Bioshock Infinite vai muito longe na hora de extrapolar as capacidades de contar uma história, o storytelling perfeito, perseguido por bons roteiristas de cinema. A narrativa te desafia, quebra paradigmas, coloca a belle-epocque num cenário de ficção científica, reinventa a Madame Curie, faz sonhar com Paris, mistura física quântica com feiras mundiais, põe para flutuar uma cidade inteira nos céus norte-americanos de 1912. Bioshock Infinite inclui, nisso tudo, um pano de fundo sociológico, há os anarquistas, os tiranos, os falsos profetas que usam religiões ainda mais falsas para justificar sua vida de poder, corrupção e mentiras, para flutuar pelo imaginário coletivo, dizendo e desdizendo, governando destinos e fazendo parecer que o totalitarismo é uma benção, não uma maldição. Bioshock Infinite é extremamente complexo, tão complexo que a história, e seu desfecho maravilhosamente fora do comum, só farão sentido para quem entender a realidade como uma tímida manifestação física de múltiplas possibilidades e o tempo da forma como Einstein vislumbrou: uma dimensão.
E você aí, achando que videogame é coisa de crianças ou de quem não quer crescer. Bioshock, qualquer um dos três, aliás, é só mais um jogo para mostrar que isso, hoje, não faz o menor sentido.
E, como deve ter acontecido com boa parte dos outros marmanjos que jogaram, me fez me apaixonar por Elizabeth, a NPC mais interessante e simpática da história dos vídeo-games. Ela é um caso a parte em todo o jogo. Elizabeth me resgatou do meu habitual cinismo, especialmente em video-games: eu jogo atrás de defeitos, de riso, de diversão, de alienação da minha realidade. Em Bioshock Inifinite, mesmo sabendo que Elizabeth não precisa de ajuda durante as batalhas, me via constantemente preocupado: será que ela está bem?
Ponto, parágrafo. Logo vamos chegar, neste mesmo texto, ao ponto onde dou veredito sobre o game em termos de impressões e da sua capacidade de competir com outros grandes jogos que eu joguei. Independente do veredito, se segure na cadeira se já leu até aqui, já chegamos a ele, toca dizer que Bioshock Infinite me provocou como só Journey havia provocado.
Ao veredito: É o melhor jogo que eu já joguei na vida? Não. Nem perto disso, mas Bioshock Infinite, assim como os outros dois títulos antecessores, tem aquela marca, aquela coisa da experiência, do impacto, de deslumbramento. Bioshock Infinite pode não ser o meu maior game de todos os tempos, mas sem dúvida será um daqueles que eu vou lembrar para sempre.
Nunca vou esquecer o primeiro diálogo com Elizabeth e a chegada de Mister DeWitt a Columbia, a cidade flutuante. Nunca vou esquecer essa história tão intrincada, tão cheia de detalhe, de carinho de quem fez um jogo pensando em quem joga. Bioshock Infinite devia ser vendido com um aviso na caixa: "Advertência: os últimos 30 minutos da história desse game podem causar dor de cabeça, sangramentos no nariz e crise existencial".
Que venha um próximo Bioshock. Dessa vez sem os corvos, eu quase enfartei com os corvos.

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