É um episódio menor na escala cosmológica da minha vida, mas voltava do cinema (conservo com muita galhardia o bom hábito de ir ao cinema sozinho) e tropecei numa dessas agitadoras culturais que abundam na região. Tratava-se de um coletivo de poesia, acho, coisa do gênero, e consistia sua agitação cultural dessa noite fria e nauseante sair perguntando para pessoas desacompanhadas uma frase de amor que tivessem ou dito, ou ouvido, em virtude de um projeto para o dia dos namorados do tal coletivo literário donde milita e onde entrega seu tempo livre. Há louco para tudo.
Alguma confluência astral deu-me vezo de respondê-la quando me abordou. De ordinário, não o faria, seguiria cismando sem dar satisfação a sanha literária de desconhecidos, perseguindo as sombras frias e me esgueirando nas garatujas que se insinuam nos muros e fachadas, me escondendo e escorrendo livre da gente sorridente que assola a região.
Mas dei atenção e respondi. "Qual a sua frase de amor, dita ou ouvida?" Não pestanejei muito, larguei um "mesmo quando estou contigo, sinto a sua falta". Algum efeito causei, porque diferente dos que tinham me precedido, à mim ela perguntou: "hum, mas você disse isso? Quando e a quem?". Fiz transparecer, esbocei, gritei pelas expressões e trejeitos minha intenção de ir embora sem dar resposta alguma. Mas, subitamente, ainda me detive, encarei a garota e disse: "minha querida, o segredo de toda literatura está em não dar todas as respostas".

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