segunda-feira, 29 de junho de 2009

O amor é importante, porra - III

Tenho observado uma nova tendência nas minhas viagens à São Paulo. Eu durmo só na parte final. O que é ruim, porque no melhor do sono, eu chego na Barra Funda. E fico pensando: "eu poderia ir até Belo Horizonte só para não perder esse sono".

O acordar é entorpecido. Meio titubeante, dado o sacolejar de uma noite dentro do ônibus, sozinho entre filmes, séries no iPod, músicas, leitura e algumas ponderações escritas, mas jamais reveladas. Nada nos obriga mais a pensar sobre a vida do que o confinamento num ônibus durante algumas horas.

São ponderações que não levam a lugar nenhum na maior parte dos casos - ao menos quando o ponderante sou eu. Porque sou de pensar muito, sou de passar em revista a vida nas ondas das minhas sinapses com enorme frequência. A diferença é que preso ao ônibus, não tem jeito, forçado a pensar a gente é forçado a admitir o que vê. E que nem sempre é algo bonito.

Eu acordei em função pela parada do ônibus na guarita da rodoviária e pensei: "ah, tá brincando que a gente já chegou?". Não teve recurso. Era a Barra Funda. E às 6 da manhã de segunda-feira, pensei: "pronto, vai ser um inferno pra sair daqui, lá vai uma hora em transbordos".

E na verdade, por pior que eu pudesse ter imaginado o quadro ao descer do ônibus, saibam, ele estava muito, mas muito pior. Entre conseguir sair da plataforma, entrar na fila para comprar os bilhetes do metrô e embarcar, gastei 20 minutos. O que é um absurdo. Esmagado no tubo, desci na Sé, e distraído como só eu sou capaz, desci no sentido errado da Linha Azul, indo para o norte em vez do sul. A sorte foi que atentei para o engano antes de embarcar. Subi, desfiz o caminho, cheguei na plataforma certa.

Eu poderia contar o resto das minhas desventuras no metrô - elas não pararam por aí. Mas já cansei de falar sobre o metrô nas minhas vivências paulistanas, e mais vale abrir espaço para o novo, porque o novo sempre vem, como diz a canção. O novo nisso tudo é que não há novidade.

São Paulo, a Avenida Paulista, o caos urbano, as ruas, continuam as mesmas. Nada mudou. Mudam as pessoas. Como disse Heráclito, nada se mantém, e a luz dos incidentes e dos menores instantes, é tudo novo, tudo diferente. Por mais que não pareça.

Eu ia caminhando cismando com as novidades da vida. E confrontava-as com as minhas indolentes verdades, aquelas que nós todos temos dentro de nós. Se fossemos equações, seriam as nossas constantes, aqueles valores atribuídos, os quais se conhecem e não mudam, por mais que a equação oscile entre números irracionais, inexistentes e parábolas que não toquem as retas do plano cartesiano, que nos atestam que ou a conta está errada, ou pior, está certa e não faz o menor sentido. Igualzinho à vida.

A vida, pasmem os incautos que odeiam a matemática, pode ser profundamente traduzida em equações. Vi que minhas constantes estão aí, como o número Pi, a aceleração da gravidade, dentre outras. Vi que tais quais as suas paridades na Física, elas foram submetidas a inúmeros testes, a inúmeros confrontos com a realidade das coisas, longe dos planos algébricos e, inevitavelmente, não se viu ainda, uma delas, qualquer que fosse, sucumbir diante da verdade das coisas. Minhas constantes, está tudo dito, são constantes.

Mas o problema são as variáveis. Para aproveitar o trocadilho, é aí que está o X da questão. Da vida, da existência, do caminho. Do vislumbrar o horizonte da vida, encontrar o valor que verifique a equação como real, possível, existente no mundo das verdades.

Eu descia pela Rua Augusta e sentia cheiro de café. Café me lembra muita coisa, meu pai, amigos, manhã fria e solidão. Minha relação com o café me traz uma sensação de estar sozinho, de solitude muito grande. Há uma frase que diz que as duas mais solitárias atividades que um ser humano pode contemplar são: escrever e praticar o sexo solitário. Incluo aí com muita propriedade o beber uma xícara de bom café.

E foi aí que me veio a ideia. Café. Parei numa cafeteria, com uma mochila enorme e uma pasta menor nas mãos, mas que se foda, quero um café. Diria que preciso, porque se há místicos que enxergam o futuro e as verdades insondáveis das existências individuais na borra que o café deixa ao ser coado, não é menos verdade que eu, no meu caso, conheço bem poucas coisas que me clareiem tanto as ideias e a urina como o suco quente e amargo que nos vem da moagem do fruto torrado do cafeeiro.

E sorvia calmo o primeiro gole, feliz em deixar de lado meus cálculos e ponderações. Não procuro, por certo, valor que caiba nas minhas variáveis. É inútil. Porque a natureza dessa equação difícil de equilibrar que chamamos de vida é totalmente alheia aos padrões clássicos. Ela varia. As constantes não, mas ela, como um todo, varia. Sofre, digamos, influências da relatividade das coisas, das CNTP e outras condições absolutamente insuportáveis.

Não procuro, eu dizia, encontrar com valor que me sirva na equação. Ela vai mudar dali há pouco, e eu terei de calcular tudo novamente, o que é, afinal, a graça da vida, nos garantem os poetas. Não sei se é graça, tristeza, fato consumado. O que eu sei é que pensando na distância entre a verdade e a realidade, entre pergunta e resposta, olhei pela vitrine. Vi, estampado no poste, "O amor é importante, porra".

E, sorrindo, me peguei cantarolando: "verdade pra quê? Pra que verdade?"

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