Quando se fala em Segunda Guerra Mundial, sobretudo no front russo, que virou o jogo e definiu a sorte dos nazistas, muitos falam de massacres em Kiev, a introdução dos esquadrões da morte da SS (os temíveis "einzatsgruppen"), responsáveis por eliminar quem fosse considerado inferior, o General Inverno, experiente por ter vencido mais de 100 anos antes Napoleão e que derrubou a Werhmacht quando esta estava a apenas 7 km de Moscou (se os alemães tivessem tomado a capital russa muito provavelmente venceriam a guerra), fala-se, por fim, muito, mas muito mesmo, da Batalha de Stalingrado, talvez a maior bestialidade humana no longo catálogo de bestialidades que compõem a História do mundo, a maior e mais sangrenta batalha da história, onde pereceram mais de 2 milhões de seres humanos.
Pouco se fala, entretanto, do cerco de Leningrado, hoje São Petersburgo. O cerco durou dois anos - cerco significa que um exército cerca o outro em determinado ponto. O detalhe nessa história é que a população da cidade não foi evacuada, sendo forçada a conviver com o regime de cerco agravado pelas circunstâncias da região. A história das guerras é composta de cercos, o que, contudo, tendia a desaparecer com a maior mobilidade das forças militares do nosso tempo, Leningrado foi a exceção que confirma a regra, como diria um querido amigo. O cerco de Leningrado, saibam, pasmem, lamentem e choquem-se, matou, só em russos, um número superior a todos os norte-americanos e ingleses, somados, em 6 anos de guerra. Em janeiro de 1942 morriam 4 mil pessoas por dia em Leningrado. A população era subalimentada com um tipo de pão confeccionado a partir de serragem, lixo, ração para gado, pasta de papel, óleo de linhaça e sabão. Donas-de-casa e crianças tinham direito a 130 gramas desse pão por dia. Tudo no medonho frio do inverno russo, sem o conforto da energia elétrica para combatê-lo. Conta-se que o derretimento da neve ao fim do inverno e princípio da primavera trouxe o problema de expor corpos que estavam congelados, e doenças assim se alastraram. Há relatos de pessoas que escavavam as covas daqueles que haviam morrido há pouco tempo em busca do que comer. E mesmo assim, fazendo de tripas coração, embora não haja registro na longa literatura médica de que intestinos desdobrem-se em sístoles e diástoles, eis que, ao fim, os russos romperam o bloqueio. E a Alemanha perdeu a guerra.
É por isso que na Rússia, ainda hoje, a memória da Segunda Guerra Mundial, que completou 70 anos em setembro, é tão cara e promovida. Há cerimonias em datas marcantes por todo o país, porque foi a Rússia a pátria que mais se sacrificou. Os russos foram os que mais sofreram as crueldades da guerra, estima-se que a loucura de Hitler custou nada mais, nada menos, que 30 milhões de vidas nas nações soviéticas daquele tempo. Se por um lado é verdade que o discurso com a frase marcante "tudo que tenho a oferecer são suor, sangue e lágrimas" (ouça aqui o original) veio de Winston Churchill, marcante, aliás, como era típico em seu patoá, e como também é reconhecido que os britânicos arcaram quase que sozinhos por dois anos com a guerra contra o Eixo, não se pode negar que em matéria de sacrifícios, e nisso que nos perdoe o conservador Churchill, derramamendo de sangue, suor e lágrimas, de longe, os russos comunistas foram campeões absolutos.
O curioso é que, aos leigos, em virtude de décadas de propaganda e Guerra Fria, a guerra foi ganha no Dia-D do Steven Spielberg.

1 comentários:
Jura que você leu tuudo aquilo?
Rs*
Jura tbm que se arrependeu mesmo de fazer jornalismo?
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