sexta-feira, 9 de junho de 2017

Herói

Eu venho gastando muito tempo ultimamente lendo, refletindo e meditando sobre as minhas circunstâncias, sobre felicidade, vida, sonhos, amor e todas essas grandes questões que orientam as buscas de todos nós.

E pensando nelas, sobretudo no fato de que o amor é a coisa mais importante das nossas vidas, me sinto numa agridoce quadra da vida. Eu me encontrei com o amor, escolhi mesmo a pessoa para a minha vida, me preparei para a entrega, o compromisso, nos convoquei para essa grande aventura e, mesmo assim, nada. O convite não encontrou a destinatária, a iniciativa pode ter sido tardia, o ruído de comunicação virou vácuo, a distância me deixou iludido, porque amo convicto, a distância converteu o amor dela em frieza, a hipocrisia omitiu culpas e transferiu responsabilidades de sorte que, amar, muito, abrir o coração, doar-se, entregar-se e abrir a porta para o futuro com a pessoa amada, no fim das contas, nesse caso, não deu em nada. Perdi-me da criatura que eu mais amei na vida, daquela pessoa que amei no tempo futuro, daquela que me apaixonava constantemente no tempo presente.

E eu nunca imaginei que viveria essa situação, de absurdo, que é de amor e impossível. Hoje, eu colho os cacos do meu coração tantas vezes estilhaçado, sobretudo nesses últimos meses, tento entender o que deu errado, o que faltou, o que, enfim, aconteceu porque eu não entendi nada, é como se um furacão de confusão, ingenuidade e frieza; de insegurança, de omissão, tivesse varrido o meu coração e levado a doçura daquela criatura. Fiquei, sozinho, com esse amor todo.

E na inevitável falta de respostas sobre o que, de fato, deu errado, acabo decaindo para o pensamento baixo da conclusão "afinal, nada disso vale à pena!".

Mas vale a pena amar. Muito mesmo. É a coisa mais importante da vida, a única essência que você não pode abrir mão na busca da felicidade. O amor é a única forma de, mesmo depois de tanta frieza e injustiça, sair inteiro. Eu amo uma miragem, sim, mas que bom que eu amo porque isso me deixa no caminho certo para não errar mais e encontrar alguém que me entenda, que me queira, que não canse dos desgastes da vida, e que colha os frutos, hoje já maduros, desse meu trabalho sério, intenso e comprometido de reconstrução.

E nessa situação, de tanto amor e tanto impossível, me recordo do The Grant Study (estudo que, há 75 anos, acompanha homens da região de Washington para traçar quais são os fatores determinantes para a felicidade). Um dos sujeitos acompanhados pela pesquisa, Godfrey Minot Camille, fora classificado nos primeiros relatórios do estudo como candidato sério a uma vida complicada, de tristeza e sofrimento e era, entre todos os participantes, aquele de quem se esperava menos e a quem se davam os piores prognósticos. Godfrey havia tentado suicídio, tinha história de vida atribulada e, mesmo assim, ao fim da vida, era um dos mais felizes.

O motivo? Segundo George Valliant, que acompanhou o estudo por quatro décadas e escreveu sobre o assunto, Godfrey foi um homem feliz porque nunca deixou de buscar amor. Godfrey dedicou a vida toda a essa busca e disso colheu merecida redenção e felicidade: ao fim da vida, era um dos poucos que gozava de boa saúde, de uma relação sadia com a família, de amor intenso com a esposa, filhos e netos e de uma percepção bastante profunda a respeito de suas circunstâncias e do caminho que o levou até essa grande vitória. Godfrey é um herói e deve ter terminado como um velhinho adorável e com quem eu adoraria ter a honra de trocar algumas palavras. Devíamos batizar ruas, prédios e aeroportos com o nome de Godfrey Minot Camille e sua vida devia ser esmiuçada nas escolas.

A história de Godfrey, suas origens, os problemas que encarou e a maneira pela qual ele foi descobrir nos relacionamentos pessoais e na busca pelo amor as fontes de força para uma explosão de crescimento pessoal, de alegrias, de felicidade, de paz e de generosidade são algumas das coisas mais inspiradoras que eu li na minha vida sobre outra pessoa. Eu quero ser como Godfrey quando crescer.

Eu fico feliz em dizer que vou pelo mesmo caminho porque foi a um custo bem alto que eu abri essas veredas. Eu, de braços bem abertos, vou pelo mesmo rumo de Godfrey, porque meu coração espartano - corajoso, forte, carinhoso e sincero - quer a vida. Que cai, levanta, perdoa e aprende sorrindo.

E eu, tanto quanto preciso, mereço dar e receber amor, carinho e felicidade.

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