domingo, 18 de junho de 2017

O novo estóico

O uso da filosofia como ferramenta para interpretação do mundo, de correção de rumo, como alavanca para mover as vontades da vida não se restringe apenas ao existencialismo. Nas minhas leituras, descobri que a terapia cognitivo-comportamental usa como bases uma porção de noções da filosofia clássica, dos gregos. E é essa forma de terapia que vem pavimentando os meus novos caminhos, dando chão às minhas caminhadas, firmeza aos meus passos, de sorte que esse meu juízo naturalmente curioso não descansaria até desencavar origens e fundamentos básicos.

Tenho investido inordinárias quantidades de tempo na leitura e ponderação a respeito de ensinamentos e percepções de mundo de um certo filósofo chamado de Epíteto, que fazia parte dos estoicos – aqueles que, por mais desgraçada que viessem a ser suas existências, sorriam e viviam em paz. Por leituras tortas, eu tinha uma impressão descalibrada do cidadão, considerando que seus ensinamentos não iam muito além da graça, fingida ou não, diante das desgraças. E isso nunca me pareceu suficiente para encarar as durezas da vida.

No resumo, eu pensava o seguinte a respeito do grego: Epíteto, ou Epicteto, foi um filósofo notável por dizer ao pão, luxo, dos legumes prodigalidade e da água embriaguez; era aquele que, quando desancado pelo amo, faltou dizer que fora escravo, numa surra de criar bicho, dizia, resmungando, é verdade, mas sem se zangar: "aposto que vós me quebraste a perna", e ganhava a aposta.

Mas, na verdade, Epíteto vai muito mais longe do que passividade diante das misérias. A acuidade das percepções do filósofo estão na capacidade de isolar fatos de percepções. Para Epíteto, há uma grande quantidade de coisas na vida que não podemos controlar, então não faz o menor sentido se abater e se torturar por elas. Para Epíteto, o que devemos fazer é focar no que podemos controlar: a maneira como reagimos, como encaramos, como aceitamos o que a vida apresenta. E é no trabalho sobre como encaro essas situações, sejam elas de alegria e triunfo, sejam elas de derrota e tristeza, que eu venho me reencontrando nesses últimos meses. Eu sorrio mais, vivo mais leve e em paz.

A filosofia de Epíteto não funciona apenas como base intelectual para a terapia, mas como prática. Seus discípulos costumavam repetir à exaustão máximas para torná-las verdades íntimas profundas e esse mesmo mecanismo, embora com adaptações, se repete na terapia cognitiva.

Filosofia pode mudar a sua vida, terapia é algo que todo mundo devia fazer, e a conclusão de última hora da minha reengenharia é que eu transformei meu coração, minha alma, num tipo de usina que processa tudo, que transforma o ruim em bom, que potencializa o bom em coisas novas, excitantes e maravilhosas. Eu sou um reatorzinho de razão, um adocicado engenho que faz da vida algo bom, leve e doce.

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