terça-feira, 6 de julho de 2010

Só há beleza na derrota àquele que torce

Foi bonito. A diferença entre torcer para o Brasil - especialmente como os torcedores de ocasião, que a cada Copa do Mundo abraçam tudo que for verde e amarelo, aborrecem quem gosta de futebol e quem se dá o direito de votar simpatias para seleções para as quais não tem vínculo geográfico - e outra seleção, é que quando seu time cumpre com a obrigação e dá aquele algo a mais, mesmo que perca, no final, você fica feliz. Brasileiro quando perde é escândalo nacional. Alguém é culpado e execrado em praça pública e a esfera de debate público vira uma grande vala comum em busca do verdugo que avacalhou e deitou por terra todos os sonhos brasileiros. Quando a Argentina perde, de goleada, para a Alemanha, 15 mil pessoas vão ovacionar os jogadores no aeroporto. Quando o Uruguai perde, olhamos de lado e esperamos. A sabedoria da gente do sul está em ser amiga do tempo.

O Uruguai, hoje, caiu. Mas caiu em pé. Os uruguaios, mais ou menos como é recorrente em tudo que fazem, ficaram enfesados, deram o sangue, correram. O sangue celeste é sangue de gente séria, ferve nas veias e faz com que a seleção dos orientais do Prata façam coisas impossíveis, como, por exemplo, vencer Copas do Mundo. A derrota foi "uruguaya" a não mais poder. Foi com fé até o último lance, com um fio de esperança, com sufoco, apego, entrega.

A seleção do Uruguai pode renascer. A lição a tirar é que sempre é possível, que tradição não se compra e que a camisa Celeste reluz bonita nos estádios do mundo quando ocupada por gente de fibra que acredita no que faz e o faz com prazer. Provavelmente a maior lição da Copa do Mundo da África do Sul para uruguaios da gema e uruguaios de adoção como eu é a perda do medo de vencer, que por tantas vezes nos entregou às lágrimas, ao ocaso e a lástima da oportunidade perdida por aquele pouco que faltou.

E, no fim das contas, jogamos bem. Não foi por muito e vendemos caro a vitória para a pragmática equipe holandesa, que pode acabar campeã da Copa do Mundo.

No mais, Uruguai, não chore. O tempo no Uruguai não passa, não volta, não acelera. Por lá o tempo também espera. Como eu disse no texto anterior, por lá o tempo é. E para um tempo que não se move, apenas existe, sempre haverá tempo, porque outras Copas virão e nelas sempre estarão novas batalhas e a gente séria das margens do Prata peitando o mundo e fazendo com que digam que o "Uruguai foi longe demais nessa Copa". O Uruguai nunca irá longe demais, o Uruguai vai ao impossível. Longe é lugar comum para quem vê o futuro infinito e azul do céu.

E ainda há, claro, o terceiro lugar. É uma honra que, se por um lado é comezinha diante de um título, é enorme diante de 23 corações celestes cansados de apanhar. E esperar.

2 comentários:

Nina. disse...

Estou muito chateada porque o Uruguai saiu do páreo. As lágrimas que não apareceram na eliminação do Brasil encheram meus olhos hoje.
Gostei do que escreveu sobre o tempo no Uruguai. Alguns dias para sempre na capital.

*por p. disse...

eu torci com afinco pros celestes. e me chateei. meus olhos se encheram de lágrima 3 vezes nessa copa: pelo brasil (de raiva), por gana (de decepção por ve-los perder tão dolorosamente) e por uruguai (que embora não seaiba explicar direito, ganhou minha simpatia na última hora, pois não acompanhei o desenvolvimento da equipe a não ser pelo famoso "ouvi falar). mas mesmo assim me enchi de tristeza por eles.