quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Graaaande Camões

Meu pai adorava poesia. Era, aliás, ótimo poeta - sem puxa-saquismo - e hoje, ao encontrar uns versos de Camões, um dos seus poetas preferidos, a lembrança, as memórias e duas toneladas de saudades tomaram conta desse corpo carcomido, desta alma desditosa e desse dia aborrecido.

"As armas e os barões assinalados
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Dobraram ainda além da Tapobrana."

Trecho de "Os Lusíadas".

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Kertész era mesmo um gênio.

domingo, 19 de agosto de 2007

Carruagens de Fogo


Na madrugada da Globo (sábado pra domingo) passou "Carruagens de Fogo", filme do início dos anos 80 que versa sobre ideais do olimpismo e que acabou reforçando o tremendo clichê que abastece a temática da enorme maioria dos filmes sobre esporte. E tem aquela trilha sonora revoltante, do Vangelis acho, que foi usada a exaustão e virou chavão em vinhetas esportivas na tv.

E em comerciais também.
Na criminosa peça da Nova Schin, feito no oba-oba dos infelizes jogos Panamericanos, onde aparecem dois dedos correndo (?) para uma garrafa de cerveja, ao fundo da música tema do filme com um coro que agride a inteligência de qualquer um dizendo "ou seja cerveja" invariavelmente.

O engraçado é que os publicitários que tem essas idéias geniais crêem piamente que alguns pares de dedos embalados por uma música referenciada no esporte por conta de um filme vende mais cerveja. E os executivos também. A publicidade no Brasil, assim como outras tantas coisas, é algo muito inusitado. Procure as peças da Quilmes, que é argentina, no YouTube para fazer uma comparação e entenderá o que estou dizendo.

Eu simplesmente não consigo entender a relação de bundas e burrice com compra de cerveja. E talvez por isso eu não seja publicitário, mas jornalista.

Enfim, eu gostaria de ter visto "Carruagens de Fogo" porque fazia, e faz, muito tempo que não o vejo. Mas o diabo é que estava ocupado com o livro que tenho de escrever.

E a gente nunca pode ter tudo, afinal.

sábado, 18 de agosto de 2007

Definitivamente, há um clima de ruptura neste país. Quando se sabe que Ivete Sangalo assinou no fim de julho um contrato milionário até 2010 para ser garota-propaganda da Philips, e que dias depois foi convocada para se cansar publicamente no movimento apoiado pelo presidente da Philips, Paulo Zottolo, que em entrevista ao "Valor Econômico" diz que se o Piauí deixar de existir ninguém sentirá falta - por acaso, um dos maiores rincões eleitorais do PT - o que dizer de Ivete, da Philips e do Piauí?

Digo que essa turma, realmente, cansa. Mas ela continuará a aparecer na Globo domingo sim, domingo não, porque é uma moça de valor, do lado pessoal e profissional, ô lôco, meu.

Estamos cercados de débeis mentais.


Pois é. (2)

Escreveu Flávio Gomes...

"Gozada essa manifestação batizada de "Cansei", promovida esta tarde em São Paulo pela OAB e capitaneada pelo libertário João Dória Jr. Quando vi o anúncio no jornal com as fotos de Hebe Camargo, Ivete Sangalo, Regina Duarte e Ana Maria Braga, expressões máximas do nosso pensamento pós-moderno, pilares da moralidade, arautas (existem "arautas"?) da ordem e do progresso neo-liberal, imaginei bem no que poderia dar."

Pois é.

Ah, a OAB e a Velha Direita

Eles cansaram, de que eu não sei.

Muito a calhar essa manifestação encabeçada pela OAB-SP é alguns basbaques endinheirados que, curiosamente, só "cansaram" agora, agora que a Polícia Federal bota gente desta laia atrás das grades porque, absurdo, não pagaram seus impostos como as vacas da Daslu. Porque especificamente Hebe Camargo, a mesma que defendia, e defende, a Ditadura e Paulo Maluf (o mesmo político anasalado execrado pelos arautos da dignidade que parecem compor a OAB-SP), por que, enfim, teria esse câncer da mídia brasileira cansado, justo agora?

