quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Debaixo do sol...

... não há nada novo. Frase antiga. Verdade invencível que consta, faço uso de meus surrados conhecimentos da organização do Novo Testamento, no livro de Ecesiastes. Não, sequer desconfio o capítulo.

Em agosto passado alguns aproveitadores, outros desocupados, somados ao crescente clima de descontentamento que assaltou Alphaville, Leblon e congêneres, abrindo o perigoso precedente da "Revolução Menchevique do Morumbi", lançou ao vento um movimento "apolítico", disseram, chamado de "Cansei". O "Cansei" foi uma das maiores piadas para nós outros. Para seus criadores uma das maiores vergonhas, mas isto é lá com estes senhores engravatados, tão cientes dos problemas nacionais que vêm a público nos dizer que cansaram. Não estão nem aí para o tamanho da bobagem ou para a bazófia.


Na verdade acredito que subestimamos a importância do "Cansei", que de tamanho fastio, tirou merecidas férias na Europa onde foi descansar suas amolações com a "preocupante situação de crise que se instaura no país". Digo que subestimamos os mencheviques do Morumbi porque, meus caros oito leitores, muito mais que movimento social e "apolítico", foi ou é, o "Cansei" um movimento filosófico. Uma vanguarda filosófica, não há dúvida quanto a isto, que vem buscando responder uma até então irrespondível questão do saber, o que é o nada?. O "Cansei", imbuído nesta busca sumiu. Saiu em busca do nada e jamais foi visto.

Passaram umas semanas e neste inusitado país chamado Brasil surge um "indignado" apresentador Global que, coitado, foi expropriado de seu para lá de cobiçável Roléx (que segundo busquei saber compra-se a módicos R$ 48 mil) e, ciente do direito de se indignar e, por que não, cansar-se em público, escreveu uma impressionista carta que intitulou com o poético, embora rasteiro e torpe título de "Pensamentos quase póstumos", onde expressou toda a sua indignação e a sensação de ter sido praticamente assassinado ao sofrer o assalto que para si, ao que parece foi uma novidade. "Luciano Huck foi assassinado. Manchete no 'Jornal Nacional'", começa a epístola.

Embora tenha já dado voltas à questão e torcido que chegue meus fosfatos e sinapses para desvendar porque diabos o relógio do Huck, tão roubado como o vizinho ali na esquina, tenha ganho destaque na Folha - que embora seja um jornaleco, é uma das nossas maiores tiragens, infelizmente - chego a conclusão de que a filosofia em cima desta questão vem a ser desnecessária. Que bom que publicaram a carta do Huck. Que excelente saber que, para Huck, um exausto defensor e panfletário homem público contra a desigualdade social, o certo é chamar a "Tropa de Elite" e seus truculentos métodos.

Huck diz pagar seus impostos religiosamente e não temos porque duvidar - não pagasse, já teria rodado na malha fina que, estranho, tem funcionado bem ultimamente, o que é um dos maiores itens que cansou a turma da OAB-SP em agosto, Daslu e aquela patota toda. O que Huck não diz na sua carta é que tem contrato com a Globo fora das CLT's justamente para não pagar tantas contribuições e, assim, faturar limpo. E nem isso se deve recriminar, não é crime.

Depois de ter perdido seu relógio Huck acha que "chegou a hora de discutirmos de verdade a questão da segurança". Sim, evidente que a hora é agora. Não era hora quando houve chacina na Candelária. Quando o PCC estourou por inépcia governamental ano passado. Quando o Carandiru e Bangu explodiam anos, séculos, de falta de dignidade e decência na administração do futuro desse inusitado Brasil. A hora de discutir segurança pública é agora porque um diretor diz crer que a mídia "só diz a verdade sobre as favelas", fez um filme fascistóide que vende às pessoas a visão pequena, fascista e ignorante de "bandido bom é bandido morto", de que a solução é a multiplicação de "Tropas de Elite" onde estiver instalado o conflito.

Huck compara São Paulo a Bogotá - o que só comprova que a questão da educação é ainda um problema perto do interminável. Ao menos aos olhos deste que escreve este enorme texto que ninguém lerá. Para Huck devemos encontrar a solução, tiro e queda, nas duas seguintes vertentes: ou o capitão Nascimento (personagem central de "Tropa de Elite"), ou no investimento em escolas. O risco era de que o "Cansei" abraçasse mais esta nobre canseira e defendesse, em função de ser rematadamente sabido que os frutos da educação são colhidos apenas no longo prazo, a solução de criarmos um estado de exceção e "Tropas de Elite" para resolver a questão da segurança porque, segundo o narigudo apresentador, "a hora é agora".

Estamos cercados de débeis-mentais.

Complemento:

Um dia após a bombastíca e histórica correspondência de Huck:
Corregedoria investiga policial que diz saber de Rolex de Luciano Huck

Aqui você conhece a "amadurecida" visão de Padilha, diretor de "Tropa de Elite" sobre a pirataria:
Nas ruas, gato por lebre

1 comentários:

Anônimo disse...

Embora não pareça nem tampouco apareça, ha quem leia suas mui bem traçadas linhas, e concorde com seu pensamento, no que difere dos rasantes rapineiros!
Eis que de repente, no meio de tanta obviedade inconclusiva e desprovida de fundamento racional, surge algo a que se pode chamar crítica!
Parabens!