Provavelmente, um dos assuntos que mais discuti na vida foi: "o automobilismo é ou não esporte?". Os mais obtusos, que dizem que não é, fiam-se na tortuosa linha de raciocínio de que o carro faz maior parte do trabalho e, portanto, não é esporte, porque não se mede capacidade física do piloto, mas sim, recurso técnico do automóvel que dirige.
Raciocínio rasteiro. Primeiro porque não é exclusividade do automobilismo usar um aparato tecnológico. Quem desce de bobsled faz a mesma coisa. Nadadores com aqueles maiôs nadam mais rápido que os que não dispõem do recurso. Skatistas dependem do melhor skate. Ciclistas tiram partido da bicicleta moldada em fibra de carbono. O mesmo para quem rema, desce corredeiras e assim por diante.
Segundo que o carro, até aqui, independende se kart, fórmula, stock, turismo ou protótipo, não se move sozinho. É preciso uma porção de sangue e carne razoavelmente doida dentro deles para que se movam, disputem freadas, passem uns pelos outros, encarem curvas cegas, retas alucinantes e assim por diante. Digam o que disserem, mas para encarar uma corrida, vá lá, de Fórmula 1, é preciso: espírito de competição, força de vontade, perícia, talento, sorte e resistência. Todas qualidades encontráveis em qualquer esporte.
Terceiro. O automobilismo exige do piloto e do time por trás dele. Pilotos de Fórmula 1, para ficar no referencial comum, encaram curvas que os submetem a forças de 4, 5 vezes à gravidade. Pode parecer distante, confinados que estamos aos nossos modestos 10 m/s² de todos os dias, mas basta dizer que uma pessoa sem preparo, submetida a acelerações desses calibres, pode simplesmente desmaiar. Calcule aí o tamanho da besteira se um sujeito sem preparo para o esporte se enfiasse num carro e desmaiasse, a uns bons 200 por hora, na saída de todas as curvas.
Equipes de qualquer categoria, das grandes às pequenas, demandam talento, recursos e trabalham mirando algo que é o cerne de qualquer competição esportiva: o aperfeiçoamento. No automobilismo de ponta (Fórmula 1, NASCAR, Indy, Mundial de Rally, Mundial de Enduro) falamos de pentelhésimos de segundo. Do detalhe aerodinâmico, aquela fração a mais de pressão do turbo, o regime de trabalho do motor, que significa mais economia de combustível ou desempenho.
Automobilismo é um esporte, com suas particularidades, mas ainda assim, esporte. O carro e a equipe desempenham um papel muito grande na performance final, isso não se discute. Mas o que faz diferença, ainda, é o homem. Do contrário, qualquer Felipe Massa seria um Alonso. E nós sabemos que não é, porque em última análise, o diferencial entre um e outro, ainda é o talento. Ou para ficar num referêncial mais justo: Lewis Hamilton anda de McLaren, é campeão do mundo, e é um tipo de showman. Corrida com ele é espetacular. Ele não desiste nunca, divide freadas, corre com sangue no zóio. Jenson Button, também de McLaren, poupa o equipamento. Conduz com fineza e delicadeza a ponto de que seus pneus ficam conservados por mais tempo, o que o coloca em posição privilegiada na hora de definir uma estratégia para a corrida e, não raro, o deixa melhor calçado que todos os concorrentes naquele momento em que as corridas se decidem.
Neste último fim de semana não tivemos Fórmula 1, mas tivemos algo melhor. As 24 Horas de Le Mans. Uma corrida realizada há quase cem anos, em estradinhas vicinais do Le Sarthe, região da França, onde se dá o evento. Leva o nome de Le Mans porque Le Mans é a maior cidade das que envolvem o percurso de 13 km. É uma corrida que mistura quase 60 carros, entre protótipos avançadíssimos, como os e-tron da Audi, que venceram a corrida, e carros de turismo, como Porsches, Ferraris e Corvettes. Os e-tron são carros híbridos, com motores elétricos e a diesel, tração nas quatro rodas e tecnologia tão alta quanto os F1.
