Houve um tempo em que eu dedicava esse blogue a absorver minhas impressões sobre livros que lia. Parei com isso porque, invariavelmente, passado algum tempo, ao revisitar as minhas opiniões e textos, me deparava com idiotices tão acachapantes que acabava envergonhado. Outra razão é a entropia da vida, que desregula até mesmo gostos e prazeres intensos: pra falar a verdade, eu leio muito menos do que antes e tenho tido muito menos vontade de escrever.
Mas como persistir no erro é um talento tão decisivo nesse que vos redige, vamos voltar a falar de livros.
Eu devo ter passado uns 10 anos atrás de, ou às voltas, com a ideia de ler "Albert Speer - A Sua Luta com a Verdade". Trata-se, o livro, de uma caudalosa biografia sobre o cidadão que lhe dá nome, um talentoso, inseguro, ambicioso, charmoso arquiteto, sujeito inteligente e gestor de enorme capacidade, que teve o desazo de virar "o melhor amigo de Hitler", segundo as palavras do próprio, e ser, de alguma forma, testemunha e cúmplice do Holocausto e demais estripulias bélicas cometidas pelo führer e seus asseclas naqueles loucos anos entre 1930 e 1940.
O fascinante na história de Speer é que trata-se do nazista improvável. Hoje vistos com algum exagero como criaturas irascíveis, valentonas e normalmente burras, os nazistas parecem ser o último refúgio de alguém com as origens aristocráticas do arquiteto que viria a embarcar na megalomania do Reich que queria, entre outras coisas, erguer um colossal estádio de 400 mil lugares em Nuremberg para comícios partidários, derrubar toda Berlim e reconstruí-la em proporções que redefiniriam a qualidade do adjetivo faraônico.
Improvável também porque trata-se do homem, enfim, que atraído pelo carisma de Hitler desenvolveria com esse uma relação que o próprio admitiu ter contornos eróticos, não no sentido homossexual da ideia, mas no sentido de atração que vai além da amizade. É um pouco complicado assimilar a ideia sem todo o contexto da relação dos dois, mas fica difícil tirar do termo as conotações que inevitavelmente adquire. E, no fim das contas, vá você traduzir termos do alemão para ver as complicações...
Depois de arquiteto do Reich, em 1942, Speer tornar-se-ia ministro dos armamentos. O cargo lhe dava enorme controle sobre o esforço de guerra, influência decisiva sobre os planos quadrienais de Göering (por algum motivo, a Alemanha nazista delegava a tarefa de planejar à economia a um corrupto marechal da força-aérea) e sobre a produção de material bélico. Suas capacidades de gestor da empreitada, dizem muitos analistas, deu à Alemanha capacidade de sustentar a guerra por mais dois anos.
O que faz de Speer um sujeito único no contexto da Segunda Guerra é o fato de que ele assumiu uma responsabilidade genérica pelos crimes durante o julgamento de Nuremberg (sendo, aliás, o único réu a tomar essa posição, de forma falsa ou não), efetivamente pediu desculpas pelo e ao povo alemão e sabotou ordens de Hitler que visavam tornar a Alemanha num deserto improdutivo e medieval ao fim da guerra, todos comportamentos que lhe renderiam o título, em tom de deboche, de ser o "bom nazista". Para além de tudo isso, Albert Speer passou a vida (morreria em circunstâncias não muito lisonjeiras em 1981) dizendo que, não, nunca soube do holocausto e da solução final.
Sei.
Embora uma série de indícios esmagadores sempre tenham surgido contra as alegações de Speer sobre não saber dos crimes promovidos contra minorias e, em especial, os judeus, há também indícios de que ele poderia mesmo não ter sabido de nada. Esse, ao menos, é o panorama do livro.
Magistralmente escrito por Gitta Serený, facilmente uma das maiores jornalistas investigativas da história, a biografia devassa a vida de Speer em todas as suas fases para determinar para que lado pende a balança desse confronto, assumido de forma decisiva pelo próprio Speer em sua vida: provar que não sabia a quem sempre desconfiou.
O confronto é sempre estabelecido por Serený, que assume a forma de uma jornalista imparcial e contundente na busca da verdade.
