... e eu cansei de ser de chuva.
Ontem eu me perguntava até onde vai a chuva. Todo dia chove aqui em São Paulo e eu gostaria de saber até onde chove, se ao norte, ao leste, ao oeste e ao sul há, também, "pancadas de chuva no final do período", como diziam antigamente os jornalistas incubidos, ou nem tanto assim, normalmente mulheres bonitas, de nos dizer a previsão do tempo, que como se sabe previa e prevê muito pouco. Eu, aliás, não acredito em três coisas: mulheres encantadoras, políticos e metereologia.
Sempre gostei de dias cinzas, nublados e chuvosos. Meu espírito contemplativo e ensombrecido se adapta melhor a esses climas, sinto-me no meu habitat natural. É como a madrugada: escrevo, penso e vivo melhor pelas madrugadas, tenho alma de boêmio e não há nada que dê jeito nisso.
A chuva que nos saúda, enfim, todos os dias levou-me a pensar no fato de que há algum tempo elas, as chuvas, já não são espaço que chegue para a minha paz. Ou talvez o contrário, a chuva vai intensificando ao longo do tempo minha capacidade de pensar. É como a refrigeração para os computadores, tanto quanto mais bem refrigerado, mais eficiente será o computador. Quanto mais chove, mais e melhor eu penso, mais e mais sinapses explodem no meu cortex, sem que eu as controle, me embalam, me levam, viram sístoles, imaginação, memória, saudade, deboche, diástoles, planos, desistências, sonhos. É nas tempestades que eu vou mais longe.
Só que eu não quero mais ir longe. Agora eu quero ficar por aqui, pensar rasteiro, na luz inclemente do sol. Hoje eu quero verão no inverno, quero derreter os transistores, quero regredir, porque pensar cansa. Pensar me martela o juízo, e vai moldando, ao custo de tanta martelada, de tanto esforço, de tanta pancada algo disforme, longe do que sou e do que quero ser. Pensar. Pensando nisso, embalado pela chuva que castiga a varanda e respinga em mim, lembro de uma frase de Herman Hesse, que sempre me impressionou e que nunca, jamais, me saiu da cabeça e que hoje, a luz de toda essa confusão, me parece ainda mais verdadeira - sem que um dia tenha deixado de ser - lembro do livro, da textura do papel, de quando topei com ela. Sei até em que página está: a 13. Página 13 do "Lobo da Estepe", de Herman Hesse:
Parece, enfim, que vejo o bom Herman coçando o saco, dando aquela ajeitada nos bagos, pigarreando para limpar a garganta, e me dizendo em alemão de anedota "Ia, pára de frescura, minha djoven!" ("djoven" é jovem em alemão de anedota). E tem razão.
Eu cansei de andar na contra-mão, de nadar sendo que fui feito para andar. Não quero acabar afogado, não quero ficar na contra-mão e acabar acidentado. O que eu quero é que o dia raie amanhã, e que chovendo ou não, lá fora, aqui seja sempre dia de sol, calor. E que o lobo da estepe, ou os lobos da estepe, qual uma matilha, tenham sido enfim expurgados, e que vão, em bando, uivando embora, lamber suas feridas e me deixem, enfim, em paz.

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