Não cansaram das privatizações inexplicadas até hoje? Não se esgotaram com o presidente anterior comprando votos para a reeleição conforme foi exaustivamente denunciado e convenientemente "esquecido" na época? Porque Hebe, a Regina Duarte e os demais bisbórrias não cansaram dos oito anos do tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país? Aliás, elas sabem o que é plutocracia?

Pois é. Desconfio cá com minhas experiências que, não, elas sequer fazem alguma idéia do que venha a significar o verbete plutocracia. Mas sabem como ninguém o que é a a terra onde manda quem tem o dinheiro. Onde as decisões são orientadas sempre em função de onde vem e para onde vão os fluxos de capitais. Onde os rumos são definidos, enfim, sempre em função da manutenção de um status quo.

Cansaram de que? Congonhas? Não é esse o aeroporto que tem 70 anos e que jamais, nos outros 64 anos de sua história, onde quem comandou o país foram esses plutocratas ignóbeis, passou por reformas? Aliás, em todos esses anos o planejamento dos serviços e da infra-estrutura nacional nunca, jamais, nem de perto, foi algo na agenda de planejamento, se é que, aliás, tivemos algum dia uma. Por que não cansaram do FHC chamando os aposentados brasileiros em plena Paris de "corja de vagabundos"?


Cansaram de impostos? Logo eles, que não recebem seus gordos vencimentos pela CLT para não terem de reter 27,5% na fonte?

Eles cansaram é de ver seu status ameaçado. Não querem largar o osso.

E é por isso que eu, que sempre voto nulo, olho para tamanha hipocrisia e digo-lhes, meus caros:

Descansem em paz.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Vingança!

A cena, é comum na nossa juventude. Especialmente no caso masculino. Passa aquele playboy com um carro que você nunca terá em todas as suas vidas por você. A sensação de impotência e de inveja, por que não?, aumentam consideravelmente se o mesmo estiver acompanhado da garota dos seus sonhos.

Bueno, nesse site aqui você pode vingar-se desses momentos, vendo as máquinas de Porsche, Ferrari, Audi e outros menos votados valores da cena automobilística internacional, completamente ou parcialmente destruídas. Confesso que ao ver algumas cenas, especialmente de dois carros que eu muito admiro, e que muito gostaria de ter, Aston Martin Vanquish e BMW X5, conforme mostram as fotos, reconheço que tive, antes que qualquer vontade de vingança, pena desses belos exemplares.


Aston Martin Vanquish:















BMW X5:
















Deus dá asas pra quem não sabe voar, dizem.

E é verdade.

Fizeram gracinha com a Sue Turton

Na Inglaterra, onde é tudo ao contrário, aconteceu algo de insólito. O que era para ser apenas mais uma cotidiana e, desnecessária, talvez, passagem no telejornal virou debate público nos inúmeros tablóides sensacionalistas da maior ilha do continente europeu, sobre até onde vai a gracinha e o abuso, o atentado.

A repórter Sue Turton estava de pés molhados demonstrando a caótica situação da alameda submersa quando...




O nome do tarado é Rufus Burdett, foi identificado mediante as cenas que flagram o seu delito. E eu pessoalmente, pelo conhecimento que guardo da mulher britânica, por, sobretudo, aquilo que se pode distinguir das fuças da digníssima, acho que crime maior foi Burdett ter se dado ao trabalho de passar a mão numa mulher, hum, sem tanta graça assim.

De qualquer forma, Turton, talvez escondendo certa lisonja por ter sido lembrada pelo membro - membro mão, que fique isto bem claro - de um homem, resolveu não prestar queixas.

Notem, lá atrás, o cara de branco. Certeza que rolou um diálogo assim; "e aí cara, duvida que eu passo a mão na baranga ali da tv?", "valendo quanto?", "cem libras, que acha?", "tô dentro!" - deu no que deu.