Quarto. Automobilismo move paixão. E esporte precisa ter paixão. Tudo na vida, aliás, precisa de paixão. Talvez um pouco mais que paixão, é algo intangível, que tem a ver com a nulidade de se buscar ser mais rápido que o outro, correr, correr, correr e não chegar a lugar algum. E mesmo assim, arriscar o pescoço tentando. Algo como Bruce McLaren definiu: "Fazer algo bem feito vale tanto a pena, que morrer tentando fazer melhor não pode ser loucura. A vida é medida por realizações, e não por anos" (e ele morreu numa pista). Automobilismo é a busca desenfreada e escamoteada da morte por aquele que, temerário, a desafia. Mas há muitas formas de compreender a paixão que as corridas movem em que se sensibiliza por um V8 gorgolejanto reta abaixo.
Mas poucas resumem tão bem o espírito desse esporte como as imagens abaixo. Aconteceram nesse fim de semana, nas 24 Horas de Le Mans. Na primeira delas, o Dumas, um dos pilotos do Audi #3, perde a frente em uma curva boba. Ali eram ainda 4, 5 horas de prova. Erro bobo. Outros poderiam ter desistido, outro tipo de competição, que não as 24 Horas, seria fim de prova. Para Dumas, não. Ele desce do carro, remove os escombros da parte dianteira, dirije até os boxes com um carro esbagaçado e uma das rodas dianteiras, das que definem o rumo, se equilibrando em braços de suspensão bastante avariados. O Audi #3 é reparado em uns 30 minutos, retorna à pista e encerra sua participação, no domingo, com um honeston quinto lugar na classificação geral.
E a outra, aí sim, mais simbólica. Motoyama conduzia o inovador DeltaWing da Nissan, quando foi defenestrado por Nakajima, que andava de Toyota. O regulamento de Le Mans permite que o piloto mexa no carro em caso de necessidade, mas proíbe qualquer auxílio externo de fiscais e mecânicos. Mecânicos só podem operar reparos nos carros quando eles chegam aos boxes.
Não era o caso. Por conta disso, o time mandou uma comitiva de mecânicos para perto de onde deu-se o sinistro. É comovente vê-los instruindo Motoyama por duas horas, embora o vídeo abaixo seja editado para poucos minutos. Motoyama tenta de tudo para fazer o carro voltar a funcionar, o que o permitiria guiá-lo aos boxes, onde reparos mais substanciais seriam feitos.
Motoyama não teve sucesso na empreitada e chorou copiosamente. Foi aplaudido pelo público. Vale o registro de que o DeltaWing não disputava a vitória geral e em sua categoria. Era mais ou menos um figurante. Mas as 24 Horas de Le Mans são tão enormes em termos de competição esportiva que o que realmente vale para a maioria é terminar a prova. Motoyama chorou porque o inovador carro da Nissan abandonara a prova, e não porque perdia um troféu.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Automobilismo é o meu esporte
às 15:13 4 comentários Marcadores: Fórmula 1
terça-feira, 12 de junho de 2012
O melhor 2
Escrevi ali sobre o quão impressionado fiquei ao encerrar a campanha de Red Dead Redemption. Faltou dizer que vou me afogar no meu próprio veneno, corroído pelo rancor e pelo ódio inexorável se a Rockstar não providenciar uma continuação.
Que venha o novo Red Dead Revolution. Ou Revenge. Ou Ressurection.
às 18:51 0 comentários Marcadores: Cultura, Games
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Rádio: Ennio Morricone - The Man With the Harmonica
Essa facilidade de sintetizar personagens complexos em canções de 3, 4, 5 minutos que Morricone tem é algo que não veremos mais. Ninguém lhe chega aos pés neste talento.
às 18:32 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Rádio blogue
O melhor
Eu joguei, e ainda jogarei, muito video-game na vida. Mas desconfio que já conheci o melhor jogo de todos os tempos. Sim. Red Dead Redemption é tão avassalador que você se sente triste de encerrar o jogo e eu duvido que vá conhecer outra produção tão perfeita, tão esmerada, tão rica e múltipla em possibilidades como Red Dead Redemption.
Ambientação, produção, cenário, História, roteiro, referências, personagens carismáticos, aventura, ação, jornada, reviravoltas, trilha sonora. Cada um desses quesitos já faz de Red Dead Redemption um jogo especial, maiúsculo. Unidos os itens e você tem nas mãos um clássico instantaneo, como "Era Uma Vez no Oeste", clássico esmagador de Sérgio Leone onde o jogo buscou tantas e tantas referências.
