quarta-feira, 11 de novembro de 2009

À luz de velas

Ontem São Paulo apagou. E antes que me acusem um inusitado paulistanocentrismo, moléstia que faz com que órgãos de imprensa e boa parte de tudo que reside na pauliceia olhe para si como se o próprio umbigo fosse o centro do mundo, saibam que se me refiro a metrópole o faço porque estava e estou aqui. Tivesse eu testemunhado o apagão em Pindamonhangaba, iria falar de lá. Mas não é o caso.

Eram pouco mais de 10 da noite, e eu me preparava para comer algo. A luz piscou, resistiu mais alguns segundos alternando em intensidade tanto no prédio onde estou como nos arredores, o que significa que algumas fases da tensão já tinham caído e que, inevitavelmente, todas as fases iam cair, coisa que aconteceu uns 30 segundos depois e, assim, ao contrário do que teria dito o deus de muita gente na aurora dos tempos como nos acostumamos a contá-los, "desfaça-se a luz".

E assim foi. A escuridão forçada e compartilhada com todos, indistintamente entre os mais humildes e os mais bem providos vizinhos dos Jardins nos traz uma porção de boas oportunidades para colocar tudo em perspectiva. A gritaria dos bares próximos. As pessoas nas janelas e varandas olhando umas para as outras como perguntando-se "e agora?". Gente na rua, cirenes, carros da CET esgrimindo o trânsito caótico em todas as circunstâncias e absurdamente incontrolável quando falham os semáforos. Tudo igual, tudo para todo mundo. A democracia da luz apagada.

Centenas de piadas inevitáveis nos ocorrem. Guerra. Apagaram o Brasil. Alienígenas. Apagão, como aquele que rematou os melancólicos anos de FHC no poder e seu tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país e o vendeu numa bandeja a interesses escusos poderia reeditar sua visita a história nacional agora, no fim do megalomaníaco e contraditório governo Lula, que se não nos vendeu e nos desmontou foi porque sobrou muito pouco para vender e desmontar.

Há um vácuo inevitável, porque o homo-sapiens sapiens carece de informação, do contrário regride ao australopiteco mais modesto. Não há internet. Tv. O celular acusa rede e sinal, mas não funciona. Rádio. A única salvação da cristandade e daqueles mortais que não possuem um gerador de energia. Rádio. As redes corriam as autoridades, sacudiam seus repórteres provavelmente em casa para que dessem suas contribuições, sobre como estão as coisas por aí, na zona sul, na zona oeste. Nos bairros. Tudo igual, escuro.

Como há poucas décadas faziam, nos reunimos para ouvir do aparelho e das redes noticiosas o que acontecia. Caos. Nas saídas de estações de metrô estavam acontecendo arrastões. Nossa primeira preocupação foi com amigos que estavam na rua, enviamos mensagens, tentamos várias vezes telefonar, saber se estava tudo bem. Nos preocupamos com os nossos, pensei em comer meu jantar. Desisti, adaptei para um sanduíche, pão com mortadela, ketchup, pimentão picado. Regredi, pois, como meus pares, aos degrais mais baixos da evolução.

As rádios devem ter batido recordes de audiência ontem, sobretudo as noticiosas. Informações desencontradas iam e vinham, mas ficava apenas a certeza de que o problema era muito maior do que podíamos supor de nossa curta visão da varanda. São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Brasília, Mato Grosso do Sul, Paraná. Tudo apagado. E agora?

O espírito de jornalista me bateu. Pensei em quantas pessoas naquele exato momento estavam presas em elevador. E nas que ficaram no meio de algum túnel do metrô, tiveram que descer da composição, caminhar no passeio do túnel escuro até a estação mais próxima, para aí ganhar os ares e as ruas, também escuras, iluminadas por uma ou outra luz de emergência, e os farois dos automóveis. Pensei nos hospitais, que por certo possuem geradores, mas até que ponto eles são capazes de ir? São a diesel? Se forem desses a combustão, o caso é só não descuidar e ter combustível disponível. Mas se não forem desses? E se não existir postos por perto? Gente preparada para contornar esse problema? E os aeroportos? Sobretudo o de Congonhas, encravado na mancha urbana? Como funciona um aeroporto num blecaute como esse? Tem geradores, e se um avião ia no justo momento em que tudo apagou pousar? As luzes da pista estão lá?

