Se eu estivesse numa ilha deserta, como Robinson Crusoé, admitindo que meu naufrágio tivesse me deixado com o notebook intacto e ainda alguma carga na bateria, eu, fatalmente, escreveria. Robinson Crusoé foi um sujeito industrioso, que com a paciência que os anos lhe deram, tal como os presidiários, tinha absolutamente todo o tempo do mundo, que como se sabe passava mais devagar no século XVII, e pôde moldar a realidade a sua volta. Robinson Crusoé é um dos livros mais importantes da minha vida.
Eu escreveria porque é o que sei fazer, ponto. Escrever, ler, escrever, observar, escrever, ponderar, escrever. História da minha vida. Me resumo em palavras correndo para lá e para cá, buscando encaixe. Fiz dessa desdita profissão. Eu escreveria até a bateria drenar-se, o que aconteceria em coisa de duas horas. Salvaria o documento que nunca mais poderia ler no pendrive, colocaria a pequena unidade de armazenamento numa garrafa e a arremessaria as intermináveis vagas do oceano, esperando que elas desfaçam as distâncias, que a água não inrrompa no invólucro e que o sol inclemente preserve a minha memória de silêncio e silício embalada em plástico.
Não sei o que escreveria. Se diria instruções para me encontrar, ou se justamente o contrário, diria, "deixem-me aqui com minhas cismas e meu exílio, e se ainda sim vierem, por favor, tragam baterias". Se faria um apelo para não ser esquecido. Talvez uma poesia, uma saudação, piadas. As minhas 200 notas. Outras 300, não sei, porque no fim seguiriam sem rumo como as 200, inócuas em tudo e por tudo. O que eu sei é que embalaria com os melhores pensamentos do mundo o destino desse pendrive, contivesse ele o que contivesse. Meu pendrive engarrafado, com hálito de vodka, rumaria por mares nunca dantes flutuados por unidades de armazenamento em busca daquilo que nós todos buscamos na vida: o nada. Mas ainda assim iria embalado com as melhores disposições do mundo.
Na ilha, presumo, me aborreceria mortalmente. Não posso fazer uma lista de coisas que levaria comigo a uma ilha deserta, porque assim todo esse exercício de imaginação perderia ser mérito: quando vamos dar com as fuças em paragens assim temos tempo para tudo, menos para preparar bagagens. Lá não teria internet, livros, o que por natural confluência de catástrofes, implicaria em me impedir de escrever. E uma vida onde eu não possa escrever é uma vida que não vale à pena ser vivida. Só serve para lamentar.
Contemplaria a infinidade dos dias como faço hoje, rodeado de gente na maior cidade do continente. Me apoquentaria, contudo, e admito sem problemas, com o destino da garrafa: se foi encontrada, por quem, se sabiam ler português, se não seria melhor ter feito um esforço e lembrar de todo o inglês que nunca soube, traduzir o texto, sabe-se que o inglês está por todo o canto. Pensaria nas pessoas que encontrassem, no tremendo azar de que não tivessem computador e não soubessem o que é um pendrive, ou que o adorassem, como se fosse algo divino, como faziam as tribos daquela comédia dos anos 1980, "Os Deuses Devem Estar Loucos", com uma garrafa de Coca-cola. Ou nada disso, no meio do caminho, um petroleiro, navio mercante, enfim, com suas desajeitadas centenas de toneladas de deslocamento, passa com a quina pela garrafa, quebra todos os meus devaneios.
Diante dessas percepções inabaláveis, declaro que não pretendo, sob hipótese alguma, enquanto tiver ar para puxar ao peito, coração pra pulsar minhas saudades, perder-me em alguma ilha.

1 comentários:
O negócio é carregar consigo caneta e muito papel em todas - absolutamente todas - as ocasiões.
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