Penso, logo dexisto

Não há um só dia que valha a pena;
não há um dia pleno.
Não há dia que prometa,
metade da paixão que vivi neste poema.

Diálogos;


Um colega, visivelmente transtornado, bate-me à porta. Abro-a:

- Hum!?
- Ah, você está aí!
- Seria difícil para eu negar...

E o pior, ele exclamou isso vendo minhas luzes acesas, ouvindo minha tevê e percebendo que, de fato, havia alguém em casa.

E eu moro sozinho.
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Numa viagem, das que fazia nos tempos de desocupado, houve a infeliz circunstância de afastar-me demais de casa e acabar perdido. Além de algum desespero, o dia já declinava no horizonte, assaltava-me uma fome desusada e da qual já não lograva resolver com água ou distraindo a mente.

Foi quando apareceu numa das curvas do caminho um pequeno vilarejo, que contava com umas poucas casas, uma capelinha e um pequeno armazém. Ao último sítio me dirigi com a consciência e toda a pressa que permitem um estômago desfalecido e privado, há muito, do peristaltismo.

Fui atendido de imediato pelo dono do armazém, que logo informado das minhas privações do dia, foi logo indicando-me como melhor alternativa a carne de uma onça morta na madrugada anterior.

- É como tenho a honra de dizer ao senhor, como sabe, estamos próximos ao parque nacional e eventualmente essas malditas onças aparecem por aqui - relatava o senhor de cabelos prateados.
- Hum... E quer dizer que mataram a onça e é desta carne que o senhor me fala?
- Sim, se o senhor me permite, não há iguaria igual em toda a região que carne de onça. E timbro muito em ter o prazer de servi-la ao senhor!
- Certamente, pois traga-me então o tão afamado prato. Mas saiba desde já que tenho o apetite voraz, sobretudo no dia desgraçado de hoje, mas isso não me fará pior juiz e não pouparei vossos ouvidos das críticas que, eventualmente, me prouva endereçar à vossa cozinha - disse-lhe.
- Meu senhor, é precisamente o que eu quero.

Eu não tinha como imaginar, mas afinal de contas a tal carne de onça realmente é deliciosa. Comia com voracidade e deslumbramento digno de um deus frente ao dueto Ambrósia e Néctar. Aliás, não comia, eu a engolia com vigor quase que pelo nariz, sem respirar. Sem dúvida oferecia um espetáculo que provocaria comoções em qualquer dos que tem hábitos e conservam alguns pudores à mesa.

- Mas diga-me, esta onça deve ter uma história inaudita, posto que ao que o senhor me fala não são tão comuns nessas paragens, - me desagradava a imagem que fazia diante desse homem que me observava impassível deglutindo a carne do animal, sobretudo da maneira com que eu o fazia, e com essa preocupação, decidi encetar uma conversa - e de todo o modo, as onças não figuram no gênero de bichos que se deixam abater com facilidade.
- Oh sim! De fato, essa onça tem uma história deveras incomum - garantiu o bom homem - pense o senhor que ele invadia há muito tempo uma das fazendas da região e fazia toda a espécie de estripulias.
- Sim...
- Bem, um fazendeiro, cansado de todos os revezes, reuniu uma pequena guarnição e resolveu atocaiar o animal, e o fizeram nessa noite. Apesar de quatro tiros de espingarda a besta que te serve de almoço não caiu!
- Eis aí um animal vigoroso, pelo que parece! - disse-lhe.
- Certamente, e imagine o senhor de que o fazendeiro, ao fugir, caiu no desazo de tropeçar numa pedra, e infelizmente tombou - nesse momento senti o homem fraquejar, tremer a voz - enquanto seus companheiros voltavam com reforços e mataram assim o bicho.
- Sim, mas e quanto ao fazendeiro? - perguntei interessado.
- Oh, pois veja que desgraça, não sobrou muito dele... - disse o velho homem com lágrimas nos olhos.
- Quer dizer...
- Não sobrou o suficiente para fazer um enterro, uma barbaridade!

