sexta-feira, 16 de abril de 2010

Teje preso, seô Papa! - A Gaiola das Loucas 2

Já há alguns dias ensaio essas linhas. Não que tenha adquirido o mau vezo de ponderar minhas bagatelas aqui constantemente regurgitadas, como oceanos de vômito mental, que se desdobram em intermináveis vagas e marés, conforme me abundam tempo, inquietações, ideias e assuntos. Não necessariamente nessa ordem. Mas é que me faltou tempo para escrever sobre o assunto. Vida de subempregado da mídia, não sei mais onde vai hífen, assim como não sei mais pra onde vai a vida, mas isso é outra história, porque o que toca escrever aqui é que, subempregado, ou sub-empregado que sou, da mídia prevalecida, se esvai por entre meus dedos todo o tempo que nunca tenho, escorrendo como a areia das ampulhetas, com a desvantagem de que, virando as mãos, não torna a areia a escorrer. E muito menos o tempo, backwards, como diriam os ingleses, mas que eu, que não sou inglês, só posso dizer em perífrase: "e muito menos o tempo, que não torna a correr, que não volta". Mãos não contam o tempo, conforme longa e larga filosofia humana nos contam. Contassem o tempo e não teriam criado as ampulhetas. Ou os relógios de sol. E mais tarde, os maquinismos até hoje muito úteis, mas que com celulares e outros portáteis estão tornando-se objetos de ostentação cada vez mais caros, infelizmente, porque sempre gostei de relógios de pulso, e daria um rim ou 10 anos da minha vida para ostentar um ou outro modelo Tissot, ou Citizen. Eu sou um poço de futilidade.

Mas muito antes de falar sobre minha tara por relógios de pulso, tinha a intenção, e por lá fiquei, parece, de falar sobre o episódio em que Richard Dawkins, um tipo de Obama do ateísmo, o campeão das hostes descrentes e sem fé, um bastião da dura luta da divulgação científica nessa terra de selvagens, um "papa" do ateísmo, assim como McLuhan foi cognominado da comunicação, anunciou que processaria o papa Bento XVI em virtude da sua complacência e cumplicidade em tantos e tantos casos lamentáveis de pedofilia e abusos sexuais contra as ovelinhas do Senhor, promovidos pelos seus aguazis nos quatro cantos desse mundo redondo.

Ponto, parágrafo: supondo que você do outro lado esteja meio cru no assunto, já pinguei por essas páginas algo sobre o momento recente das taras dos homens de batina:

Leia mais: "O papa, o profeta e o suporte religioso para o mal"
Leia mais: "A Gaiola das Loucas"

Feita a digressão, ponto. Voltemos ao texto:

O papa pode ser preso, primeiro e antes de tudo, porque é um homem comum - eu tenho tanta autoridade quanto o papa, a única diferença é que eu não tenho tanta gente que acredita nisso (e nem disposição para defender pedófilos, acusar vítimas, patrocinar o morticínio pela aids na África ou usar chapéis engraçados - tenho horror a chapéis engraçados, fé cega e mulher apaixonada), é um homem comum cuja cabeça, como diria aquele outro sedento por decapitar os potentados monarcas absolutistas (do qual o papa é o último remanescente) nos tempos das escaramuças de Cromwell, ou mais tarde nas da Revolução Francesa, deve responder pelos mesmos crimes e mesmas responsabilidades que o mais modesto plebeu. Para além disso está o fato de que "sua santidade" - que se frisem as aspas - não é chefe de Estado, embora seja o monarca absoluto de um bairro em Roma, que é o Vaticano. Dá mais ou menos para chamar de país, porque está aí Mônaco e seus nababos ostentando flâmulas e pavimentando o oceano para abrigar mais nababos. Não sendo o papa protegido pela imunidade conferida aos chefes de Estado em visita à boa ilha da Inglaterra, anciã na arte de pôr às mãos nos reis escolhidos, diziam, por Deus, pode suceder que o prendam, se este cair no desazo de por lá pisar e se, evidentemente, der motivo. E motivos, convenhamos, não faltam, para que "sua santidade", de aspas frisadas e batina amassada, vá ver o sol nascer quadrado de um xilindró londrino, por força do processo com o qual lhe acena sorridente Dawkins e toda a boa gente que promove a descrença. Eu daria barrigadas de riso.

