Ontem eu, depois de uma abstinência de alimentos de 7 dias - e isso não é um récorde, já fiquei 9 e só comi no décimo dia porque se tratava de um casamento, e não convinha desperdiçar o bifê - resolvi que era hora de exercitar o estômago e dar-lhe chance de executar o peristaltismo antes que venha a esquecê-lo completamente, o que, embora eu tenha esse apetite tão irreverente, me traria os maiores dissabores (ahn? ahn?), posto que gosto de comer e de cozinhar.
(Peristaltismo, qualquer colegial sabe, é o nome dado aos movimentos que o estômago faz na digestão. Deite-se depois da refeição e observe sua barriga dar pulinhos: é o estômago trabalhando).
Enfim, para dar a chance de meu estômago fazer alguma coisa que lhe justifique a existência, preparei um sanduíche com algumas conservas e um forro de mortadela. Nada que um gourmet se orgulhe, mas ainda assim foi um primor para os olhos e para o palato.
Pão preparado e estômago avisado, sentei-me perante o computador para, enquanto assistia Life (muito melhor que Lost, fiquem todos sabendo), mastigava com o maior vagar possível - vim a saber recentemente que ingerimos tão rapidamente que não damos tempo ao organismo para que este nos avise da saciedade, motivo pelo qual comemos demais - dizia, comia com enorme pachorra, mastigando lentamente cada pedaço da conserva de pepino que fiz, da de cebola que fez minha mãe, da de beterrabas que fez meu avô quando, de repente, eis que sinto como se mordesse uma pedra.
Um pequeno pedaço duro, de alguma substância sem sabor algum, entrou na moagem dos meus dentes posteriores. Pensei: "mas que diabos eles andam pondo nesses pães?", "teria eu feito conserva de pedras no lugar de pepinos?", "é a capsula de um veneno que algum dos meus inimigos mortais teria colocado na minha comida para me envenenar?"
Que nada.
Aconteceu que quebrei um dente. Um dos molares. O que não me apavorou, por certo, sou uma pessoa naturalmente calma e paciente. O que me preocupou foi que julguei que um dente quebrado doeria miseravelmente. E não doeu nada. Não dói, aliás. Meu maior estranhamento veio do fato de que desconhecia que isso acontece com alguma frequência e não é nada de outro mundo. Tenho um amigo que bateu o garfo no dente e quebrou um pedacinho que coseguiram colar. Outro que rachou um canino ao morder uma rapadura.
Fico envergonhado ao pensar que quebrei meu molar com um pedaço de pão. Amanhecido, é verdade, mas ainda assim a pasta de trigo assada com fermento e ovos. É uma vergonha para a minha virilidade admitir que meus dentes são passíveis de quebrarem-se inapelavelmente com pedaços de pães. Eu poderia negar tudo, vir aqui escrever que mordi, de raiva, uma barra de aço por conta de algumas desgraças que me sucedem. Mas não. Passei da idade de mentir para contar vantagem. Passei, aliás, da idade de ter vergonha e de precisar provar a masculindade, e qualquer outra coisa, pra qualquer um. Portanto, brademos aos quatro ventos: meus dentes quebram ao contato com pão.
Passada essa profissão de fé, vale registrar que recorrendo ao pai Google vim a saber que dentes quebrarem é algo mais ou menos comum. Pode significar em casos graves deficiência de cálcio o que, vim a saber depois, é algo raríssimo na minha idade - embora meus hábitos alimentares possam causar uma desgraça como essa (duvido, minha mãe diria isso. Mas não faz sentido, muito antes de eu ter deficiência de cálcio, eu deveria ficar anêmico se a lógica fosse essa, mas não é).
E comum também é o concerto. Se quebrar uma parte dele, a gente cola com resina. Se você engoliu ou esmigalhou a parte (fiz ambos), não tem problema, a gente constrói outra parte com resina também. Se não chegou no nervo não dói nada. Se chegou, doerá espetacularmente e você terá que fazer canal - é quase como a ponte de safena da boca.
No fim das contas pode-se ver que poderia ser pior. Aliás, sempre pode ser pior. Vai ver que é por isso que me sinto tão feliz com um dente rachado e uma rebarba que roça a bochecha esquerda, sem nada pra fazer, tantas viagens para cumprir neste mês e sem ninguém para me magoar e prender - ou se sentir presa e dizer que me prendia, enfim.
Quer ficar feliz? Quebre um dente!*
(Sintam a ambiguidade)

0 comentários:
Postar um comentário