Diante de um desfecho tão dantesco, não tive ganas de experimentar o derradeiro pedaço da carne do prato de que já não tinha certeza se de onça ou de homem.

- O senhor está satisfeito? - disse-me o estalajadeiro.
- Oh sim, comi como uma onça.
- Que tal o sabor e a textura da carne? Excelente não? - inquiriu o homem, que certamente se preocupava com a reputação de sua cozinha.
- Posso lhe garantir que pareceu-me carne de onça.
- Bem, contando que o senhor gostou tanto, acho que não se importaria de contribuir em apoio da pobre viúva. Os demais caçadores fizeram sua parte entregando boa parte do soldo pela venda do animal e quanto a mim, estou disposto a ajudá-la. Contribua, senhor, por pouco que seja...
- Posso fazer muito melhor que isso, meu caro - disse-lhe levantando com as pernas já bambas - devolvo-lhe o marido...

E saí, cambaleante, correndo rumo à janela.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Filosofando e andando

"Deus existiu sempre? Que é sempre? Deus criou-se a si próprio para depois começar a criar o universo? Onde é que estava deus quando criou-se a si próprio? E como é que alguém se cria a si próprio? Do nada, passando do nada ao ser? Se o nada existiu, tudo que veio depois estava contido no nada. Mas se estava contido no nada, então o nada não existia."


José Saramago.

terça-feira, 14 de agosto de 2007


Sabeis quem foi Epíteto? Ou Epicteto? (falta-me erudição em matéria de nomes de gregos notórios). Pois bem, se não sabeis quem foi, não perde nada, pois eu vo-lo direi. Epíteto, ou Epicteto, foi um filósofo dos tantos que a Grécia produziu, notável por dizer ao pão, luxo, dos legumes prodigalidade e da água embriaguez; era aquele que, quando desancado pelo amo numa surra de criar bicho, dizia, resmungando, é verdade, mas sem se zangar: "aposto que vós me quebraste a perna", e ganhava a aposta.

Buenas, esse sou eu em relação à vida.

Assombração

Aos curiosos, é um antigo vapor às margens do Iguaçu na cidade de São Mateus do Sul, Paraná.

Esse barco é um nonagenário (ou octogenário, há controvérsias inabaláveis sobre a idade do dito cujo), tem nome de índio, em que também cabem outras tantas carradas de infindáveis controvérsias, pode ser Peri ou Pery e tem me assombrado os dias com o tempo que vai ficando cada vez mais e mais exíguo.

Nas cenas dos próximos capítulos, exorcizaremo-lo juntos, a conferir.


A quem interessar possa


Faltam só 5 minutos para às 4 da madrugada e eu bem que poderia estar fazendo algo mais produtivo... meu TCC, por exemplo, mas, ah, temos de evitar a fadiga e ademais sou incorrigível e resolvo outra hora.

A propósito

Lá vai meu reino para quem souber como trocar a imagem do título. Fiz uma muito melhor, mas sei lá porque difíceis artes de programação não consigo trocá-la.


A gente envelhece e perde o jeito.

Começando bem

É o primeiro blogue da minha escusa e obscura carreira de blogueiro, se me permitem o neologismo, que começo sem ter a cara-de-pau de postar algo já usado nos blogues que já morri.


Progresso?

E se é para inaugurar...

... este novo blogue, de um sujeito já nem tão novo assim no ofício, lhes recomendo o que de melhor tenho escutado, e ouvido - são coisas distintas - em matéria de música.


As belas composições de Puccini. O italiano tinha, evidentemente, o dom de botar algo em suas músicas que inspiram sentimentos fortes, em acordes vertiginosos e sensações únicas.

Procure escutar alguma execução ao vivo. É inesquecível.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Sérias. Nababescas. Terríveis. Caóticas. Cataclismáticas dificuldades técnicas avacalham com o template.

Aguarde, logo voltaremos (?) com a nossa programação normal.

domingo, 26 de março de 2006

Das Pescarias

Sê, doravante, pescador de homens (e vinhos), não mais de peixes.