A questão é espinhosa e se embrenha em sutilezas, como toda querela jurídica - sobretudo estas que se embasam no direito internacional. Ocorre que o Vaticano não é uma nação reconhecida pela ONU, o que faz do papa apenas um cidadão alemão comum, embora tenha passaporte vaticaniano,  e por ser um alemão ordinário - com duplo sentido, por favor - é objeto de qualquer sansão legal por crimes que venha a cometer. É o mesmo princípio que levou Augusto Pinochet para trás das grades, ser julgado por crimes contra a humanidade, quando foi passar férias na Inglaterra nos anos 1990. Dois criminosos, de crimes e dignidades diferentes, Pinochet um assassino debochado e truculento, Bento XVI um cúmplice de pervertidos debochados. A diferença entre os dois reside no fato curioso de que bem poucas pessoas acham absurdo prender um genocida e ex-ditador. Assim como todos acham de muito bom proveito à humanidade processar criminalmente pedófilos e cúmplices desses depravados. Mas a proporção é inversa quando se trata de padres e do chefe deles. Tudo muda de figura se o sujeito usar um chapéu engraçado, uma saia, jurar pela vida toda pobreza e castidade sem ser capaz de cumprir, e ainda ter a cara-de-pau de dizer que as vítimas são culpadas e que os crimes que comete e patrocina e que, quando denunciados, bradam e evidenciam uma "perseguição" a si e à instituição que representa. Mas nunca a manifestação da verdade. Quando isso acontece, pessoas racionais dizem que é absurdo. Que o papa é intocável. Vivem na Idade Média. Como se o tempo voltasse, inverdade já esmiuçada no primeiro parágrafo deste texto, vão para o tempo em que uns eram melhores que outros, e a eles tudo era dado, inclusive o direito de sobrepor-se à Lei, ao certo e ao errado.

E pedofilia é um crime contra a humanidade. E o papa, na melhor das hipóteses, foi cúmplice de hordas de padres que puseram a mão e outras extremidades onde não deviam. No vulgo, sem ser vulgar, foram mexer com quem não deviam. E o papa, quando prefeito da Santa Inquisição, fez vistas grossas. Semana passada uma carta, assinada pelo então cardeal Ratzinger em 1985, manifesta sua misericordiosa contrariedade em expulsar e entregar um padre pedófilo às presas pingando saliva da Justiça comum. Haja bondade.

O que impressiona é a reação das pessoas diante da ameça de alguém deitar as mãos no Seu Bento - defendem-no como a um santo, um mártir, proscrito pela sua fé e conduta correta. A fé cega. Como se "sua santidade", em vez de tratamento, tornasse-se dignidade automática do papa. Como se o cargo que ocupa, por vontade, construção e intenção humana, fosse necessariamente um pendão de Deus a sobraçar ameaçador sobre nossas cabeças. Como se, enfim, o papa fosse infalível e estivesse incólume, longe das inquietações humanas, longe dos nossos erros e vícios. Como se papa não pecasse. Como se o papa tivesse seus pecados automáticamente redimidos, seus crimes perdoados. Por mais que abundem toneladas de provas e indícios em contrário. E se nada foi comprovado e o papa é inocente, ora, que permita que a verdade se descortine por de trás de suas saias. Se não tem o que esconder, por que o silêncio sepulcral em torno dos crimes? Por que dizer que as denúncias contra seus jagunços religiosos, brandindo ameaçadores crucifixos e bíblias, ameaçando todo o mundo de danação eterna, é uma perseguição maquinada por satanás? Por que, enfim, ofender as vítimas e não ser capaz da humildade de um pedido de desculpas?


Como diz um amigo, "ora, que bonito, eles passam a vida toda reprimindo a vida sexual de milhões de pessoas, enquanto praticam sexo com crianças". Ou como o deboche me manda lembrar: "o papa passa a vida toda proibindo as mulheres de darem. E elas continuam dando. O papa passa a vida toda ameaçando de danação eterna os homossexuais, ao passo que debaixo das suas saias, um jagunço seu encomenda garotos de programa pagos com o suado dinheiro do dízimo, colhido das mãos ignorantes das multidões. E há ainda seus esbirros espalhados pelo globo, aliciam menores e outras coisas feias". E a saída para tudo isso? Ora, penitência!

Aliás, nada mais surpreende. Não levaram 400 anos para perdoar Galillei?

Fosse eu o líder de uma empresa, e um dos meus funcionários cometesse pedofilia e eu acobertasse, seríamos ambos, quando descobertos justamente acusados, presos e responderíamos pelo crime. Por que o papa não? Por que Deus não quer? Então quer dizer que Deus está de acordo com a pedofilia?

Leia mais: "O papa, o profeta e o suporte religioso para o mal"
Leia mais: "A Gaiola das Loucas"

1 comentários:

Diego Ramires disse...
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