sexta-feira, 27 de março de 2009

A mãe de todas as ressacas

Kenny Rogers nunca me pareceu tão sábio. "I just dropped in to see what condition my condition was in", diz ele numa obscura canção dos anos 60 que eu ouço demais - tenho o mal vezo de gastar uma música até não suportá-la, para aí então tornar a gastá-la. (Apertando a tecla SAP: "eu caí em mim para ver a condição em que minha condição estava"). Pois é.

Beber é mal, mas é muito bom. Encher a cara, locupletar-se como se fosse conviva de Dionísio (Baco), deus bonachão romano dos porres e adjacências, em alguma muito bem humorada bacanália (que vem de, não diga, Baco) pelos lados de Roma, uma Roma que chamamos de Pauliceia desvairada. Fossem os deuses mitológicos romanos - e gregos - algo sérios, muito provavelmente, Dionísio revoltar-se-ia com toda a razão pelo sacrilégio de uma das suas sagradas orgias virem a ser realizadas numa cidade com o nome de São Paulo. Pois sim, nome de santo, onde é que já se viu. Mas Baco não ligaria, a festa já acabou.

Mas hoje é outro dia. A sensação sentida daqui desse colchão, de tudo a girar, como num caleidoscópio perturbador, afiança que já passou. Aliás, passou a festa. Não o dia seguinte. Aliás, deve ser o dia seguinte. Aliás, eu já tive experiências de dormir demais no dia seguinte a ponto de acordar e ele ser o dia seguinte do dia seguinte, o que é horrível. Tudo quieto, deve ser de manhã, do dia seguinte, claro. Aliás, que dia foi ontem?

O terrível de um porre não é vomitar. Nem a dor de cabeça. Muito menos o gosto de cabo de guarda-chuva (guardachuva?) na boca. Uma desgraça, pior que doença, é se sentir sozinho. Eu sempre acreditei que, depois das mulheres, só podia ser o tédio a moléstia do século. Bobagem. Deve ser a solidão da ressaca.

E depois da solidão - não há capacidade narrativa capaz de traduzir uma ressaca - é, aí sim, o tédio. Não há uma maneira de se compartilhar a angústia de uma ressaca com uma mulher, o que é uma felicidade. Se houvesse, estou certo, ninguém chegaria a um segundo porre. O tédio advém do fato de que não há absolutamente porra nenhuma que dê para fazer mareado.

Ficar estirado na cama é ruim. O mundo gira, e é desagradável demais se sentir num carrossel, quando se sabe que não está em um. Levantar é pior porque girar parado é contornável se você se concentrar e fechar os olhos. Mas sentir o mundo dançando em pé é desconcertante.

Ler? Como? Não, traria portentosas e bastante aborrecidas dores de cabeça mais tarde. Que, aliás, já está doendo. Ver TV, pois olha, meu caro, se eu sequer desconfiasse onde diabos foi parar o controle da TV poderia vir a ser uma ideia. Mas aí eu teria que ir até o controle, e tenho medo de me mexer. Sinto no ventre
uma forma líquida e flutuante, independente da minha vontade, o mesmo que a personagem da Sigourney Weaver deve ter sentido no Alien. É, aquele filme ridículo, cheio de gosmas barulhentas e ridículas, dirigido pelo não menos ridículo diretor que vem a ser, veja você, diretor do (te esconjuro) "Fabuloso Destino de Amélie Poulain", largamente difundido por ser absolutamente ridículo.

Poderia ouvir música. Mas minha cabeça dói. Pensar na vida? Eis aí, meus caros, algo que dá para ser feito numa ressaca. Para quem nunca teve ressaca (aham, nunca? Sei...) é como estar acamado numa gripe. Você fica tendendo a comiseração e a um estado bastante contemplativo. É um tipo de lucidez que só um, ironia, porre pode nos trazer. A gente se vê em perspectiva, o que não é assim tão difícil de se fazer quando se está girando, uma hora ou outra você cai do carrossel. Os bêbados em ressaca sabem coisas que os sóbrios, em sua inútil filosofia, jamais sequer desconfiariam. Provavelmente é por isso que Guy Debord, uma notável autoridade no assunto, disse uma vez: "há homens que se embriagam uma vez e assim permanecem para a vida toda".

O mal da ressaca passar é que essa sabedoria vai embora. Desfaz. Porque se "tudo que é sólido desmancha no ar" (veja Marx), é muito mais justo esperar volubilidade instântanea de coisas que se julgam de ante-mão efêmeras. Mas o fato é que eu poderia ouvir música. Porque se não sou capaz de dizer onde estão o iPod e o celular, há ali um rádio perto de mim. É só girar o botãozinho e, voi-lá, som. Ruído. Algo para me dizer que há vida depois do porre.

Mas há riscos. Eles poderiam tocar funk. Sertanejo, pop, meu Deus, quase que com certeza eles tocaram algo que eu não goste - e eu já tenho problemas demais. Não. Música é arriscado.

Comida também é um caminho muito seguro para uma catástrofe. Há o refluxo. Não vale à pena arriscar e, arrisco dizer, se fosse buscar algo para forrar o pandulho é bem provável que não encontrasse nada que me apetecesse e, se somar o porre, a ressaca e a consciência a uma decepção dessas, é difícil de dizer, mas acho que não sobreviveria. Uma luz, neste momento em que você considera a ingestão de qualquer coisa uma possibilidade intensa e importante como seria discutir com Trumam se, afinal, valeria à pena jogar uma bomba em Hiroshima e ver que bicho dá, surge na sua cabeça: e onde diabos estarão aquelas cartelinhas de engov?

Engov. Na hora me pareceu um nome russo. E tem semelhanças: Andropov, Kasparov, Mutalikov, Karamazov, Engov. Talvez o comprimido passe a fazer as propagandas da Net e saudar-nos, sempre sorrindo, skavurska!. Aí você começa a cantarolar deitado em berço esplêndido Conditions do Kenny Rogers como um idiota, tropeçando em todos os versos possíveis e impossíveis. "Beber é um troço idiota, cara". "Eu sei. É por isso que eu bebo".

Nisso vem a gata branca que parece-me constituída de pelos (sem acento), ela só faz perdê-los, o que me deixa feliz, porque segundo todas as probabilidades, ficará careca muito antes de mim, vem ela, afinal, roçar-me as pernas estendidas. Diabos, o fato de você levantar o pescoço e a cabeça e "tá tudo bem" mostra que está passando. Aliás, tudo passa. Amanhã você é o mesmo sujeito de antes, o que é triste. Esquecerá cada uma das elucubrações e profundas verdades que a ressaca te permitiu perscrutar na alma de seus semelhantes. É o destino inexorável. Agora pare de cantarolar e diga para a gata: "sou uma pessoa profundamente infeliz".

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