Eu nunca parei para pensar muito no que vem saindo dessa mente tortuosa nessa seção do blogue, que apelidei de "O dia em que cresci" e fiz porque percebi que vinha aqui depositando reminiscências, lembranças e episódios marcantes da vida. E no mais, o blogue é meu, sou o senhor disso aqui e, não, embora estime os leitores que cativei, não me preocupo muito com o interesse de vossas senhorias em ler-me, e isso explica, por exemplo, minha bizarra insistência em poesias, que antes de atrair leitores, os espanta com enorme eficácia. Melhor que pop-up.
Mas nunca tinha me acontecido algo de recente para escrever nessa seção. Tudo que tinha escrito, eram coisas da adolescência, da infância. Até sábado. Na iminência de vir a São Paulo seguir a vida, resolvi fazer uma visita a meu avô, o último vivo, e que convalesce de uma extração de apêndice - e que já foi personagem deste blogue aqui, o célebre caso do homem dos dois nomes. Nada demais, visitar o avô e uma cirurgia, não fosse o caso de ele contar já 84 anos, e sabe-se que a essas alturas, qualquer visita no médico é potencialmente arriscada. Os esculápios, o tempo e as mulheres, conforme é cantado pelos poetas desde há muito, não perdoam.
Eu sempre pensei no meu avô como numa rocha. Não conferia a ele a imortalidade, mas aquela sensação de certeza, de perenidade difícil de explicar. Só conheci esse avô, o outro, paterno, faleceu 3 anos antes de eu nascer. Pensando numa definição melhor sobre meu avô não econtrei frases melhores que as de Kevin Arnold, um dos grandes filósofos contemporâneos, que ao falar do seu, disse que ele era "Hércules de bifocais, um super-homen de suspensórios". Meu avô sempre foi algo assim. Tão velho como o tempo. Tão certo como o dia.
E nessa visita que fiz conversamos sobre memórias. As dele, evidentemente, que as minhas, por certo, não rendem uma página. Contei que vinha, mais uma vez pra São Paulo e talvez para ficar, ele sorriu e disse uma frase que já vi ele falar diversas vezes "você está na água, tem que nadar, se não afoga". As suas memórias cobrem 84 anos. Dos quais, 61, mais do que vive muita gente, ocupados na boleia de um caminhão, ou ainda, de vários, unindo e desunindo os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais, redesenhando rotas, atravessando caminhos de tropeiros que não eram ainda estradas, vendo rodovias surgirem, cidades nascerem, dormindo na estrada, debaixo do caminhão, vendendo, comprando, trabalhando. Vivendo.
Meu avô viu de tudo. E fosse a memória mais pródiga, o corpo humano mais resistente e a idade menos cruel, teria mais detalhes para contar. Acho curioso a maneira como os assuntos e as memórias de meu avô fluem, com a maior das facilidades, saltando anos, décadas, eventos, e no fim, quando julgo que mais que a memória, ele já perde a faculdade de conectar ideias, ele me surpreende, dando fecho a todas as histórias, por conta das personagens envolvidas, que em sua maioria já faleceram e das quais ele parece lembrar com sincero pesar. Meu avô fala de gente que nunca conheci como se eu as conhecesse. Antes me constrangia com isso, hoje, não importa.
Saí de nossas quase duas horas de conversa atrasado para viajar. Mas não importava. Gostaria de ter ficado mais. Aliás, gostaria de ter conhecido mais meu avô. E é engraçado, porque isso é um tremendo clichê, e você do outro lado da tela, se galhardamente chegou até aqui na leitura, deve estar pensando que sou bobo, que não me dou conta que todos um dia sentem isso. Bobagem, sei que é assim. Sei porque já senti, senti com meu pai, que foi-se da vida, e me deixou lacunas. Não sei o que ele fez na década de 1960 e 1970. Os caminhos, as idas e vindas, com quem convivia, o que pensava, que música ouvia.
Sei, por certo, de alguns eventos do período. Mas não conheço meu pai (e, aliás, a única justificativa para mais de 5 anos de blogues é a minha intenção de deixar um registro, escritos, memórias, que contem, para filhos - talvez? - o sujeito que fui. O jovem que não fui, enfim, e que não nos censuremos mutuamente e em foro íntimo por termos sido estranhos uns aos outros). Não sei quem foi meu pai porque ele não disse e eu não perguntei. Passei um bom tempo dizendo que não tive tempo, ele foi embora. Mas eu tive, só fui deixando pra depois. Assim como fiz com meu avô, assim como fiz com minha mãe, assim como provavelmente farei com muitas pessoas. As pessoas não mudam.
E tomar consciência disso assim que saí da casa de meu avô, deixando-o na cadeira de balanço, se refazendo da cirurgia, reclamando de dores e das complicações inerentes ao seu estado de saúde, que inspira tantos cuidados, foi, imagino, o que pensei quando um dia resolvi falar dos dias em que cresci. Cresci, sim, ao atinar com a falta, a sensação desagradável, de lamentar-se, porque avô e neto não se conhecem tão bem, embora estimem-se tanto.
E a ironia é que eu poderia, fosse um sábado comum, ficar por lá conversando durante horas. Eventualmente gravar a conversa, sou jornalista, gosto de pessoas, me instigo por histórias, por memórias. Sou obcecado, na verdade, por memórias de gente comum. Só que eu não podia, do outro lado, a vida urge, o destino chama, o tempo não volta mais, a gente não muda. E o tempo apaga tudo, quem sabe até mesmo essa lição.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
O dia em que cresci
às 23:05 Marcadores: O dia em que cresci

1 comentários:
Rapaz, se um dia vc escrever um livro, quero um autógrafo.
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