Eu queria poder apagar a memória que tenho de Red Dead só para poder jogá-lo novamente, como se fosse tudo inédito e novo.
Farei meus filhos jogarem RDR e caso com a mulher que tenha tanta admiração quanto eu por este clássico que transcende games e cinema.
às 16:49 0 comentários Marcadores: Cultura, Games
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de te ouvir
Foi o que aconteceu com Ernando. Dono do pior nome possível já enunciado em má literatura digital, nosso anti-heroi - pudera, com um nome desses - teve a epifania quando ela já era totalmente escusada. Escalou o Everest da discussão, no pico admirou a compreensão do todo e respirou fundo, com a certeza da vitória na discussão. O problema é que já não tinha mais discussão, ela enrubescera subitamente e se fora. Ensombrecido por qualquer desses tropeços financeiros que nos amargam a existência e por uma infeliz discussão que encerrara há pouco, Ernando, o homem a quem muita falta faz um F, por qualquer uma dessas artes do destino que regula as frequências e o ordenado caos das sinapses, foi lembrar dela, justo dela.
E para inundar este texto de referências que o autor não tem, vale colocar mais uma, puxada pelo gancho que é este "justo dela". Num só momento, Ernando, o homem do nome mais esdrúxulo já pensado, lembrou de Humphrey Bogart. Qual era o filme? Ah sim, Casablanca. O portentoso Casablanca, o esmagador, inoxidável “e único filme em preto e branco que vale perder tempo assistindo”, dizia consigo. Era aquela cena em que ela, sempre tem ela, entra no bar e Bogart diz qualquer coisa com "com todos os butecos do mundo, ela entra no meu, justo no meu". A frase pode parecer meio besta, mas é preciso considerar alguns atenuantes. Primeiro, é Casablanca. Segundo, é Bogart. E terceiro, o homem diz o diabo da frase com toda e tanta verve que não há como não considerar este um dos pontos mais altos do cinema no século XX.
Ela não entrou no buteco de Ernando por uma série de motivos, dos quais o principal é fato de que ela não vai a butecos. Ou não ia. Onde ela entrou, e não devia, foram nos pensamentos de Ernando, que podem ter, e provavelmente têm, todos os defeitos deste mundo, mas ainda não estão avacalhados que cheguem ao ponto de serem comparados a um bom boteco de esquina. Ela esgueirou-se para dentro das sinapses com tons de escarlate que não eram seus. Ernando involuntariamente se vê dono da melhor frase que poderia ter dito meia-hora atrás, no calor da escaramuça verbal: "foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir tuas idiotices".
Ernando sempre se considerou um sujeito de péssimo desempenho em confrontações. “Não é comigo, tenho uma sina, um defeito de não saber me defender”. Ernando não é do tipo indefeso, porque o ar blasé de quem parece já ter visto tudo esconde uma mente febril e imaginativa. Quando quer, sabe ser sagaz. Fisicamente, embora não fosse ilustrado em nenhuma dessa brutalidades que se dá o hipócrita título de arte marcial, tinha lá físico aquinhoado o suficiente para opor resistência a quem quer que fosse. O problema de Ernando era não saber dispor corretamente de seus predicados e isso o fazia sempre presa fácil na mão de rufiões da adolescência e, agora, de mulheres histéricas. “Eu não sei discutir, eu não sei reagir, eu não sei me defender”. “Pareço uma menininha indefesa”. Ernando considerava, de longe, este o seu maior defeito e se desafiava pensando como pudera escolher uma carreira no Direito. “Tenho a vantagem de que no tribunal fala um de cada vez. Fosse o tribunal como os meus relacionamentos e as humilhações que sofri na adolescência, onde todo mundo fala e grita ao mesmo tempo, e eu estava bem fodido”. “Não que não esteja especialmente fodido agora”.
É importante o uso do "tuas", pensou. "Dá um relevo, algo de solene, de definitivo", diz consigo mesmo, para logo se escusar, "agora é tarde. Não há mais nada para ser dito, devia ter pensado nisso antes. Mas nunca penso. Em geral, a gente nunca pensa, nunca está preparado para dizer a coisa certa na hora certa". Ciente de que a peleja verbal com a agora ex estava inapelavelmente perdida, Ernando pegou-se pensando nos odores que os corpos exalam. Vivos, suor, flatos, secreções, pus. Mortos, músculos relaxam e há quem peide e cague depois de morto. Ernando tropeça em relatos desses com frequência quando mete-se a defender casos de assassinos. “A melhor prova de que a vida é uma merda é o fato de que, mortos, a gente ainda tem a liberdade de dar uma cagada”.