Pensei no pessoal da Companhia de Engenharia de Tráfego. O trabalho cruel de engenhar um fluxo inclemente de veículos numa cidade como São Paulo à noite e sem energia. Caos. Pensei em todas essas pessoas e me dei conta na riqueza que uma matéria bem escrita sobre esse dia traria. Um parágrafo centrado em cada uma das personagens dos cenários que imaginei, como encararam a situação, o que sentiram, em que pensaram? O que faziam e pretendiam fazer no instante exato onde suas prioridades e planos imediatos foram alterados porque faltou-nos a todos luz?

Pensei, também, na dimensão filosófica do escuro. Fosse no interior, de onde vim, o escuro estaria acompanhado de silêncio. Em São Paulo não. Buzinas, gritos, automóveis, tudo, enfim, fazendo barulho, gemendo, gritando, falando. O som e a luz são duas forças da natureza, e estão dissociadas uma da outra, sabedoria essa que o empirismo de interior não me tinha ainda possibilitado. Mas a vida em São Paulo sim. Dizem que São Paulo não pára. Pára sim. São Paulo, na verdade, não se cala.

No escuro a gente pensa no caos. Lembrei de José Saramago, porque lembrei do seu ensaio do caos humano, o ensaio do desespero, o retrato da loucura no seu romance maiúsculo, da sua prosa lustrada, e do seu senso de análise e de percepção do humano, demasiado humano. É evidente que amanhã, caso ainda estejamos sem energia, pra bem ou pra mal, o sol estará lá e, ao menos, enxergaremos, não precisaremos andar por aí as apalpadelas para atinar com nossos rumos, caminhos e desacaminhos, mas por certo, ao menos por algumas horas, acho que senti o que sentimos todos que lemos o Ensaio Sobre a Cegueira. Não me senti cego, mas me senti sozinho, meio que perdido, assim como meu próximo. Insuportávelmente próximo, dividindo a mesma desdita, a mesma incapacidade.

Bebemos algumas cervejas mal geladas, esperamos com alguma ansiedade os amigos voltarem. Nos reunimos na laje, com velas, câmera fotográfica, risos, conversa, violão, proximidade, música. A luz foi voltando aos poucos, algumas quadras já estavam acesas, mas nós continuamos nosso isolamento. À luz de velas não jantamos qual amantes. À luz de velas dividimos um momento que não teríamos se a energia estivesse a prover-nos de isolamento pós-moderno. O máximo que faríamos seria trocar frases pelo msn.

Na rádio seguia ouvindo e pensando. E é curioso confessar onde vai parar seu primeiro pensamento. Pensar é uma merda, não pensar é pior. Sentir é um inferno, não sentir é um tédio. Pensar é inevitável, aliás, no escuro. Não há o que enxergar, não há estimulos para os olhos, a internet dorme, a tv se nega a bombardear os olhos com luz. Os olhos apagam-se porque não há luz, e a ausência dela é o escuro. E no escuro, caros, só há a mente, e daí vem todo o conceito de iluminismo, que nos faça enxergar alguma coisa. Fosse eu mais poeta, arriscaria um desfecho em prosa-poética para esse post, relacionando os conceitos, as ideias, e tudo mais, só para dizer que uma luz que não se apaga é aquela do que pensamos, do que enxergamos quando fechamos os olhos.

As vezes é preciso fechá-los, os olhos, para enxergar melhor.

Dei-me conta da nossa sorte quando um amigo, depois que a luz já tinha voltado, discordou que descessemos para o apartamento. "Lá a gente não vai conversar". Ele tinha razão.

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