Houve um começo de fevereiro em que me sentei com a dura missão de escrever, custasse o que custasse, o que eu sentia, como me sentia e o que se passava comigo, amortecido de amor e saudade, de carinho, de felicidade, de esperança, mas assombrado de medos, de pessimismo, de um juízo que gritava: cara, para com isso, vai lamber essas feridas, se recolhe, porque o tempo virou, vem chuva aí, daquelas de lavar a alma e cortar a pele, e a tua pele anda tênue, anda fina, não vai se escapelar nessa água feito lâmina. Porque vem tormenta por aí. Se protege porque ninguém vai proteger você.
Saiu dessa missão um texto, um longo texto, do qual só conservei fragmentos num exercício que, hoje, me parecia treino para essa missão de selecionar as lembranças que eu quero, e gosto de ter, enquanto deleto o que machuca, o que não deu certo, o que doeu.
Nesse texto, longo texto, refleti com calma a cada palavra e me propus a escrever dando resposta à pergunta primeira: por que, por que eu me sinto dessa forma, e nessa intensidade, e desse jeito a respeito de alguém que não me quer por perto? O resultado foi uma coleção de confissões, de epifanias, de palavras e mais palavras, de 43 páginas, de um extrato completo, sincero e sem restrição alguma do que sou, sinto, penso, preciso, quero e do que pretendo. A minha verdade, sem tirar, nem por.
Mas a passagem mais importante foi mesmo a resposta para a pergunta que abriu essa comporta, resposta que veio calma, a princípio, parecia uma meada, um novelo que eu ia desfiando no escuro, enquanto, às apalpadelas, seguia o rumo quieto de uma floresta fria e silenciosa. Puxando essa meada eu percebi que eu não estava, necessariamente e somente, amando a alguém. Eu estava em processo de paixão: aquele arrebatamento ensandecidos que nos consome a alma, que nos balança o juízo, que nos arrasta num vórtice de loucura, de doce loucura. Eu estava completamente apaixonado por uma pessoa a quem eu já amava. O fio tênue de raciocínio, de memória e sentimentos logo se converteu em algo que parecia mais com um corrimão e, da floresta escura e silenciosa, eu saí numa clareira ensolarada de onde, ao longe, eu divisava o meu futuro.
A conclusão da paixão que brota a despeito de já haver amor pode parecer trivial e, a quem nunca encarou esse diâmetro de sentimentos, até inocente, sequer reveladora. Mas não é nada disso. A percepção de que eu me apaixonara novamente pela mulher que amava, já naquela altura de forma decidida e firme, me colocou em parafuso porque me apresentou a uma série de verdades duras acerca da minha vida, das minhas circunstâncias, do tempo.
Mas, acima de tudo, me encheu de força, de alegria e eu me peguei chorando, vertendo lágrimas que não eram de dor, de tristeza, que não eram de felicidade: eram de emoção, era como se a percepção clara de que eu me apaixonara por aquela criatura viesse a tocar em algum recesso da anatomia humana, profundamente ignorado e intimamente ligado com o que quer que temos dentro de nós e que conduz as nossas emoções. Eu vertia lágrimas como se fossem o suor, o suor do meu coração calejado que, à luz dessa revelação, da esmagadora importância dessa epifania, enxergava-se, enfim, na sua totalidade. Naquele momento, meu coração conheceu a si mesmo.
Essa foi a maior, a mais doce, a mais dolorida, a mais esmagadora vitória de toda a minha vida: eu enxerguei, pela primeira vez, o que é amar abnegadamente uma pessoa e me senti livre, me senti feliz, me senti pleno porque eu não só me reconhecia capaz de sentir algo desse tamanho, como era capaz de isolar o fragmento de tempo, como se tempo fosse uma substância que pegamos e guardamos no bolso, o fragmento exato de tempo em que eu, sentado à mesa simples, houvera me apaixonado pela mulher que eu mais amei na vida.
Há uma força transformadora no amor, há uma liberdade incrível na capacidade de sentir, identificar, catalogar e viver seus sentimentos com clareza, com firmeza e sinceridade.
Se uma divindade, se uma força qualquer do cosmos, me desse um poder absoluto para que eu fizesse alguma alteração qualquer no mundo, eu garantiria que à todas as criaturas que vivem, amam, se decepcionam e tentam de novo nesse universo tivessem garantidas na sua existência passar por essa revelação ao menos uma vez. Tenho certeza de que o universo seria um lugar muito mais justo e a vida muito mais doce, as pessoas muito mais compreensivas e gentis, caso esse tipo de amor e paixão brotasse em todos nós.
Nem que fosse apenas uma vez na vida. Nem que fosse para uma miragem.

0 comentários:
Postar um comentário