Algo fedia no ar.
Ernando, o homem a quem fez muita falta um escriturário responsável, pensava, antes de tudo, nos problemas financeiros e no desazo que teve ao investir na compra do apartamento que vê, agora, estragado para todos os fins e propósitos. "Vai desvalorizar". Ao mesmo tempo, embala suavemente o copo de uísque para ouvir as três pedras de gelo bater no vidro e fazer barulho: “chocalho”. "Essa merda vai desvalorizar pra caralho, aliás". Dá uma olhada para o centro da sala, como quem diz "fodeu". Remata a conclusão com um suspiro e um gole generoso no uísque, que constata, está já aguado demais.
Ernando não tinha planos para acabar o dia meio sentado, meio deitado no sofá, camisa desabotoada, e o uísque de má qualidade fazendo hora extra diante de suas fuças. Nem pensar nela, muito menos armar-se do argumento definitivo para expulsar mais um namoro cancerígeno quando é tarde. “Pior de tudo, foi o tumor que veio me expulsar de sua vida, mas dessa merda eu me livrei, te extirpei”, diz como que falando para ela. Sempre tem ela. Além do amargo encontro, Ernando não tinha a menor intenção de verr o investimento de uma vida desvalorizado. "Pior que doença".
O homem a quem fez muita falta mais sanidade e critério dos pais na hora da escolha do nome calculou que os próximos dias seriam mais amargos e insossos que o uísque que decantava no seu copo todos os seus remorsos. “Meu nome... minha avó morreu me chamando de Fernando. Nunca soube se por algum tipo de birra de gente velha e ranzinza ou se, simplesmente, porque não lhe cabia na cabeçorra que seu filho era retardado demais para batizar uma criança”.
Na sala, à luz do fim de tarde lento e sossegado daquela quinta-feira, Ernando foi acostumando o corpo com o lugar e a circunstância. Desafiava-se a si mesmo para ficar imóvel, feito uma pedra, "você tem um coração de pedra", ela tinha dito num dos tentos que logrou na discussão de meia-hora atrás e ao qual não encontrou Ernando resposta. “A merda é que perdi de goleada, se você for pensar”. "Você tem um coração de pedra", pensou Ernando que, se ele tinha um sedimento rochoso fazendo às vezes de miocárdio, era de se presumir que ela carregasse dentro do peito um buraco negro de atenção, fraqueza, frivolidade e total ausência de sentimentos. "Mulheres", disse.
"Pelo menos ela tinha peitões". Ernando lembrou da adolescência e de quando começou a se interessar pelas curvas, apêndices e particularidades anatômicas que determinam o dimorfismo sexual e fazem das mulheres a poesia que são. Lembrou que não tinha muito interesse em seios, gostava deles e daria 10 anos de sua vida para apertá-los todos os pares que se revelavam a seus olhos gulosos nos corredores do colégio, não há dúvida quanto a isso, mas a questão é que não dava aos peitos a importância que hoje dá. Via neles determinantes anatômicos que classificavam as garotas como gostosas ou não, em diversos níveis e patamares, que eram, e ainda são, definidos mediante consenciosa e extensa lista de requisitos, que sopesa aí além dos supramencionados pares de tetas: coxas, textura da pele, tipo de cabelo, bunda, voz, cor dos olhos, espessura da cintura e graça ao sorrir e principalmente, andar.
Ernando nunca alterou sua lista de determinantes, mas o que mudou, percebe-se agora, é a equivalência de cada ítem e a hierarquia deles. Se antes os peitos valiam menos que uma bunda escultural, hoje, reconhece, valem tanto quanto. O que teria acontecido? "Envelheci, foi isso". E, de mais a mais, Ernando reconhece que os tempos de colégio não lhe foram prodigiosos na arte da conquista, fruto das chacotas de que era alvo em virtude do nome ridículo que ostentava, acabou caindo em uma fase especialmente depressiva e isolada do mundo. À ele bastava imaginar-se dedilhando os peitos, bundas, coxas e cinturas que via pela frente naquele tempo de ebulição hormonal que nos devora as entranhas, fazendo de reclame de lingerie justificativa mais que suficiente para uma rápida, sôfrega, lambuzada e gloriosa, punheta.
