Eu tinha prometido a mim mesmo que não tocaria no assunto. Mas levando em consideração que não tenho absolutamente nenhum que preste no momento, não há muito que se fazer a respeito. Paciência.
Caiu, enfim, a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista. Alguns conhecidos e familiares vieram me perguntar, em tom de choro, o que eu pensava. Eu disse, "não faz a menor diferença". Para alguns com quem sou mais informal, "tô cagando e andando".
Sejamos francos: o jornalismo no Brasil está longe, mas muito longe, de ser a profissão de glamour que as pessoas tendem a pensar. Para cada William Bonner por aí existem centenas, talvez milhares, de subempregados da mídia, para usar o termo de um amigo.
Em suma o jornalismo sempre foi uma profissão zoada. A diferença é que agora fica um pouco mais. Qualquer irresponsável pode pegar um microfone e dizer asneiras na TV, nas rádios, na internet que ele estará respaldado pelo fato de que o STF julgou desnecessária a formação acadêmica e humanista para exercer o jornalismo.
Só que parando para pensar, isso já acontece. Sempre aconteceu. Não precisamos ir muito longe, mesmo quem vive em grandes centros deve conhecer algum programa de "informação" que se especializa em distribuir senso comum, preconceitos e ignorância. Se nos embrenharmos no interiorzão desse nosso Brasil sem fim, meus amigos, é absurdo que não tem, também, fim algum. É cada uma que vou te contar...
Ou seja, a rigor, não muda muita coisa. Até porque nós jornalistas sofremos de uma fraqueza crônica no que concerne a organização da profissão - algo que até médicos e advogados sabem fazer - e que não é propriamente um defeito, mas é indício do porquê somos desvalorizados coletivamente como uma massa ignóbil, que ganha mal, mente e desmente conforme orientam os humores dos nem sempre bem intencionados veículos que nos contratam.
O que muda é que a profissão fica um pouco mais desvalorizada. Algo réles, comum, sem efeito, porque qualquer graduado em datilografia agora pode editar um veículo de comunicação que atinja uma grande massa. Mas no fundo, ainda que disparidades como essas aconteçam, não é o tipo de problema que nós, agora falando da sociedade como um todo, devemos nos preocupar tão gravemente.
E no fim das contas, algum deputado ou senador apresentará ainda um Projeto de Lei que nos qualifique novamente. Aí a lei tramita, eventualmente é aprovada, entram com recursos, outro coronél no STF julga inconstitucional e segue o cortejo. Insisto, meus caros, relaxem.
E para quem é jornalista, de currículo e outros que tais, e lê isso, ora, relaxa mais. Vá se preocupar com a defesa do São Paulo, com o meio de campo do Guarani, com a relação de causa e efeito no Universo, a finitude, nossa insignificância perante a vida. Os lugares onde sempre valeu à pena trabalhar continuarão exigindo - exigindo é a palavra - o diploma como ítem sine-qua-non na formação do sujeito que almeje o direito de trocar letras por aí.
E no mais, que seja, eu sempre fui partidário da tese de que "Jornalismo é muito legal, mas o que estraga são as aulas" - no tempo de faculdade. E é verdade. O que mais aprendi, e muito, na época de universidade foi numa mesa de bar, conversando com colegas sobre tudo um pouco, com um copo bem provido de cerveja. Eu não tenho vergonha de dizer que me graduei nos botecos, entre uma ou outra ressaca, e que o que aprendi de ética, juízo e equilíbrio, que hoje me têm levado tão bem pela profissão veio daí.
Não fui nenhum aluno notável no quesito notas. Mas lembro com bastante emoção o que foi sentir na pele um problema social ao ouvir de uma criança de rua que um amigo entrevistara: "o que você quer ser quando crescer? Quero ser como as pessoas que me ajudam, como vocês". Ou a tarde que passei numa construção, dividindo marmitas com pedreiros, tudo para uma reportagem da qual me orgulho muito. Ou a noite em que entrevistei um homem que se chamava Katia - mas eu não quero falar sobre isso. Essas coisas a gente carrega pra sempre.
E possuir essas referências é uma vantagem que eu e todos que já passaram pela Universidade cursando jornalismo temos. Ninguém nos tira. Nem o STF.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Quem lê tanta notícia?
às 14:06 Marcadores: Atualidades, Memórias, Mídia, Política

1 comentários:
Assino embaixo. Sei lá, me formei junto com uma galera que, na maioria das vezes, foi mais "adestrada" do que proprimente "formada". Pior que algumas nem adestradas foram, e passaram 4 anos na sala de aula ouvindo balbúcios com o ouvido direito e desentupindo o cérebro pelo esquerdo. Hoje, eles estão formados, e tem uma pessoa que nem o português sabe usar direito. Das pessoas da minha sala, aquelas que hoje são bons jornalistas, tenho certeza que não foi por causa do curso.
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