domingo, 14 de novembro de 2010

Não há mais 5*

Ver "José e Pilar" é uma mistura de sentimentos. Avassaladores, como a dor palpitante de quem reconhece em Saramago um mestre no ofício da escrita e, bem por isso, lamenta-se por sua já consumada morte. Entusiasmantes, por encontrar numa versão fragmentada de seu cotidiano algo próximo do que sempre se imaginou ao grande Saramago. Nostalgia por saber que o filme não frutificará outro Saramago e não haverá outro livro a se revisar, discutir, escrever, traduzir e imprimir do mestre esperando para ser lido e impresso, outra vez, mas dessa vez no espírito e nos recessos próximos que chegam ao coração dos que o leram, o amaram, o saudaram e hoje, mais uma vez, o choraram. Com efeito, deixei a sala de cinema esfrangalhado em emoções e saudades, e em clima de quem, mais uma vez, com todos os protestos de sincera afeição, se despede de um amigo querido.

Trailer de "José e Pilar"

 

É, em última instância, o encontro com sentimentos intensos, e até inveja, porque se a carne é fraca no gênero humano, o é muito mais a mim, que lhe invejo enormemente a felicidade que teve ao conhecer e dividir boa parte da sua vida com quem estimou tanto, a Pilar, que dá nome ao filme e consistência aos sonhos de José. "José e Pilar" é um filme sobre amor e é um registro de afeição no mais alto grau, amor mais forte que o tempo, que as pessoas e que a própria morte. Digno, pois, de toda a reverência e de toda a humanidade possível em: eu invejo.

De resto, lamento hoje e sempre, até que chegue minha vez de cessar de estar, o fato de nunca ter tido a ventura de conhecer Saramago de perto. De fato, vem o filme a reparar um pouco da frustração que comungo com tantos outros pelo mundo, mas o fato é que faz falta não poder aborrecê-lo com fotos, abraços, carinhos e pedidos.

 * Digo "Não há mais" por conta desta série de acabrunhados e intrestecidos posts. E que se sucedem em 1, 2, 3 e 4. (Clique nos números!)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Haja

Bem poucas vezes na vida a expressão "fodido e mal pago" fez tanto sentido como hoje.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Modernizando as Escrituras

Os Evangelhos são antiguíssimos. Alguns textos são da Idade do Bronze. Daí o fato de serem tão rebuscados e fantosiosos. Para ajudar as ovelhinhas do senhor encontrar o rumo não mais às apalpadelas, prestarei, sazonalmente, uma espécie de ajuda: traduzirei os textos para o vernáculo contemporâneo. E o primeiro trecho é:

No original: 
Gênesis, 6, 13: "Então Deus disse a Noé: “Eis chegado o fim de toda a criatura diante de mim, pois eles encheram a terra de violência. Vou exterminá-los juntamente com a terra".

Nova versão:
Gênesis, 6, 13: "Deus disse a Noé: "O negócio é o seguinte: vocês avacalharam legal a parada e eu vou zoar o barraco. Vou tocar o horror e matar todo mundo".

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Hai-kai nº 39

O dia se esvai
eu sorrio sossegado
e faço um hai-kai.

Hai-kai nº 38

Cruza as pernas
acelera meu pulso
e o coração vira baderna.

Hai-kai nº 37

Haja marra!
Haja preguiça
quando canta a cigarra.

Hai-kai nº 36

O infinito é onde
meu sonho de menino
se esconde.

Hai-kai nº 35

Hai-kai sem métrica
é uma anarquia
estética

Hai-kai nº 34

Dama da noite
exala seu perfume
qual açoite.

Poesia para se conformar com a calvície

Coço a cabeça com suavidade
os fios que caem
levam a minha vaidade.

Hai-kai nº 33

Água vai pela calha
e escorre
água pula e morre.

Hai-kai nº 32

A estrela que explode
é um jeito de dizer
que o universo tudo pode.

Hai-kai nº 31

Nuvens escuras
me roubam o sol
e choram suas escusas

Hai-kai nº 30

Cabelo pela testa
é calvície
que não tem pressa.

Hai-kai nº 29

Deitada no chão
tua sombra é só contraste
da minha tentação.

Hai-kai nº 28

A alegria
é só o defeito
da melancolia.

Hai-kai nº 27

Vivo com gosto
mas o que vale mesmo
é ser o meu oposto

Hai-kai nº 26

Para o vaidoso
o mundo se descortina
ruidoso

Hai-kai nº 25

Vivo acelerado
porque pode ser que a vida
tenha me abandonado

Hai-kai nº 24 (sem métrica)

Que medo me bota
essa vida que se comporta
como se fosse agiota