Tornando a pensar na vadia, deu o grito de libertação que irrompe no peito espezinhado e pavimentado de todo homem mais ou menos são depois de um rompimento. “Eu vou avacalhar tudo nesse apartamento. Vou criar ratazanas nos lençóis, vou alimentar baratas na louça. Que se foda, eu vou virar essa merda toda de pernas pro ar. Não vou deixar a janela aberta, aqui não nasce mais sol. Que se foda. Vai brotar mofo na penumbra estéril daquele quarto. Meu desodorante será o formol, meu sorriso decadência. Eu quero anarquia, desordem, odor”. Ela era tarada por organização. “E eu estou ficando por liberdade”.
às 16:09 0 comentários Marcadores: Contos
O último
Clint Eastwood, o último macho:
"You going to look awfully silly with this knife sticking out of your ass".
às 14:17 0 comentários Marcadores: Cinema
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Mais Reversos
Reversos, o filho das minhas ideias confusas, foi pauta da revista Veja São Paulo. E deu entrevista. Estou ficando acostumado e dentro de breve contratarei assessores para cuidar disso.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Arte da beleza
Eu sempre fui meio obcecado com manifestações artísticas que remetam ao pensamento, à densidade e, sim, à tristeza. Nunca entendi a censura que sempre veio acompanhada de um elogio ao Sigur Rós, uma canção de fossa do Johnny Cash ou um livro de retumbante carga dramática, algo do Bukowski, ou uma daquelas inebriantes sucessões de desastres, pranto e rasgos da mais amarga e esmagadora filosofia que advem da leitura de qualquer um dos romances do Herman Hesse.
O rir, a arte que lhe faz esboçar um sorriso é também muito importante. Mas não é bela. A beleza da arte só é dada a coisas que nos façam pensar, sentir e chorar.
O belo, o bonito, é triste.
às 17:04 3 comentários Marcadores: Aforismos, Cultura
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Rádio: Eduard Khil - Я очень рад, ведь я, наконец, возвращаюсь домой
A célebre vocalização de "Eu estou feliz porque finalmente estou voltando para casa", em libérrima tradução, levada a cabo por Eduard Khil, em 1976 para a TV soviética. Ele precisou vocalizar a música para não cantar a letra original, que faz uma porção de referências elogiosas aos Estados Unidos. Caso a cantasse, provavelmente, teria sido mandado para a Sibéria.
Descanse em paz, Eduard Khil.
às 22:54 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Aforismos - Dor de dente
"Até hoje não houve filósofo que padecesse pacientemente de uma dor de dente".
Shakespeare
Esta é, caros oito leitores, a verdade do universo que temos para hoje.
às 12:05 1 comentários Marcadores: Aforismos
domingo, 3 de junho de 2012
Poesia é anarquia
Escrevi logo aí abaixo uma gracinha qualquer sobre poesia. A definição, para fazer rir, guarda lá uma certa sensibilidade estética que, no entanto, não vale à pena explicar. O fato é que nesses últimos tempos, de muito verso e pouca poesia, vale sim gastar mais tempo, fosfato, letras e sinapses para dar uma definição mais ajambrada do que é poesia. Ao menos nas minhas contas.
Lembro que nunca fui muito bom com versos e devo salientar, inclusive, que a bem da verdade, hoje, não o sou. E, dada a minha propensão natural à absoluta mediocridade, é bem capaz que nunca o seja. O que acontece é que a poesia é uma forma de expressão, de coagular sentimentos, de transpirar qualquer coisa que caleja a alma. Os requintes estéticos e a qualidade do verso, que no meu caso está muito longe de excelente, são detalhes. Não sei se dá-se o mesmo com todo mundo, mas ao menos no meu caso, fazer poesia é libertar-se.
O fato de que a qualidade dos versos esteja longe dos bons padrões não quer dizer que eu não tenha esmero com eles. Pelo contrário. Há poemas publicados neste blogue que levei meses, mais de um ano, para terminar. E há, no dashboard do blogue, umas duas dezenas de projetos abortados, esperando o carinho de um sujeito que só escreve quando compungido de dor, transpirando paixão, fedendo a derrota, sorrindo abobalhado por uma rima inocente que dê num bom hai-kai.
