Como pode a certeza de que nada leva a nada ser inspiradora? É tudo uma questão de perspectiva. À distância, estamos degradando a Terra além de ponto de não retorno, o sol está explodindo e, na ponta disso tudo, o universo se resfria em derrota impotente perante a inflexibilidade da entropia. Nessa ordem de magnitude, todas as coisas levam a nada e não há esperança.
Mas na perspectiva da vida de cada um de nós, do dia-a-dia, dos seus sonhos, dos seus amores, das coisas que, somadas, definem quem você é, o que quer, o que precisa, a ordem de magnitude é outra, porque a escala muda e, de repente, amar incondicionalmente, se esforçar para aprender um conceito matemático, terminar de ler um livro, escrever um outro, chorar por amor, sentir saudade, ser otimista pelo futuro ganham significado porque essas coisas todas não se conformam com a escala das enormidades absolutas do universo. Mesmo que, invariavelmente, nada leve a nada, porque você um dia vai errar e, para uma porção de coisas na vida a simples tentativa É o fracasso (se você precisar tentar ser mais amoroso, significa que não é de começo, então tentar é uma forma de falhar), há um propósito redentor nessa liberdade que nasce do momento em que você se pacifica com a noção da nulidade das coisas todas e com o paradoxo da importância do que o define, do que o motiva, do que lhe instiga.
Ou, em resumo, reconhecer que nada leva a nada não leva a nada. Porque essas coisas todas são fatos. E, confiem em mim, não dá para brigar contra os fatos. O que você pode fazer é trabalhar a forma pela qual você reage a eles.
Na pequena escala das nossas vidas insignificantes perante a imensidão de espaço e tempo, todas as coisas importam. O amor, a saudade, o carinho, o afeto, a raridade desses sentimentos, os seus sonhos, os seus desejos, as suas memórias mais doces, os seus melhores momentos. Como não reconhecer que essas coisas, que essas pequenas e insignificantes coisas, não são melhores que o absoluto frio de um universo que morre?
E quando você se encontra com essa convicção na vida, você abre a página do herói absurdo do Camus e tudo se encaixa numa busca serena pela felicidade, pelas suas circunstâncias e contextos na vida. De repente, todos os momentos são os mais importantes da sua vida, todas as coisas que você deseja e busca têm igual valia e tudo, tudo se torna o significado da vida.

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