terça-feira, 2 de junho de 2009

Visitando à Luz

Ontem fiz uma viagem até a rua Santa Ifigênia, no centro de São Paulo. Precisava de uma fonte nova para meu notebook - essas coisas acontecem comigo. Fui caminhando, meia hora, jogo rápido, voltei de metrô.

(Ponto, parágrafo. A Santa Ifigênia é uma rua notável pelo comércio de eletrônicos. Fica perto da 25 de março. É uma 25 de março para eletrônicos, basicamente. Divertido).

Mas não é sobre esse episódio que eu quero falar. Na volta fui até a Estação da Luz para pegar o metrô. A Luz é um prédio muito bonito, funciona lá o Museu da Língua Portuguesa - que nunca visitei. Além de ter sido a porta de entrada para multidões de imigrantes - provavelmente o seu bisavô, caro leitor, um dia passou por ali vindo de Santos.

Entrando na estação havia duas senhoras. E um piano. Sem exagero, a que tocava teria a altura da minha cintura, e embora seja bastante difícil precisar a idade de alguém tão mais velho, julgo não estar longe da verdade ao afirmar, caros, que ela devia contar mais de 85 anos. E tocava aquele piano, tocava com suavidade, talvez como o fariam as ninfas que encantam os incautos.

A outra senhora aparentava ser mais jovem porque tinha o cabelo pintado, mas era da altura do piano, que não era aqueles de cauda. Ela cantava. Mas não era um canto vulgar. Cantava a não mais poder com uma voz leve, suave. Os graves timbravam nos meus tímpanos me fazendo esquecer do tempo, me esquecer dos compromissos. Eu não devia ficar ali ouvindo, estou em São Paulo, a cidade que nunca para. Mas fiquei.

Mas algo irresistível me segurava àquela simplicidade. Ela cantava em italiano, como se nada estivesse ali, como se estivessemos há cem anos, onde chegavam ainda aos borbotões toneladas e toneladas de imigrantes italianos fugindo das misérias europeias daquela quadra. Ela cantava óperas que nunca conheci.

Entendo muito pouco de italiano. Acho até uma língua "feia" - acho que combina demais com tia velha histérica, como aquelas de novelas previsíveis e enfadonhas do Benedito Rui Barbosa. Mas ouvindo ali a senhora que cantava ausente do mundo, gostava de pensar que eram canções que falam da vida, da liberdade, da felicidade - embora em tom lúgubre - canções que falam do amor, da alegria, de coisas que dão certo.

Me dei ao direito de me atrasar para ficar ali saboreando a música. Não me preocupei. Apenas fiquei, relaxei, sonhei e vivi nas ondas do som fortuito e hipinotizante daquele saguão de tanta história, que viu tanta gente chegar e tanta gente partir.

E a vida é isso mesmo. Partir. Ir embora, "eu conheço o medo de ir embora", nos diz uma canção. A vida, aliás, é muita coisa, daí a dificuldade de estar consciente de sua grandeza. Para alguns ela é frustrar-se. Para outros ela é acidente biológico. Uma boa porção diz ser milagre divino. Há quem considere que é um estágio, apenas, isso, das coisas complexas e absurdas que são os seres humanos. E tudo isso é verdade. A vida é tudo isso, mas também é um eterno chegar e partir, como o que compõe toda a história da Luz, embutido num eterno retorno pra lá de nietzscheano. Chegar e partir, sempre rumo ao lugar nenhum.

Curioso, não? Todos temos ciência da efemeridade das nossas existências, estamos perfeitamente cientes da intangibilidade dos destinos, dos fatos, das histórias e de que tudo, à luz da magnanimidade do tempo, é tão vago, insuficiente e infantil. Somos grãos de areia num universo em constante e incomensurável expansão. Somos ridículos e, mesmo assim, corremos de braços dados às nossas vagas e insignificantes demandas.

A vida, mais que tudo, é uma corrida. Uma ida e uma volta rumo ao lugar nenhum.

Eu fiquei ali. Ouvi duas ou três músicas, e ficaria mais se realmente pudesse. Eu vivi naquelas canções, assim como vivo em tantas outras que me embalam e que povoam a minha trilha sonora, desse meu filme meio decadente, meio ficção científica, meio comédia romântica mal escrita, meio tragédia, meio filosofia do Bergman, meio experimento do Truffaut.

A vida de todos nós é um filme assim, multifacetado. Uns melhores, outros nem tanto. Se me perguntassem em que filme eu gostaria de viver eu diria que seria no De Volta Para o Futuro, que além de considerar a maior trilogia de todos os tempos, seria para mim, enquanto ser humano imperfeito e descontente, uma excelente novidade dispor de uma máquina do tempo para remendar minhas infelicidades, meus tropeços e fazer do tempo aliado, não ferrenho inimigo.

* A foto é minha. Tirei na minha primeira visita à Luz em outubro do ano passado.

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