O que nos leva, aí sim, a uma tamanhuda definição de poesia, essa sim justa com a mais desmerecida das também bastante desmerecidas artes literárias: “os poetas não terminam seus versos, eles os abandonam”. É um caso das frases que invejo. Morro de inveja de uma porção de frases por aí, daria um rim para ter dito “a insustentável leveza do ser”, por exemplo. E também para ter definido poesia, versos e poetas com esse canhoaço de precisão.
Terminar um poema é descarregar-se de um fardo de emoções. É desistir dos versos, reconhecer que por mais que se esprema a criatividade, não pinga nenhuma construção mais bonita, nenhuma metáfora, nenhuma rima.
A frase, de Paulo Valery, veio-me trazida, aí sim, por um brilhante poeta, a quem meus versos escorrem, derretidos, de tanta vergonha por sua inerente mediocridade. O poeta é Junior Bellé, caro amigo, que meio sem querer me fez poeta de meia pataca e concorreu sobremaneira para que meus disparates rimados virassem, vejam só, música. Junior sempre foi poeta, e dos bons, sempre teve facilidade com rimas e alusões a tudo que nos cerca e é questão de tempo para que seu esmagador talento com as palavras ganhe todo os panegíricos que merece.
Comecei esse texto com a intenção de definir poesia na minha vida. De certa maneira o fiz, poesia é uma forma de coagular sentimentos que escorrem feito lava do coração da gente. É um jeito de libertar-se. Poesia é uma forma de revolução, porque preconiza a reinvenção, a criação, a mutação. A anarquia estética com palavras e sentidos. À poesia é dada a licença de não fazer sentido e, ainda assim, nos embasbacar quando revela a compreensão de um sentimento simples, de uma situação corriqueira ou de decepções pueris. Não há má poesia, há maus momentos para certas poesias.
às 05:28 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Aforismos - Poesia
Poesia: qualquer porção de palavras que não alcancem direito as margens.
às 18:45 1 comentários Marcadores: Aforismos
Rádio: Red Army Choir - Kalinka
Kalinka, Kalinka, Kalinka, Kalinka moya!
às 01:05 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Reversos
Eu já vos aborreci com a história de que virei compositor dias atrás, quando um teaser foi veiculado com um dos meus poemas musicados, naquela oportunidade foi usado "Como estragar um poema promissor nº 1", musicado por FélixBravo.
As patacoadas que me coube dizer sobre o Reversos estão neste post original, onde explico que João Félix e Bernardo Bravo consertaram o poema que estraguei. A eles, agora, soma-se o talento de João Sobral, Beto Só e Jardim das Horas. A emoção é a mesma, até maior, mas iludem-se os caros oito leitores se acham que vou escrever tudo, novamente. É muito talento num só parágrafo e que, por acaso desse destino louco, acabou dando vida e se apropriando de maneira irresistível dos meus poemas lamentáveis.
E, hoje, volto ao assunto porque, enfim, foi divulgado todo o disco. Com todas as poesias, Lado A e Lado B. Eu sou autor de quatro delas, mas não canso de ouvir todo o disco. Há muita coisa bonita, muita criatividade, talento e boa vontade unidas neste projeto.
Fica o convite, ouça aqui.
terça-feira, 29 de maio de 2012
O maior piloto de Fórmula 1 que você nunca viu
O Gran Turismo 5 resolveu chamar-me, por bem, "Cronômetro Humano".
Fica mais uma vez confirmado que a Fórmula 1 perdeu um grande campeão.
Para quem não conhece, isso é GT 5:
às 19:21 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, Games
Aforismos - Nostalgias
"Se fosse bom não teria sido uma merda".
Sábias palavras de um não menos sábio amigo, que não satisfeito em lograr esse êxito na arte de aforismos, onde figuram em relevo figuras da dimensão de Oscar Wilde, dentre outros menos votados, ainda rematou: "ainda vou ver essa frase no Facebook sendo creditada ao Gandhi".
Sábio.
às 19:06 0 comentários Marcadores: Aforismos
segunda-feira, 28 de maio de 2012
"Um Dia de Cão" é a quase obra-prima de Sidney Lumet
Sidney Lumet é o tipo de diretor que dá uma cara bem marcante para cada filme seu. Apesar de parecer o contrário, não é algo assim tão comum. Há centenas de diretores de bons filmes que são irreconhecíveis a cada trabalho. Mas há outros que parecem assinar, de maneira intangível, cada trabalho de modo que você os reconheça sem precisar consultar o IMDB.
