"Acho que eu fui conhecer de verdade meu pai quando eu tinha 16 anos. Eu preguntei pra ele como ele era aos 16. Não vou esquecer nunca o jeito que ele largou o que estava fazendo e me encarou com uma cara que parecia de susto. Meu pai me disse que sempre queria que eu e minha irmã fizéssemos essa pergunta.
Até ali, a gente tinha uma relação de pai e filho acho que comum. Ele sempre foi um pai dedicado, não posso reclamar de nada. Mas acho que a gente nunca foi muito próximo, pelo menos até esse dia.
A coisa mais legal sobre meu pai era a minha mãe. Os pais dos meus amigos viviam em pé de guerra, muitos eram divorciados, e eu ouvi cada história. Mas os meus pais pareciam indiferentes a esse tipo de problemas. Eram unidos, conversavam, trocavam carinho e eu respeito muito os dois por isso. Pra muita gente é bobagem, mas uma família unida é algo importante.
Quando eu perguntei pro meu pai como ele era na adolescência ele ficou feliz. Ele me disse que sempre quis saber esse tipo de coisa sobre o meu avô, que eu não conheci. Meu pai explicou que achava que ia ter bastante tempo para saber e perguntar essas coisas, mas aí meu avô morreu. Ou, como ele disse 'só que aí a vida aconteceu', era uma frase que ele usava muito pra situações de decepção.
Meu pai me contou, e jurou que era o melhor que ele podia fazer com a memória que tinha, para falar como ele era quanto tinha 16 anos, e além. Foi uma conversa muito legal, e eu fiquei feliz de ter perguntado, porque eu aprendi que meu pai tinha medo, era tímido, não ia bem em esportes, acordava muito cedo pra ir pro colégio. Como a cidade tinha um inverno rigoroso, ele me contou que nos dias bem frios era comum chegar no ponto do ônibus escolar, depois da caminhada de 20 minutos, com o cabelo congelado de orvalho. Ele contou que a família dele não passava necessidade, mas que as condições eram muito severas. Fiquei triste em saber que ele passou os três anos do ensino médio com uma calça de uniforme da escola porque não tinha grana pra outra. Não consigo me imaginar numa situação assim hoje em que a gente tem um outro tipo de vida.
A gente conversou por horas. Depois de um tempo, meu pai disse que já não tinha certeza se estava sendo fiel à cronologia, mas ele prometeu que era tudo verdade, ou pelo menos, tudo do jeito que ele lembrava que tinha acontecido.
Como a gente ocupou a sala por horas naquele sábado, minha irmã e minha mãe acabaram ouvindo uma boa parte da conversa. Eu percebi que elas foram se interessando cada vez mais pelo papo.
Aí minha irmã, que acho que não tinha entendido direito a ideia, atravessou tudo e perguntou como ele tinha conhecido minha mãe. Meu pai disse, 'ah, isso foi bem depois de onde nós estamos, mas eu conto'.
Meus pais se conheceram de um jeito bonito. Ele até mostrou pra gente a primeira vez que ele falou com a minha mãe via internet, as mensagens que eles trocaram. Tinha até a data: 15 de setembro de 2012! Meu pai disse que ele ficou muito interessado na minha mãe desde o começo, mas que ele tinha medos e uma série de problemas para resolver. Eles se enrolaram por um tempo, meu pai disse que foi culpa dele, mas que não foi por mal.
Aí ele explicou que a minha mãe se apaixonou fortemente por ele desde o começo e, ao contrário dele, se entregou completamente ao que sentia. Que isso acabou dando espaço para que ela sofresse bastante até ele se endireitar.
Eu nunca vou esquecer desse dia. Primeiro, porque eu fiz meu pai feliz. A gente, enquanto filhos, nunca pensa nisso, que a gente pode, e deve, fazer nossos pais felizes. Segundo, porque eu acho que ele realmente falou a verdade, porque ele contou umas histórias em que ele não tinha razão, ou atuou de forma errada. E me explicou porque tinha agido daquela maneira, orientando para que eu tivesse mais cuidado.
Acho que ele continuaria falando por mais algumas horas se não tivesse dado o horário da largada da corrida que ele estava ansioso pra ver há uns dias. Eu não entendo a paixão dele por esse esporte bobo, eu gosto mesmo é de futebol, como a minha mãe. Enquanto ele e minha irmã assistem os carros darem uma infinidade de voltas por horas numa pista qualquer, a gente vai ao estádio ver gente de verdade”.

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