terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O dia em que cresci

Incidentalmente, enquanto fazia meus traslados e intermináveis conexões, para despencar de São Paulo para casa da família, testemunhei um episódio na vida de duas pessoas pelo qual eu já passei três vezes, em idades e condições diferentes, mas que me marcaram da mesma maneira que, suponho, deve ter marcado as pessoas.

A troco de calibrar o suspense e caprichar em recursos narrativos nunca dantes experimentados, irei, a princípio, traçar em poucas penadas, a figura das personagens para as quais deitaremos agora os curiosos olhos e a paciente imaginação: imagine um senhor dos seus 50 anos, roliço, pele bastante corada como a de gente que trabalha ao sol, embora eu possa dizer que desconfio que o vermelho que lhe tingia as expressões não vinha das inclemências do sol, mas de alguma condição genética ou, espero que não, mas não recuso a possibilidade, que fosse do consumo do alcool. Era calvo. Daquelas calvícies que começam na parte dianteira do crânio e daí se espalham, como as clareiras pela Amazônia. Ressalto que não afianço a origem do tom rubro da sua pele ao sol. Tenho razões para atribuir a outro fator o vermelhão e essas razões serão descobertas conforme este texto for amadurecendo.

De outro lado, a personagem número dois, era um menino. Arrisco-lhe 12 anos. Posso estar estupidamente enganado, visto que tanto quanto mais nova ou mais velha a pessoa, mais difícil de lhe atestar a idade ao olhar. Aceitemos, pois, que a criança tem 12 anos, tendo em vista que pode ter 15. Ou 8. Quem sabe? Ela. Mas não perguntei. De resto, o menino tinha olhos castanhos, sorria como toda a criança e lembro de que seus cabelos eram encaracolados, quase pichaim, como pouco se vê. Era esguio, leve. E falava sem moderar o tom, quase aos gritos, mas não dava por isso. Aprendemos a engolir as palavras e moderar os tons só com a idade. A tão festejada inocência infantil é, no fim das contas, resumível a falar aos berros.

Continua...

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