O livro fala do Speer jovem, oprimido por uma família fria e distante. Sobre o começo do relacionamento com Hitler, que se considerava um artista diletante e afastado do ofício em virtude da política, e a forte impressão causada neste pelos seus trabalhos no führer, aborda os anos todos da guerra, o julgamento, os 20 anos de cárcere em Spandau, a relação com a família nesse período e dá um panorama da vida em liberdade, até a morte em 1981.
O mais interessante da linha adotada por Serený para o livro é sua admissão sem remorsos e comprometimento de que acabou se afeiçoando e tornando-se amiga de Speer.
Isso lança às bases para avaliar o livro em um novo patamar, em que confrontos nos quais Serený cerca o biografado com uma série de perguntas, fatos, documentos, testemunhos e indícios históricos sobre a sua postura na guerra e o conhecimento, ou não, dos crimes acabam definindo a ideia de "luta" contra a verdade expressa no título.
São mais de 1000 páginas em que esses duelos se repetem à exaustão. Na maioria dos casos, Speer se sai com uma tática que sempre marcou sua posição sempre que perguntado: sempre a mesma resposta de que "poderia ter sabido, mas não soube e em sabendo deveria fazer algo", além de evasivas gerais.
Em apenas um caso, Speer claramente se perde: quando questionado pelas evidências que sustentam que ele estava presente no discurso de Posen, quando Himmler, numa estratégia para fazer de todas as lideranças partidárias cúmplices do holocausto, abriu o jogo e explicou a solução final a todos os presentes. Speer não soube fugir dessa acusação e só o fez com documentos juramentados por antigos amigos, sustentando que ele esteve na convenção, mas não no discurso.
E mesmo que não tivesse estado, salienta Serený, ninguém dos seus contatos comentaria nada com ele nos dias seguintes? Há relatos que mesmo nazistas de naipe e enormes quantidades de espírito de porco tiveram sérios problemas para ouvir e admitir o conteúdo do discurso de Himmler.
Outros duelos se seguem e, no meio de tudo isso, o livro encaminha-se para uma conclusão fácil, que na verdade dispensa a leitura das 1000 páginas: Speer deve ter sabido de tudo e sua postura de afirmar o contrário pode ser tida sob duas perspectivas: estratégia de sobrevivência e arrependimento legítimo.
Lendo sobre as transformações de Speer fica realmente difícil não acreditar que seu arrependimento não fora sincero. Durante anos, usou parcelas consideráveis das gordas remunerações que obteve com seus livros escritos pós Spandau para financiar uma série de ONGs e grupos de assistência a sobreviventes de campos de concentração. Sua relação com a moralidade, leituras religiosas e posicionamentos suportam a ideia de que, no fim das contas, mesmo criminoso de guerra e cúmplice que, se aplicada a mesma régua que mediu seus 15 colegas de nazismo condenados à morte em Nuremberg, devia ter sofrido o mesmo destino, estava realmente compungido por sua contribuição nesse desastre.
Como já adiantei, a conclusão do livro é óbvia no que tange o conhecimento de Speer sobre as monstruosidades do regime: ele deve ter sabido de tudo. Mas a conclusão sobre até onde ele se arrependeu e mudou em virtude do que viu, da admissão do caráter eminentemente maligno de Hitler e do fim da guerra é algo que fica aberto a debates e ao melhor julgamento do leitor.
Sobretudo por outros traços do seu perfil, tão claramente esboçados no livro: frieza e falta total de empatia. Essa última, aliás, sempre mencionada como ausente na psique de psicopatas, é a marca definitiva que, nas minhas contas, define Speer como um mentiroso de muitos recursos: a quem falta empatia, falta a capacidade de se colocar nas circunstâncias do outro e encontrar o sofrimento sentido por alguém desconhecido. Defeito, aliás, recorrente em qualquer liderança nazista do período.
* Para quem não vai ler sobre Speer nessa biografia espetacular, vale lembrar que muito tempo depois da publicação do livro e da morte do arquiteto, evidências muito comprometedoras surgirão demonstrando seu total conhecimento sobre o holocausto.
* Para quem tem prevenções gerais contra a leitura, que vão além de zelo contra ler qualquer coisa de 1000 páginas, há um documentário essencial sobre concepções artísticas e estéticas do nazismo, tão intimamente ligadas com a figura de Speer: "A Arquitetura da Destruição". Mesmo não versados em história da Segunda Guerra fazem a si mesmos um favor ao verem o doc, que é facilmente encontrável para download e até mesmo no YouTube.

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