sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Por que eu me irrito com a patrulha animal

O resgate dos cãezinhos gerou um animado debate em que eu me vejo, já há algum tempo, incluído. Essa coisa de, hoje, tanta gente moderninha devotar desmedido amor a animais, enquanto relega a nem sempre tão brilhante humanidade a condição de ódio, rancor, um certo discurso de decepção pelo demasiado humano.

Ora, atire aí o primeiro beagle aquele que não deu com as fuças quando se fiou na humanidade.

Meu interesse na questão vem do fato de perecer de tantas amizades que comungam dessa percepção de vida. Vegetarianos, veganos, amigos que olham torto para uma jaqueta de couro - mesmo que ela seja sintética - são os exemplos que me ocorrem e com quem, ao longo já de tantos anos, venho travando discussões divertidas em que sempre me bato pelo lado do deboche.

É, no meu caso, sinceramente impossível levá-los a sério.

Por vários motivos. Não só pelas delícias da carne, das quais sou entusiasta de primeira hora, mas pela razão que me faz valorizar uma criança mais do que um cãozinho.

Sentir amor por animais não é algo que se deva escusar, obviamente. Meu problema nasce com o panfleto: a ideia de que todos, pelo bem da humanidade, deviam mudar de dieta. Seja pela poluição, pela crueldade, por qualquer razão que seja. Eu não vou na salada do vegetariano palpitar sobre os louvados transgênicos que compõem sua dieta, por exemplo, e que, paulatinamente, vão alimentando em seu bojo os mesmos tumores cancerígenos que, por seu turno, os incomodam em quem se alimenta de carne. Creio que palpitar no que orça a refeição do outro é uma tremenda falta de educação, a rivalizar com o falar de boca cheia.

Declarar que ama mais os animais do que pessoas, no meu caso, sempre pareceu distúrbio psicológico, e dos graves. Longe de me arvorar entendido nessas mecânicas, mas a única coisa que consigo extrair desse tipo de discurso é que o sujeito vota mais amor à criaturas incapazes de dizer não, de reagir, de interagir, de construir sentido e ideias complexas, do que aos humanos, extremamente hábeis em qualquer uma dessas atividades. Amar um cãozinho é muito fácil: a margem de manobra para que ele o decepcione é medida pela bosta que ele larga onde não deve.

Um ser humano pode destruir sua vida.

Esse compasso desregulado é apenas um sintoma de imaturidade, de pessoas que não conseguem votar sentimentos para criaturas mais complexas, que dizem não, se zangam, decepcionam e são decepcionadas, que mentem, que surpreendem, que nem sempre vão te amar em troca. É muito fácil amar uma criatura inferior, que não te ameaça e que não te desafia.

Considere-se o fato, também, que todo esse amor provoca perturbações. Cães de hoje eram lobos há 30 mil anos que, domesticados, acabaram sendo selecionados artificialmente, geração após geração. O cãozinho dócil de hoje é artifício da mão humana na seleção natural, não um primor de uma natureza sedenta de render uma pata amiga ao ser humano para que este possa odiar, tranquilo, seus pares, sabedor de que tem um amigo felpudo com quem conviver quando acabar sendo relegado a condição de ermitão, ou pária social.

Assim como, se pudesse, uma vaca comeria você e toda a sua família, um cão escolheria a vida isolada e distante de você. Se pudesse. Mas ele não pode, e é por isso que você o ama.

O amor aos bichinhos sinaliza um desvio de caráter: a tendência do sujeito de não se sentir confortável perante outros seres humanos. De não tolerá-los e de negar a capacidade tão nossa de sermos bichos altamente sociáveis.

Não surpreende, por exemplo, que Adolf Hitler, notório exemplo histórico de intolerância a seres humanos, concepções de mundo e raças diferentes, fosse ele também vegetariano e notável defensor de animais.

Em conclusão, é por isso que voto imatura a concepção de que animais são mais dignos de sentimentos nobres como o amor. Nietzsche, embora se referisse a deuses, disse que não há amor demais no mundo para que nos calhe o luxo de desperdiçá-lo com criaturas invisíveis. O adendo que cabe aqui é que, com efeito, não há amor que sobre no mundo que possamos dispensar para criaturinhas indiferentes.

Vivemos numa quadra em que a humanidade parece ter se esquecido do afeto por si em alguma gaveta do século 20 e em que, cada vez mais, sobram razões para lamentar a sociedade perturbada e doente que se convulsiona para salvar uma porção de cãezinhos num mundo que mata, por dia, milhares de crianças de fome. De fome.

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