Hoje pela tarde, profundamente entediado, fui pescar com um primo. Dez minutos, um peixe (só podia ser um), que a julgar pela tensão que causou na vara, era de promissor catandura, escapou-me.

Cinco minutos depois deu-se o mesmo. Confesso que fiquei um pouco chateado. Outros poucos minutos, deu-se novamente o assalto. E dessa vez ele, só podia tratar-se do mesmo pândego, rompeu a linha. Extremamente emputecido, chutei o banquinho no tanque, peguei a vara e arremessei como um dardo ao outro lado do pequeno lago e, com toda a solenidade necessária, desfiz a braguilha e mijei portentosamente n'água. Fiz tudo isso com uma consciência incrível.

Depois da cena de indignação, voltei, resignado, para o carro, ouvi música, li e fiquei desfiando comentários pouco agradáveis e muito misantrópicos à boa arte da pesca que, pelo que pude ver, não foram muito bem quistos pela enorme sociedade que, no local, dedicava-se precisamente à ela.

Quase no final da aventura, meu primo sugeriu que fosse resgatar o banco nas profundezas de uns 40 centímetros do tanque. Pedi licença para declarar que o primeiro inútil que viesse me aborrecer com essa sugestão não só conheceria o destino do banquinho como, provavelmente, seria remetido em processo similar para fazer companhia ao dito assento eternamente. Salientei ainda que detestaria causar bulha num lugar tão arcade, mas se fosse o caso providenciaria para que os peixes tirassem a desforra de seus predadores com um corpo para digerir no lago.

Me deixaram em paz e, desconfio, não convidam mais para pescar. E assim são os meus finais de semana aqui, embruteço-me, eis tudo. Sobretudo sem uma garrafa de vinho para conversar, clarear as idéias e o mijo.

terça-feira, 7 de junho de 2005

Diário de um Poeta Corrompido XIII - Das Coincidências


Coincidências povoam nossas vidas, e ultimamente algumas têm me assaltado. Vejam por vocês mesmos. Na sexta-feira passada, uma amiga me disse que no sábado anterior tinha visto Juventude Transviada na madrugada da Globo, e que tinha assistido ao filme e flagrado um ator mui semelhante com o trapizongas que lhes escreve nesse instante. Eu vi Juventude Transviada (Rebel Without Cause, 1955) - deve ser daí que vem a expressão "rebelde sem causa") já fazia algum tempo. Era um dos meus rompantes de cinéfilo culto, ver um clássico antigo. Como o filme conta com James Dean no papel principal, um dos maiores mitos do cinema até hoje, fiquei extremamente esperançoso que a semelhança fosse com ele. Entretanto, sabendo que Dean era loiro e eu grisalho, fiquei menos convicto. E de fato, me sentiria honrado em ser como James Dean. Foi o único a receber indicação póstuma do Oscar na história (por duas vezes!) e tinha arroubos de roqueiro nos tempos mais belos do rock, na minha rabugenta opinião. Era jovem, desejado e morreu cedo num acidente com um Porsche prateado.

Aluguei o filme. Me senti como Tertuliano Máximo Afonso, personagem de José Saramago no romance "O Homem Duplicado", que li há pouco tempo. Tertuliano, sem mais o que fazer, aluga um filme qualquer e descobre nele um personagem menor que era simplesmente uma cópia sua. Daí Tertuliano traça uma cruzada para descobrir o nome desse ator, alugando outros filmes e criando os mais variados meios para descobri-lo sem denunciar-se, e, enfim, conhecê-lo (livro excelente, como naturalmente são os do Saramago). Vi o filme, que é sim muito bom, mostra as desesperanças da juventude daqueles doidos tempos de Elvis, carros com rabo-de-peixe, brilhantina e desilusões do pós-guerra. Apresenta o jovem nisso tudo, é um bom filme. Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro, ou melhor roteiro adaptado, ou ainda coisa que o valha.

