Diálogos;
Um colega, visivelmente transtornado, bate-me à porta. Abro-a:
- Hum!?
- Ah, você está aí!
- Seria difícil para eu negar...
E o pior, ele exclamou isso vendo minhas luzes acesas, ouvindo minha tevê e percebendo que, de fato, havia alguém em casa.
E eu moro sozinho.
-------------------
Numa viagem, das que fazia nos tempos de desocupado, houve a infeliz circunstância de afastar-me demais de casa e acabar perdido. Além de algum desespero, o dia já declinava no horizonte, assaltava-me uma fome desusada e da qual já não lograva resolver com água ou distraindo a mente.
Foi quando apareceu numa das curvas do caminho um pequeno vilarejo, que contava com umas poucas casas, uma capelinha e um pequeno armazém. Ao último sítio me dirigi com a consciência e toda a pressa que permitem um estômago desfalecido e privado, há muito, do peristaltismo.
Fui atendido de imediato pelo dono do armazém, que logo informado das minhas privações do dia, foi logo indicando-me como melhor alternativa a carne de uma onça morta na madrugada anterior.
- É como tenho a honra de dizer ao senhor, como sabe, estamos próximos ao parque nacional e eventualmente essas malditas onças aparecem por aqui - relatava o senhor de cabelos prateados.
- Hum... E quer dizer que mataram a onça e é desta carne que o senhor me fala?
- Sim, se o senhor me permite, não há iguaria igual em toda a região que carne de onça. E timbro muito em ter o prazer de servi-la ao senhor!
- Certamente, pois traga-me então o tão afamado prato. Mas saiba desde já que tenho o apetite voraz, sobretudo no dia desgraçado de hoje, mas isso não me fará pior juiz e não pouparei vossos ouvidos das críticas que, eventualmente, me prouva endereçar à vossa cozinha - disse-lhe.
- Meu senhor, é precisamente o que eu quero.
Eu não tinha como imaginar, mas afinal de contas a tal carne de onça realmente é deliciosa. Comia com voracidade e deslumbramento digno de um deus frente ao dueto Ambrósia e Néctar. Aliás, não comia, eu a engolia com vigor quase que pelo nariz, sem respirar. Sem dúvida oferecia um espetáculo que provocaria comoções em qualquer dos que tem hábitos e conservam alguns pudores à mesa.
- Mas diga-me, esta onça deve ter uma história inaudita, posto que ao que o senhor me fala não são tão comuns nessas paragens, - me desagradava a imagem que fazia diante desse homem que me observava impassível deglutindo a carne do animal, sobretudo da maneira com que eu o fazia, e com essa preocupação, decidi encetar uma conversa - e de todo o modo, as onças não figuram no gênero de bichos que se deixam abater com facilidade.
- Oh sim! De fato, essa onça tem uma história deveras incomum - garantiu o bom homem - pense o senhor que ele invadia há muito tempo uma das fazendas da região e fazia toda a espécie de estripulias.
- Sim...
- Bem, um fazendeiro, cansado de todos os revezes, reuniu uma pequena guarnição e resolveu atocaiar o animal, e o fizeram nessa noite. Apesar de quatro tiros de espingarda a besta que te serve de almoço não caiu!
- Eis aí um animal vigoroso, pelo que parece! - disse-lhe.
- Certamente, e imagine o senhor de que o fazendeiro, ao fugir, caiu no desazo de tropeçar numa pedra, e infelizmente tombou - nesse momento senti o homem fraquejar, tremer a voz - enquanto seus companheiros voltavam com reforços e mataram assim o bicho.
- Sim, mas e quanto ao fazendeiro? - perguntei interessado.
- Oh, pois veja que desgraça, não sobrou muito dele... - disse o velho homem com lágrimas nos olhos.
- Quer dizer...
- Não sobrou o suficiente para fazer um enterro, uma barbaridade!
Diante de um desfecho tão dantesco, não tive ganas de experimentar o derradeiro pedaço da carne do prato de que já não tinha certeza se de onça ou de homem.
- O senhor está satisfeito? - disse-me o estalajadeiro.
- Oh sim, comi como uma onça.
- Que tal o sabor e a textura da carne? Excelente não? - inquiriu o homem, que certamente se preocupava com a reputação de sua cozinha.
- Posso lhe garantir que pareceu-me carne de onça.
- Bem, contando que o senhor gostou tanto, acho que não se importaria de contribuir em apoio da pobre viúva. Os demais caçadores fizeram sua parte entregando boa parte do soldo pela venda do animal e quanto a mim, estou disposto a ajudá-la. Contribua, senhor, por pouco que seja...
- Posso fazer muito melhor que isso, meu caro - disse-lhe levantando com as pernas já bambas - devolvo-lhe o marido...
E saí, cambaleante, correndo rumo à janela.