Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Poesia de Eugénio de Andrade.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Adeus
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
O dia em que virei um gay em potencial
Pesquisando assuntos para minhas pautas inócuas, tropecei numa matéria da revista Época, que versa sobre a possibilidade, descoberta recentemente por cientistas, de que uma pessoa pode ter um cérebro masculino ou feminino e que isso independe de ela ter, ou não, protuberâncias anatômicas escusas entra as pernas.
Fiz o teste. E meu cérebro é machão, sim senhor. A eslaca oscila de 1 a 20, sendo que 1 são os miolos mais másculos que se pode conceber, e 20 correspondem a uma mente de menininha. Eu marquei 7. O que significa, em tese, uma viadagem latente. Sim, porque se 7 está longe de 20, por outro lado, não é menos verdade que não é o 1.
Não posso dizer que meu cérebro saiu do armário num teste de revista, afinal o mediano seria 10, e mais que isso sim significaria uma mente mulher, de fato, presa neste corpo velho, peludo e carcomido. Mas, de qualquer forma, acrescento uma nova preocupações às minhas eternas dúvidas existenciais: seria eu um gay em potencial? Eu posso ser um heterossexual com uma mente potencialmente afeminada? Ui!
Isso deve explicar a poesia. E alguns estilos musicais, tendencias para filmes. Fico feliz que existam atenuantes, como o interesse por automóveis, e video-games de tiro e degradação social.
O que constrange, meus caros, é que eu passei a minha vida toda, 24, olha aí, 24!, anos nem tão bem vividos escondendo um viadinho na cabeça.
às 01:38 1 comentários Marcadores: Atualidades, Memórias
Hai-kai nº 11 (Tributo)
A maré beija a praia sem parar.
E eu quero um mundo todo azul.
Azul da cor do mar...
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Hai-kai nº 1
Vento que leva toda a mensagem
Acaricie lento a minha face
e molde em mim toda uma nova paisagem.
Rádio: Tim Maia - Azul da cor do mar
Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir...
às 13:58 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Pergunta e dúvida
Talvez a mais longa das minhas histórias
seja aquela que escrevo todo dia...
feita de lágrimas, sorrisos, macarrão e memórias.
Feita de vitórias, derrotas e da palavra arrependida.
Neruda não era gauche na vida.
Mas a resposta, em verso, não o satisfaria.
E a pergunta, em prosa, fica assim, omitida.
Porque, diga, que graça tem a poesia entendida?
Eu diria que o que aprendi, Neruda,
foi que tudo é uma grande labuta.
E é inútil ser sincero naquilo que se sente.
Sentir é o que me faz indiferente.
Não ter palavras, quiçá coragem!
E seguir escrevendo, vivendo por uma miragem.
Mas eu te digo, Neruda, que de nada adianta.
Verso não diz a verdade absoluta.
Num primeiro instante a gente até se encanta,
depois passa, vira vazio, palavra muda.
E é assim com a minha história e resposta.
Quem dera fosse com a pergunta e a dúvida!
que ao menos me ensinaram a viver a tua vida,
e a fugir do poema que a gente mais gosta.
"Minha história com as mulheres", pergunta o Neruda...
que direi, caro amigo? É na verdade uma grande luta.
Cobriria páginas, volumes, toda uma outra vida.
Uma daquelas plena, vívida, digna e arrependida.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
7 de agosto
Você provavelmente não se deu conta. Mas hoje aconteceu um evento único, que não se repetirá nas nossas existências:
As 12 horas, 34 minutos e 56 segundos, do dia 7 de agosto (08) de 09, formaram a seguinte sequência:
12 34 56 7 8 9.
Interessante, não?
às 15:34 1 comentários Marcadores: Atualidades, Memórias
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Criatividade
O vídeo abaixo é uma peça publicitária da Olympus. Recebi a dica por email. Consta que foram batidas 60 mil fotos, das quais revelou-se 9600 para o filme. Dessas, 1800 foram utilizadas para compor o belo trabalho abaixo. O mais incrível é que trata-se de uma colagem, sem pós-produção alguma. Sensacional:
às 01:34 1 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Mídia
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Filosofando
Alguém me responda:
A Bíblia nos diz que Jesus foi sacrificado para nos redimir de nossos pecados e nos salvar do fogo eterno. A Bíblia também nos diz que se não acreditarmos nisto queimaremos no fogo eterno.
?
às 20:49 0 comentários Marcadores: Memórias
Sou uma velha senhora
Eu odeio quando uma canção me traz lágrimas,
lembranças, emoções.
Odeio. Me sinto tão menino.
Mas por que eu as ouço?
Só para preencher o verso repentino:
Eu sou mesmo feito de contradições.
Homem não chora.
Que pena.
Porque se não chora,
resta dizer que aqui,
só, nesta última hora,
existe apenas uma velha senhora.
Sou tão moço...
perco tempo com os relicários,
onde estão minhas metades
meus amores imaginários.
E um pouco das minhas saudades.
Sou de tantas contradições!
E, que me dizes?
domingo, 2 de agosto de 2009
Hum
Esses dias para quem são?
E os versos, à que se referem?
E esses sorrisos, não te ferem?
Tantas perguntas que dizem não.