Foi um dos primeiros que a Warner rodou em CinemaScope. Teve algumas cenas rodadas em preto e branco mas para prestigiar a nova tecnologia acabaram refazendo tudo a cores. O orçamento do filme foi de modestos e encolhidos 1,5 milhão de dólares, uma bagatela se compararmos as produções contemporâneas. No terço final do filme há uma piscina vazia, que tinha sido usada em "O Crepúsculo dos Deuses". Não há cinéfilo que se preze que não tenha visto "O Crepúsculo dos Deuses" (clássico de 1950, narra o fim de uma grande estrela do cinema mudo, crente de que pode dar a volta por cima num desvario amalucado mui melancólico, mas para meu humor negro, extremamente engraçado), desconfio que a mansão da piscina seja também a mesma, mas isso não lhes garanto.

Vendo a fita busquei esse meu alter-ego e o encontrei no coadjuvante, que vim a descobrir, atende ou atendia pelo nome de Sal Mineo. Não só pelo nome, mas pela aparência do dito cujo, acredito tratar-se dum descendente de italiano. A semelhança, de fato, existe, vá lá (embora eu teime em protestar, Quero ser James Dean!*), mas não é assim tão profunda. O personagem de Sam é "Platão", apelido, ou John Crawford como o chamam vez ou outra no filme. O melhor amigo, senão o único, de James Stark, personagem do outro James, o Dean - Sam morre no final, aliás, John. Pelo que pude pesquisar em sites de cinema daqui e de lá, parece que Sam não fez mais filmes em que figurasse com alguma primazia no cast. Suspeito que virou artista de tv nos states, porém me falta acesso aos programas de tv daquele tempo, sobretudo os norte-americanos para confirmar a impressão. Contudo, fez uma boa atuação o Mineo o típico loser dos filmes de adolescentes norte-americanos.

A diferença minha e de Tertuliano reside no fato de que o personagem de Saramago ficou absolutamente desconcertado, eu apenas curioso. Vi o filme, achei o cara, e ponto. Me ocorreu agora, é curioso, mas nas férias escrevi sobre o fato de que numa noite sonhei que eu era o novo James Bond, o novo 007 e no dia seguinte estava a correr pelas ruas de Ponta Grossa atrás dum assaltante de bolsas femininas. Guardadas as devidas proporções, como defendi a Lei e a ordem, desconfiei que o sonho e o causo eram mais que circunstânciais e que eram predições do meu futuro. Agora me vem essa de parecer com um ator. Coincidência, seguramente.

Ontem ainda encontrei outra amiga e fui convidado a ser figurante num filme que estão rodando por aqui. O filme é um curta. Seguramente de modestas aspirações, mas digam vocês o que disserem, continua sendo um filme. Alguém pode ver e dizer: "ei, aquele figurante é a cara do James Dean!", outro dirá: "é mais o Sal Mineo", e outro: "hum, sei não, mas ficaria bem como 007". Essas coisas acontecem. Aconteceram com um ator famoso, das antigas, que eu nem lembro mais o nome. E como a história é apenas uma eterna repetição do mesmo, poderia muito bem ocorrer comigo.

Um dos meus melhores amigos é a cara do Russel Crowe (ou do Nicolas Cage no tocante ao olhar-de-peixe-morto, mas isso não sou eu quem digo) e chamei ele para ser figurante no mesmo filme. Enfim, são todas coincidências que, sem dúvida nenhuma, me credenciam para o cinema. Daqui uns poucos anos quando eu estiver ganhando o Oscar ficarei feliz em dizer no meu discurso de vencedor que vocês, meus queridos oito leitores, foram decisivos e preponderantes na minha tragetória. Os três ou quatro que estudam Jornalismo comigo fiquem certos de que serão contratados para serem meus assessores de imprensa e meus relações públicas.

Digam o que quisserem, mas de perfil guardo lá um quê de James Dean... 

*Sim. Trocadilho pedante em relação ao ótimo "Quero Ser John Malkovitch".