sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ressabiado

Há uma coisa dentro de nós que não sabemos o nome, e é isso o que somos. A frase, mais ou menos nesses termos, é de Saramago, num dos Ensaios, e aí não me há fosfato que chegue para distinguir qual dos dois, se o da cegueira ou da lucidez, embora tanto num como outro o enfoque tenha sido, sempre, a nossa cegueira, nem branca, nem negra, mas sim coletiva, individual, social, filosófica. O que conta dizer é que a frase não é minha, coisa que não precisa ir longe para saber, afinal não há luz nessas ideias que iluminem tanto a ponto de desabrocharem em tão singelo aforismo. Sou bom de sugar as frases dos outros, não de fazê-las eu mesmo. E essa frase serve para explicar, por exemplo, este texto. É algo do que sou, que vou tratar de expelir.

Não é exatamente sobre Saramago que vim escrever, em todo caso. Já escrevi muito sobre o lusitano, e desconfio de coração aberto que ainda o farei muito e que por mais que faça, nunca chegarei perto de retribuir um décimo do deleite, prazer e satisfação que lê-lo ao longo desses anos tem-me ensejado. Não sendo sobre Saramago, contudo, que ia eu aqui escrever algo, eis que escapam já dois parágrafos sobre o bom português, e a isso espero que a audiência sempre solicita em ler minhas bobagens perdoe. Não sou bom em fazer sentido, por mais que me esforce. Pelo-me por entender o mundo. E, de outra parte, por ser compreendido, mas a verdade é que ambas cruzadas não levaram-me muito longe. De alento resta a certeza de que, entretanto, nessas lutas desesperadas não vou sozinho enfrentando meus moinhos-de-vento: está aí Belchior que, agora mesmo, no ouvido me diz que "amar e mudar as coisas me interessa mais", e que há pouco dizia ainda, de peito aberto, "ainda sou estudante da vida que eu quero dar". E é bem por aí.

Não sei bem, essa é a verdade, o que quero dizer neste post. Há, sempre, muito a ser dito. Mas nunca é o momento, ou sempre falta a ocasião, porque na falta dela, a fazemos nós e vamos, via de regra, vivendo absolutamente arrependidos por tê-las feito, as ocasiões, onde não cabiam. E aí só resta, mesmo, esgrimir com palavras, espremer ideias, lustrar frases. Sonhar em verso, coagular em prosa, viver em discurso. E sobreviver de aforismos, vendendo filosofias com usura e sem garantia. O Procon que nos perdoe. Em todo caso, conta a meu favor vender minhas redundâncias gratuitamente, o que é outra hipocrisia, porque antes falei em usura - e se sabe que o mau vezo da usura só nasce de onde há cobrança e lucros assim ilícitos, mas estou com preguiça de revisar o parágrafo e aparar mais este disparate. Entendam como quiser. Não é por escrever com clareza que muita gente garantiu seu galardão no mundo da palavra, por isso mesmo, me dou o direito de fazer um pouco de mistério. E, como de ordinário, embora tamanha disposição pessoal em contrário, nenhum sentido.

Na verdade esse texto sem rumo, sem motivo, sem fim, sem vistas está aí a solta porque preso por aqui ele já não pode mais ficar. É como disse alguém certa vez, que se escrevia, apenas o fazia para não sufocar. Tem gente que vai no analista, que fofoca, tem gente que ignora, transforma em recalque e depois de anos entra em crise de meia idade. Eu escrevo, pois. É míster expulsá-lo, portanto, este texto, porque aí a vida fica mais leve. Vou mais longe, ando mais rápido quando não carrego peso nas costas, filosofia esta que não é nenhuma novidade e, literalmente, só pode ser mais antiga que andar pra frente.

Queria dizer, na verdade, que nada do que tenho a dizer merece ser dito. Calo. Baixo a cabeça, bato no peito, me visto de hipocrisias e sigo o caminho. "Quando eu adoçava meu pranto e meu sono no bagaço de cana do engenho", conta Belchior. Belchior fez bem em sumir. A gente tende a dar valor ao que perde, o que não pode ter, o que teve e esnobou, aquilo que você deita pela janela, defenestra, portanto, e já ali se arrepende, porque então dá-se conta de que faz falta. O ser humano é capaz de muita burrice e mesquinharia. Mesquinharia dói. Burrice devia doer, mas não dói e isso explica o porquê do mundo estar do jeito que está.

"E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza, deixemos de coisas, cuidemos da vida, senão chega a morte, ou coisa parecida, e nos arrasta moços, sem ter visto a vida, ou coisa parecida". Belchior sabe das coisas. Já eu que vos escrevo, por outro lado, não sei de muita coisa, mas desconfio. Como desconfio.

0 comentários: