O louva-a-deus, aquele bicho verde, possuidor de um nome tão simbólico, vinculado ao formato de sua anatomia, que nos recorda um fiel ajoelhado louvando uma divindade, pequeno, frágil e esguio, qual um graveto verde caído de uma árvore qualquer numa ventania inclemente, na sua modalidade masculina, é incapaz de copular enquanto possui a cabeça conectada ao corpo. Diante dessa impraticabilidade absolutamente negativa a qualquer ambição da espécie de evolução, ou modesto perpetuamento - o que mais lhe cabe, tendo em vista a pequena margem de manobra que detém na dura e inclinada escada da cadeia alimentar - as fêmeas dos louva-a-deus, pois, não têm outro recurso que não seja arrancar as cabeças dos distintos machos para, assim, copular.
Diante de mais essa constatação irrefutável das injustiças naturais, não há nada mais que dizer que, louva-a-deus são, em última análise, a metáfora mais bem acabada da vida natural dividida em gêneros que suportamos nós, os homens, e da qual refestelam-se às largas elas, as mulheres. No mundo que conhecemos, elas arrancam cabeças, matam os machos, jantam os tarântulos, executam o zangão. E nós, homens, somos pavimentados naquilo que convencionei chamar em foro íntimo: a asfaltização dos homens pelas mulheres. Não há nada mais indômito que um rolo compressor.
Não me surpreende, pois, o nome do bicho. Só louvando, e muito, para tolerar a vida assim (aliás, é simbólico também que ao que mais louva, mais desgraças e injustiças se abatém. Deus e natureza são duas instituições para lá de injustas e desequilibradas, a dar-se fé que Deus exista mesmo, coisa cada vez mais difícil de sustentar nos tempos que correm). O louva-a-deus não discute as relações, ele dá a vida por elas. O louva-a-deus, se amasse, seria apenas objeto do desfrute da sua fêmea. Aos louva-a-deus não cabem, em hipótese nenhuma, analogias de sexo forte, de dominação ou de bravura. O louva-a-deus é mais próximo ao homem do que o golfinho, que é a única criatura, exceto nós, que faz sexo por prazer. O louva-a-deus seria poeta se escrevesse, filósofo se pensasse, luminar se fosse meio vagalume. O louva-a-deus é o exemplo sintético mais bem acabado da injustiça e da entropia das relações.
O louva-a-deus, antes de tudo, de inseto, de fiel abnegado, é o mártir de toda uma classe.

1 comentários:
E só os já decaptados, devorados e pavimentados é que sabem o alcance disso tudo.
Postar um comentário