E com isso não estou me referindo a diretores que transformam estilos em clichês. Exemplo: Quentin Tarantino não "assina" cada filme seu com esse toque especial, ele simplesmente inunda as cenas de sangue e exagera em tudo. Isso é um clichê nos filmes dele e esvazia qualquer análise.
Trailer:
Falo de toques mais suaves, mais especiais. É o caso de "Um Dia de Cão" ("Dog Day Afternoon", de 1975). É um dos filmes mais interessantes dos anos 1970. A história gira em torno de um sujeito, que submetido por pressões diversas, decide roubar um banco. Tudo dá errado, o roubo vira uma tragédia em potencial, o personagem se mostra cada vez mais complexo e o roubo acaba se transformando em um circo da mídia.
Mídia que é, talvez, uma das grandes assinaturas de Lumet neste filme. Outro longa do diretor, infelizmente morto em 2011, é "Network", que é de 1976 e, entretanto, é tão ou mais atual que qualquer seminário de crítica de mídia contemporâneo. A temática e a sensibilidade de se observar as reações das massas e comportamento da mídia são suaves em "Um Dia de Cão" (e centrais em "Network"), mas, ainda assim, ecoam enormemente no filme de um ano depois. Aliás, "Um Dia de Cão" levou Oscar de melhor roteiro original e "Network" chutou o balde com roteiro original, melhor ator, atriz, e atriz coadjuvante.
"Um Dia de Cão" é a quase obra-prima do diretor não por ficar devendo algo, por pecar em algum ponto importante. O filme é a quase obra-prima de Lumet simplesmente porque ele fez filmes ainda melhores, como "Network" - o que não desmerece, em absoluto, "Um Dia de Cão", pelo contrário, apenas demonstra o alto nível e o talento esmagadores de Sidney Lumet em sua obra.
Talvez a grande semelhança entre o filme de 1975 e o de 1976 seja a capacidade de Lumet colocar os personagens em perspectiva e revelar, mesmo naqueles que fazem participações bem curtas, algo de especial, de humano, de crível. Algo que faz você olhar para aquela figura e presumi-la no mundo real, porque você enxerga nela profundidade. Via de regra, espera-se esse trabalho dos atores, mas o que mostra o dedo do diretor nestes dois filmes é a capacidade de conseguir essa expressão de vida em atores menos talentosos e que sumiram com o tempo. É o caso do gerente do banco, solícito, gentil, que deixa escapar que torce pelos bandidos e não se importa tanto com o banco. Mas ainda assim, em dada altura, amaldiçoa o momento em que os bandidos atrapalhados escolheram seu banco.
Talento não é problema para o ator incumbido do personagem principal, concedido a um jovem, e já brilhante, Al Pacino. Em duas horas de filme, nos convencemos a cada instante e intervenção de Sonny, personagem de Al Pacino, que ele é uma vítima das circunstâncias e não um mal sujeito. Torcemos por ele e esperamos que tudo dê certo porque Sonny é como cada um de nós, que um dia bateu a mão na mesa e resolveu sair por aí cortando gargantas e hasteando a bandeira negra. Não é um defeito. Ele é a insurreição que sufocamos a cada dia ruim de trabalho, escrotice do seu superior, má notícia do seu time de futebol, pressões injustas de quem você ama. Sonny é eu e você, só que é eu e você indo onde a gente, normalmente, não ousa ir.
Desde que vi "Um Dia de Cão" pela primeira vez, sempre fiz uma referência mental com "Dia de Fúria", com Michael Douglas. A referência não é tanto pelos filmes, mas pela personalidade sufocada dos personagens principais. Se você tiver curiosidade ver "Um Dia de Cão" fará mais ou menos o mesmo raciocínio e se supreenderá torcendo pelo bandido.
Torcemos por Sonny no filme porque somos humanos. Torcer por um assassino, ou neste caso, um assassino em potencial não deve ser motivo de vergonha, porque não torcemos para ele matar pessoas, torcemos para que ele salve seu pescoço e dos reféns. Torcer por um bandido em um filme, nessas premissas, é algo que não deve abominar o humano em você, mas sim reforçá-lo.
