terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Gaiola das loucas

Quando, em 2005, a igreja decidiu por Bento 16, quando podiam ter escolhido um negro, um asiático, um latino-americano, mas foram de alemão conservador da Juventude Hitlerista, eu cheguei à conclusão de que a igreja havia descoberto que tinha fiéis demais, e que devia perder, pelo menos, a metade.

Agora, depois de ter readmitido bispos que negam o holocausto, de ter abrigado debaixo das saias padres pedófilos e ter dito uma tonelada de besteiras desde que assumiu o último trono absolutista do mundo, com o espocar constante de escândalos de corrupções que fazem corar as mais sanguinárias ratazanas de altar, Bento entrega os betes e abre espaço para a igreja promover outro reacionário a um posto que poderia muito bem ganhar a divisa de Poder, Corrupção e Mentiras.


A queda de Bento 16 é só mais um sintoma da falência da ideia da religião no mundo. Mais que isso, é sintoma da doença crônica da qual padece a santa sé, milenar burocracia planetária que, incapaz de se reinventar, se descobriu impedida de dirimir suas divergências internas pelas veias democráticas. Afinal de contas, armar a guarda suíça e sair por aí matando adversários, cardeais e arcebispos não é mais um recurso entre o arsenal deles, escondidos nas vastas saias de sua santidade. E, ainda que o fosse, já não sufocam os problemas, antes, os aumentam.

Que as religiões, em geral, estão totalmente em descompasso com a realidade já se sabe. Mas o caso da igreja católica é mais grave: nesta última quadra, se abraçou sem medo num conservadorismo, na ideia da dimensão terrena e estritamente convencional daquilo que sua gente de batina resolveu decidir ser a palavra do tal deus e a orientação política e econômica conveniente para se chegar à terra prometida nos santos evangelhos. A derrocada tem data: a igreja perdeu-se em 2008, no exato momento em que o primeiro banco grande demais para cair se estatelou nos derivativos e na curiosa ideia de emprestar dinheiro que não existe para quem não tem como pagar.

O saldo das estripulias dos banqueiros foi uma crise social sem precedentes. Embastilhados na dourada vizinhança romana em que vivem, os burocratas do Vaticano divisam uma Europa contrita, empobrecida, quebrada e pronta para as convulsões sociais. Em meio à tudo isso, a igreja não tem nada a dizer para o seu, antes, enorme rebanho. Talvez tivesse se, em vez de usar Ratzinger como rolo compressor que pavimentou a amistosa ideia de Teologia da Libertação nos anos 1980, a tivesse promovido e entendido que os tais libertários queriam, no fim das contas, apenas falar aos mais pobres. Agora, à igreja, resta trocar de papa e orar. Rezar, como se sabe, é uma forma de tentar ajudar a resolver um problema sem fazer nada.

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