sábado, 12 de dezembro de 2009

Sapo e Princípe

Numa inauguração recente, Lula disse a palavra "merda". Inauguravam obras de saneamento básico e Lula disse que não interessava a ele o partido do prefeito daquela ou de qualquer outra cidade, interessa saber se "o povo está na merda, e quero tirá-lo da merda em que se encontra".

Curto e grosso, sem eufemismos. Claro que muita gente se horrorizou, afinal, é o presidente da república. E claro que a gente que se horrorizou é a que não compreende que um sujeito como esse, vindo de onde veio, sem diploma, nenhum pouco poliglota, que ainda fala errado, tem vícios de linguagem constrangedores e metáforas ignóbeis tenha mais de 80% de popularidade aqui no Brasil.

Essa gente não entende nada. Cheguei a essa conclusão. Esse povinho está orbitando numa outra galáxia. O presidente falar merda os choca, os ex-presidentes, como FHC e Sarney, que só fizeram merda, não os constrange.

Falando ou não merda, Lula foi escolhido pelo "El País", atualmente considerado por muita gente de tino o melhor jornalismo do mundo, o personagem do ano. Nas publicações mais sérias do planeta, não importa o matiz que as norteia, o presidente que fala em tirar o povo da merda é festejado como estadista e líder contemporâneo incontestável. As posições de Lula são consideradas em qualquer debate mundial, o Brasil está no mapa.

Ao tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, e não falou em merda, mas a fez em proporções industriais, nenhuma mísera linha em qualquer lugar.

Lula foi, sim, vulgar no que disse. Mas que bom que é no que diz. Triste mesmo é quem sempre foi vulgar no que fez, e sempre contou com a gentil guarida de uma imprensa preconceituosa e abobalhada, que ainda hoje tece teorias e elipses para entender um operário presidente. E estadista.

O sapo não é, pois, o que fala merda. Esse, boquirroto, é o príncipe. O sapo é o que só fez merda e não entendeu nada.



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