"Um Dia de Cão" é basicamente uma grande paródia que revela um prisma para colocar a vida em perspectiva. A questão das pressões sufocadas que levam um homem comum a roubar um banco, ou neste caso, tentar. O comportamento inconsequente e burro das multidões, o despreparo policial, o vazio da mídia.
O longa coloca todas essas coisas em foco e permite até mesmo rir do vazio em que estas questões caem rotineiramente. Caso da idiotia policial, que chega ao ponto de alimentar bandidos e reféns dentro do banco, em lugar de traçar uma estratégia para encerrar o episódio e resgatar os reféns para a segurança.
Trechos memoráveis:
A própria cordialidade dos bandidos em relação a seus reféns, num contraste com o que se espera de um assalto mal sucedido e com o próprio comportamento da polícia. Boa parte do filme usa essas duas tangentes para construir a impressão de que, mais do que ineficiente, a postura da polícia é inútil, porque os reféns não tem motivo para querer sair dali.
O delicioso roteiro de absurdos de "Um Dia de Cão" guarda, ainda, uma interessante surpresa. O ângulo diferente, que pega o espectador de surpresa: trata-se da esposa de Sonny. Em dada altura, ele exige que a busquem, porque precisa se entender com ela, explicar porque resolveu roubar o banco e tentar a reconciliação para que, na hipótese de sua fuga negociada funcionar, ela escolha seguir em sua companhia.
Tudo muito simples até que a esposa surge. Ela é ele. A esposa, amada de Sonny e motivo primeiro para o assalto, é Leon. Um homem "preso num corpo de mulher", como diz, e que precisava do dinheiro para a cirurgia de mudança de sexo. É incrível como o filme, já inteligente, fica espesso, denso, cheio de mensagens e ângulos para se observar.
Um deles é a reação da multidão que acompanha o desenrolar do episódio. Antes, ela era favorável a Sonny e sua maneira de provocar os policiais, porque isso a divertia. Depois que descobre que Sonny é bissexual - estamos em 1975 e, ainda assim, as coisas não mudaram tanto de lá para cá - ela passa a se comportar de maneira refratária em relação ao personagem. Toda vez que Sonny sai do banco para negociar ou revistar algum policial, zombarias e gritos colorem as cenas, dando aquela marca de "humanidade", de coisa real.
Cabe também registro do ótimo trabalho de Chris Sarandon, que estreou nesse filme com a bucha de viver um transexual em 1975. Seu personagem, Leon, é feminino sem ser caricato, algo raro para a época.
"Um Dia de Cão" é um filme genuinamente brilhante de um sujeito que, um ano depois, ainda emplacou "Network", nas minhas contas um dos maiores filmes do século passado. E o mais fasciante dessa história de absurdo, de exagero, de drama e comédia, esse rascunho das duas faces da vida, dos tons de cinza que pintam a nossa moral é que tudo aconteceu de verdade, em 1972, no Brooklin, em Nova Iorque.
É um filme que merece ser degustado porque desnuda um homem que ama outro homem, um homem que explode pela pressão, que vira alvo da mídia e ganha 15 minutos de fama, um homem que desafia a inépcia das autoridades, que joga com a massa. "Um Dia de Cão" fala sobre nós e nosso contexto de maneira sublime e precisa, sem caricaturas e sem o didatismo bobo e reduntande, que resume 90% dos filmes atuais.
Dane-se o clichê, mas não por acaso, diz-se que o "maior espetáculo para o homem ainda é o próprio homem". Assista! São duas horas do humano, demasiado humano.
às 15:40 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Mil e contando
Esta é a milésima postagem deste blogue. Não é nada, não é nada e... não é nada mesmo.
às 12:09 1 comentários Marcadores: Memórias
Feliz Dia da Toalha
"O fato de que vivemos no fundo de um poço profundo de gravidade, na superfície de um planeta coberto de gás que gira em torno de uma bola de fogo nuclear a 150 milhões de quilômetros, e achamos isso normal, é obvimanete uma indicação do quão torta tende a ser nossa perspectiva de normalidade".
Douglas Adams
O mundo seria um lugar melhor se as pessoas lessem os escritos desse cidadão. Feliz Dia da Toalha para quem é.
às 12:00 0 comentários Marcadores: Cultura

