segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sujeito de sorte

Belchior chegou chegando em minha vida há uns anos, dizendo tudo, falando muito, rimando soberbamente e dando tino e sentido, prumo e sabor, a tanta coisa que guardamos aqui dentro e que, destituídos da veia poética, não sabemos expressar. Belchior me fez um sujeito de sorte por tê-lo como porta-voz.

Selecionei trechos diversos de pura poesia, em que o cearense bigodudo e sumido fala por mim. Fala, aliás, por todos que um dia vestiram calças, se apaixonaram e, evidentemente, se decepcionaram. Porque uma coisa obriga a outra, afinal de contas.

"Tenho sangrado demais,
tenho chorado pra cachorro,
ano passado eu morri
mas esse ano eu não morro".
(Sujeito de Sorte)

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior".
(Apenas um Rapaz Latino-americano)

"Não quero o que a cabeça pensa, quero o que a alma deseja".
(Coração Selvagem)

"Amar e mudar as coisas me interessa mais".
(Alucinação)

"Eu tenho medo e medo está por fora
O medo anda por dentro do teu coração
Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião".

(Pequeno Mapa do Tempo)

"E vou viver as coisas novas, que também são boas
o amor, o humor das praças, cheias de pessoas,
agora eu quero tudo, tudo outra vez".
(Tudo Outra Vez)

"A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas
coisas novas pra dizer".
(Fotografia 3x4)

"Tenho 25 anos de sonho e de sangue
e de América do Sul
Por força desse destino um tango argentino
me vai bem melhor que um blues".
(À Palo Seco)

"Como é perversa a juventude do meu coração
que só entende o que é cruel, o que é paixão".
(Paralelas)

"Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa
não deixei o cigarro se apagar pela tristeza
é sempre dia de ironia no meu coração".
(Não Leve Flores)

"No centro da sala,
Diante da mesa,
No fundo do prato,
Comida e tristeza.
A gente se olha,
Se toca e se cala
E se desentende
No instante em que fala.
Medo, medo, medo..."
(Na Hora do Almoço)

"E eu ainda sou bem moço
Pra tanta tristeza.
Deixemos de coisas,
Cuidemos da vida,
Senão chega a morte
(ou coisa parecida)
E nos arrasta, moços
Sem ter visto a vida
Ou coisa parecida".
(Na Hora Almoço)

"Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais..."
(Como Nossos Pais)

"Quando eu não tinha o olhar lacrimoso, que hoje eu trago e tenho;
Quando adoçava meu pranto e meu sono, no bagaço de cana do engenho;
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus, fazendo eu mesmo o meu caminho,
por entre as fileiras do milho verde que ondeia, com saudade do verde marinho".
(Galos, Noites e Quintais)

"Não fico mais nervoso
Você já não grita
E a aeromoca, sexy
Fica mais bonita..."
(Medo de Avião)

"Não sou feliz,
mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais"
(Galos, Noites e Quintais)

"Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão"
(Pequeno Mapa do Tempo)

"Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar
que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar,
mas a mulher, a mulher que eu amei
não pôde me seguir não".
(Fotografia 3x4)

"Você não sente não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era jovem novo,
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer"
(Velha Roupa Colorida)

"Em cada luz de mercúrio
vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos
Nem te lembras 
de voltar, de voltar, de voltar".
(Paralelas)

1 comentários:

Junior Bellé disse...

Cara, eu daria pra esse sujeito. É sério.