terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ironia socrática

Fui o homem que sabia demais.
Gritei aos quatro ventos todas as certezas fundamentais,
desandei a duvidar das verdades, das poesias,
padeci nas desgraças do amor, a maior de todas as heresias.

Hoje resta o sujeito que não sabe de nada,
desconfia de tudo, cofia a barba, dá de ombros.
Hoje não digo que sei, hoje digo que desconfio e versejo,
e que floresce em mim vida em meio aos escombros.

E poesias ruins em meio as desconfianças,
alívio às memórias e saudades mansas
que me acometem com o menor dos ensejos,
e que me lembram de esquecer de tudo,
correr o mundo, rimar e ser mudo,
porque de resto, hoje, nada sei,
digo apenas que o que deixei guardado por aí,
em algum caminho descaminhado,
em algum recesso ignorado
onde meu suspiro fez-me tropeçar,
onde sorri, olhei, caí

é tudo aquilo que soube como ninguém.

Digo que hoje, à luz da dúvida
e da certeza de que nada me convem
padecer de dúvida e de medo 
é moléstia da qual só se levanta uma vez.

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