, mas:

Estamos cercados de débeis mentais.


* Legenda que não coube na foto: trata-se de um jogador da seleção uruguaia de handebol durante o Pan. Nicolas Orlando com 1,68 de altura pesando 109 quilos é considerado obeso. E isso ilustra bem o nível técnico bizarro dos Jogos do Rio. Lembro que conheci o adorável gordinho em uma matéria do Globo Esporte que enfocava o lado inusitado de um "atleta" em um evento "sério" ser obeso.

Foto: Flavio Florido/UOL

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu não acho nada importante ter trocentos campeões olímpicos.O ideal seria que a prática de esportes fosse uma cultura .Nem precisaria de interferência do estado mas apenas fcilitador, com praças de esportes. Há muito estas olimpíadas deixaram de contemplar o esporte como um todo e virou batedor de recordes com exigência fora dos padrões de resultados cujo retorno é o caixa das empresas que bancam.Eu acho o povo brasileiro ótimo na medida que não topa entrar nessa.Juca Kfuri tem que dizer isso porque é o ganha pão dele mas , pelo que eu sei, não joga nem purrinha.Meu filho é um grande nadador desde os 8 meses mas nunca topou entrar nessa mesmo com o meu insentivo.Não aceitou nadar 6 horas por dia nas piscinas e competir com gente obsecada por baixar tempo e optou ser nadador do mar nadando grandes distâncias.Às vezes ganha medalhas, às vezes não.Eu aprendi muito com ele neste ponto.

Anônimo disse...

Cara, muito bom esse post, tô rindo aqui da tragicomédia =D