segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Reinventando Bourne

O gênero policial na cultura ou, vá lá, no mundo do entretenimento, surgiu na literatura romântica inglesa por meio de autores como Edgar Alan Poe, reforçada pelo Sherlock Holmes de Doyle e conquistou de imediato o público: o componente do mistério e da intriga dando as linhas do suspense página após página. No cinema filmagens de obras clássicas deram novo status ao gênero nas telonas e com o surgimento dos conceitos de quarta e quintas colunas, especialmente em função das duas guerras mundiais do século XX, surgiu um novo filão compartilhado entre literatura e cinema: as novelas de espionagem.

Ao longo do século passado não foram poucos os autores que granjearam notoriedade por criarem espiões que conquistaram mentes e corações, além de, evidentemente, cifras respeitáveis. Ian Fleming, britânico fleumático que servira no MI-5 (Military Intelligence 5, serviço de inteligência responsável por trabalhar dentro do Reino Unido) durante a Segunda Guerra Mundial e que em princípios dos anos 50 criaria o famoso James Bond, é um exemplo típico. Usando de ambições e aspirações que todo homem ocidental tem, mulher, carros, armas e glamour, o personagem emplacou facilmente. A Fleming seguiram Frederick Forsyth (do clássico "O Dia do Chacal, filmado na década de 60), outro britânico que assina livros do gênero como “Ícone” e “O Quarto Protocolo”, donos de abordagens socio-políticas riquíssimas e contextos históricos bem trabalhados por quem foi parte deles. Além dos dois britânicos, há que se mencionar os norte-americanos Tom Clancy (“A Caçada ao Outubro Vermelho”, filmado com a participação de Sean Connery, o primeiro James Bond) e Robert Ludlum, autor consagrado da trilogia sobre o espião desmemoriado Jason Bourne. Embora ambos tenham muito ranço anti-qualquercoisa que ameace a “liberdade” que o Tio Sam impõe ao mundo, não deixam de ser obras interessantes e empolgantes do estilo.

Embora o gênero tenha sua cartela fiel de fãs, há muito que carecia de uma reinvenção. O padrão pirotécnico e exagerado de James Bond não contemplava a ânsia de realismo que deve permear produções mais contemporâneas – ninguém mais acredita no carro invisível ou no Bond capaz de suster seus batimentos cardíacos para fingir a morte - insistindo nisso, em exageros como esse, o personagem e a franquia tornar-se-iam paródias caricaturais de si mesmos. Tanto é verdade que as últimas produções de Bond foram classificadas como “ação”, e não “espionagem”. O que mudou no excelente “Cassino Royale”, filme mais recente da franquia.

O que corrigiu os rumos do espião mais conhecido, Bond, e do gênero em si enquanto produção cinematográfica foi, sem dúvida, o advento de “A Identidade Bourne” (Bourne's Identity – 2001), filme que inicia uma trilogia escrita por Robert Ludlum, contando a história de um agente da CIA extremamente treinado e especializado que é enviado para assassinar um “rebelde” africano aos olhos da CIA. Por algum motivo o agente Jason Bourne, vivido por Matt Damon, perde a memória. Como “sabe” muito vira um alvo da agência para queima de arquivo.

A história de Bourne é a um tempo fuga e busca. Fuga dos seus verdugos e busca pela sua história, pela sua memória. Bourne reinventa o gênero a partir do momento que vive aventuras fiéis ao possível, sem as mirabolantes e incríveis cenas escapistas de James Bond’s mais antigos. Jason usa o Google para durante o filme para pegar informações, ainda que merchan, é um merchan bem feito e que aproxima o personagem de você. Bourne vive a espionagem de clássicos do cinema como o excelente “O Espião que veio do Frio” (livro de John Le Carré, autor de "O Jardineiro Fiel", filmado sob a direção de Fernando Meirelles recentemente). As cenas são muito bem dirigidas e pensadas, Bourne interage com os ambientes, desde a embaixada do primeiro filme a estação de Waterloo em Londres, na última película.

A busca do espião pelo passado e verdades o leva a denunciar um esquema de assassinatos promovido pela CIA. Além de conseguir de volta seu passado, Bourne é o estopim de um escândalo que leva à prisão seus perseguidores durante toda a história – o que é uma lição à certa noção de onisciência e razão que serviços de inteligência ganharam pelas páginas e telas anos à fora. E tudo aqui é bem dirigido por uma edição primorosa de imagens, onde o diretor Paul Greengrass, acostumado a cenas frenéticas com câmeras de mão, usa o expediente à exaustão: as perseguições e fugas de Bourne ganham ainda mais vida, embora com cenas meio confusas às vezes, aos olhos do espectador.

Jason Bourne e sua história, contudo, souberam buscar o que houve de bom no James Bond ancestral, além do enredo: as locações. Ao assistir a trilogia, praticamente um longo filme de seis horas, vamos de Paris a Moscou. Berlim, Turim, Londres, Langley (Virgínia, EUA. Onde está a sede da CIA), Tângier (Marrocos), Nova Iorque, Madri. Enfim, as viagens e as locações escolhidas a dedo trazem contraste ao filme e um brilho especial ao dinamismo das fugas e cenas vertiginosas da produção.

Contudo, nem tudo são flores, diria o poeta. Identidade Bourne, Supremacia Bourne e Ultimato Bourne foram três livros escritos por Robert Ludlum, falecido em 2001, que viraram os filmes homônimos. Com o estrondoso sucesso de crítica e bilheteria da série, os proprietários da franquia já arregaçam as mangas: querem fazer deste JB, outro James Bond. A idéia é iniciar uma franquia sem vistas de um fim, como é a de 007 que já conta 21 filmes desde 1962. Já está nas bancas, em inglês, duas novas aventuras de Bourne (“The Bourne Legacy” e “The Bourne Betrayal”), escritas por outro sujeito, Eric Van Lustbader, com tenções claras das telas de cinema em breve.

Se mantiver o ritmo e a qualidade, os fãs agradecerão. Mas se a busca for estritamente comercial, virá aí mais um Duro de Matar e de agüentar que não acrescentará nada. De qualquer forma, Matt Damon diz estar fora do personagem porque “cansou dessa coisa do Bourne”. Normal. Qualquer um cansaria.

Os fãs do gênero não cansam. Mas não são facilmente manobráveis, se fossem, James Bond, o JB mais emblemático (os JB's: James Bond, Jason Bourne e Jack Bauer) não teria, se
me permitem o escroto neologismo, “bournizado” e voltado às origens.

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